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Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 33)

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Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 33. Planta (3)

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 32)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 32. Planta (2) Havia duas semanas que a planta não recebia água. Seu dono teria viajado? Do outro lado da sala, o orégano, a salsinha e o alecrim estavam nas últimas, sequinhos, estirados na terra esturricada. É verdade que todos tinham sido mal-acostumados pelas borrifadas diárias de água mineral, plantas de prédio. Nunca aprenderam que a chuva não caía sempre, sobretudo naquele ano de 2014 em São Paulo. Apenas o manjericão resistia um pouco mais dignamente, valendo-se de seus caules espessos. Era uma planta com um plano: fugiria do vaso.

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 31)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 31. Planta (1) Ela chegou ao apartamento toda enrolada num plástico escuro, mas já causando o maior escarcéu, soltando uns tantos torrões de terra preta no tapete. Media cerca de quinze centímetros, sem contar as raízes, uma mudinha ordinária que não prometia nada, ainda mais com aquela folhagem rala, murcha e toda furadinha devido à gula das lagartas. Para compensar a desvantagem inicial, ganhou um vaso enorme, um lugar sob o bom sol da manhã e todas as atenções de seu dono. Chamava-se manjericão na horta amadora, Ocimun basilicum na floricultura, e basílico ali pela freguesia dos Jardins, que aprecia exclusividade e distinção. Qualquer um com um pouco mais de conhecimento empírico de plantio reconheceria esse vegetal egoísta, que assassinaria sem dó qualque...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 30)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 30. Inara (3) — Doutora, eu agradeço demais o seu interesse pelo meu caso. Vou te dizer que aquilo foi um circo, ninguém investigou os fatos como manda a lei. Eu logo vi que só queriam arrumar um culpado qualquer pra encerrar o caso o quanto antes, e sobrou pra mim. O interrogatório foi assim. Ele: Nome? Eu: Inara Tavares. Ele: Idade? Eu: 28 anos. Ele: Profissão? Eu: Enfermeira. Ele: Estado civil? Eu: Divorciada. Ele: Qual era sua relação com o falecido Luan Onório Limenha? Eu: A gente saiu durante um tempo, e eu fiquei grávida do meu menor, o Luccas. A gente nem sabia ainda da gravidez quando o Luan sumiu. Desapareceu sem dar nenhuma explicação. Um ano depois reapareceu, disse que tinha voltado por mim e pelo bebê, mas daí já era tarde. Eu já est...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 29)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 29. Inara (2) Desde os treze anos, Inara gostava de especular sobre os prazeres da maternidade. Jurava para seus bebês imaginários que seria tudo aquilo que ninguém tinha sido para ela. Aos quinze, apareceu a oportunidade de provar que ela falava a sério. Na época, namorava Edilson, que não era adepto dos preservativos modernos e confiava além da conta em métodos como a oração e o chá de arruda para limpar os líquidos nocivos à saúde e ao planejamento familiar. Que merda, e agora, Naná? Agora a gente cria ela. Como você sabe que é menina? A tia Arê viu pra mim numa simpatia que não falha. Por mim essa criança não nasce, você sabe que não tenho dinheiro pra nada. Não fala assim que é pecado, Ed, é a nossa filha! Eu não quero, minha ela não é. Nesse dia, Inara ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 28)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 28. Inara (1) A primeira vez em que Inara apareceu na TV foi uma choradeira só, antes, durante e depois. A avó a levou a um desses programas de auditório em que o povo lava a roupa suja ao vivo e a cores, uma fase triste da mídia brasileira que teve seu pico ali pelo fim dos anos 1990 e que, esperamos, deve se extinguir a qualquer momento, assim que o bom senso se tornar lucrativo. O tema daquele dia era “Você que fez, você que crie”. O “você”, no caso de Inara, seria mais correto no plural, porque se referia ao pai e à da mãe da menina, que sumiram no mundo e deixaram o pepino para a avó. O pepino era Inara, que, há de se admitir, não era de todo ruim, criança obediente e tudo o mais. O problema era isso de ela precisar comer, vestir e calçar, que demandava ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 27)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 27. A inominada (3) Bizarra aquela japinha de cabelo igual ao do Sonic, pensou Leandro, mas quando percebeu que ela não era a arruaceira que supusera à primeira vista, até que ficou com vontade de conhecê-la melhor. Fizeram à moda americana, já que ela era fã de Mom I became a Spider, Trends, Text to Nicky e seriados afins. No primeiro encontro, foram ver um filme do Studio Gigi no cinema. Parece que houve milhares de beijinhos durante os créditos finais, só pararam quando a luz acendeu e eles se perceberam os últimos sobreviventes na sala. No segundo encontro, assistiram a uma peça experimental inspirada em pinturas do Goya. Ele ficou um pouco cabreiro com as bruxas, mas fingiu que segurou firme a mão dela por puro romantismo. No fim do mês, já tinham experi...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 26)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 26. A inominada (2) Foram muitas conversas tarde da noite entre o pai e a mãe. A garota, que só pegava umas palavras soltas através da parede comum aos quartos, pressentia que algo estava para acontecer. O anúncio se realizou, por fim, muito solene à hora do jantar: — Inominada, seu pai e eu decidimos que está na hora de você estudar numa escola melhor. Daqui a um ano você vai prestar vestibular e queremos que tenha todas as chances de seguir uma boa carreira. Amanhã vamos pra São Paulo fazer a sua matrícula no cursinho Alpha Centrum e procurar um pensionato de moças pra você morar. Que final de semana memorável aquele que passaram na capital! Matrícula feita, contrato com o pensionato assinado, toda a família, que no caso eram só os três mesmo, retornava par...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 25)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 25. A inominada (1) Aquela cujo nome nunca mais pronunciaremos nasceu e cresceu num sítio no interior de São Paulo. Foi dona de cachorros, gatos, coelhos, pássaros, vacas, cavalos, um burrico, uma fazenda de formigas, duas casas na árvore e ainda achava que era pouco. Seus dias mais felizes eram aqueles em que ela e a mãe passeavam no shopping da cidade grande enquanto o pai ia resolver a venda da colheita. Voltavam com o porta-malas repleto de sacolas e, quando as filhas do caseiro vinham fazer mexerico, a garota respondia que tinha comprado tudo em Melão, uma cidade onde nevava o ano inteiro. As outras ficavam de queixo caído. Havia uma escola rural perto do sítio, mas a inominada nunca estudou lá. De segunda a sexta, uma condução vinha buscá-la na porteira...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 24)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 24. Lúcia (3) Tirei um fim de semana pra visitar a Lúcia no Rio de Janeiro. Seu apartamento, aquilo sim, é casa de gente adulta, um desperdício que seja tão pouco usado. Ela é engenheira petrolífera, passa mais tempo na plataforma do que no duplex com vista para o mar. Disse ter ouvido uns boatos estranhos na empresa e que, por via das dúvidas, estava acionando uns contatos no exterior, em caso de. Pensei que esse tipo de insegurança não existisse no setor público, eu lhe disse. Todos pensam isso, mas o que é seguro nesta vida?, ela respondeu. Lúcia teve a paciência de fazer o tour completo comigo, já que era minha primeira vez na cidade. Frequentamos todos os cenários das músicas da Bossa Nova, não tão maravilhosos quanto nas músicas. Apesar disso, fi...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 23)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 23. Lúcia (2) Lúcia nunca nos contou que ela e o irmão tinham sido criados pelos tios. Tampouco desconfiávamos, porque ela os chamava de pai e mãe, e havia a semelhança física. Quem deixou escapar foi a imã-coordenadora-pedagógica numa conversa de corredor. Gostaria de esclarecer que não me interesso tanto assim pela vida alheia, só comecei a prestar atenção quando ouvi o nome de minha amiga. Entenda, a vida foi muito dura com a Lúcia Koeda, órfã, coitadinha, justificava a religiosa. Outra revelação daquela bisbilhotice involuntária foi o incômodo de certo professor com o jeito da minha amiga. Reclamava com a pedagoga que, veja bem, era difícil explicar, a aluna fazia tudo o que ele pedia, mal abria a boca, só tirava notas máximas, mas ela tinha aquele...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 22)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 22. Lúcia (1) Lucinha era uma boneca, os adultos diziam. Os cabelos pretos, divididos precisamente ao meio e amarrados com fitas vermelhas (pra prevenir quebrante), caíam caudalosos, amazônicos demais para a pequena sansei. Os pezitos, embalados em meias brancas rendadas e sapatinhos igualmente alvos, balançavam sob a carteira. Escrevia no caderno com capricho, revezando as cores das canetas cintilantes que ia tirando do estojo, uma por vez, e guardando logo que concluía o uso. Naquele fim de manhã, lá pela hora quando o estômago já reclama almoço, a diretora entrou na sala do Pré-III, seríssima, e todos se puseram a pensar nas travessuras recentes que talvez tivessem sido flagradas – a descarga não apertada, a caricatura a giz na calçada, as flores do...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 21)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 21. Lila (3) (Carta sobre um túmulo) Querido filho, Hoje chorei muito quando pensei que não vou poder ir no seu casamento. Ia ser lindo ver você entrando na igreja... Mas você se foi. Pouco depois o patrão velho também, como sempre fiquei pra trás. Graças a Deus, o Samuel está bom, pelo menos isso. Ele foi morar nos estrangeiros, onde pedreiro ganha mais do que um doutor do Brasil. Agora dizem que nem tanto, mas ele tá lá junto com a esposa guardando dinheiro pra fazer a casinha deles aqui perto dos seus, se Deus permitir e Ele á de querer. Eu não fui com eles só porque não tenho mais idade pra aprender outro idioma, mas eles queriam muito, eu até pensei, mas depois mudei de ideia. Deus sempre me deu força pra cuidar de todo mundo, a novidade é isso de...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 20)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 20. Lila (2) O iPhone foi um presente do filho mais velho, Samuel, um reconhecimento do sacrifício que ela fez pra pagar os 52 boletos da faculdade dele – curiosamente o ano letivo tinha oito meses de aulas, mas lhe cobravam treze mensalidades. Formado em Administração, o rapaz acaba de ser contratado por uma multinacional do ramo alimentício e já aproveitou para marcar a data do casamento. Bem diferente do irmão, Sérgio, que mal para em casa. A mãe descobriu que este tá mexendo com drogas. Torce pra que seja usuário e não traficante, na esperança de que o vício mate menos que a polícia. Ai, meu Deus, cuida desse menino, porque ela já não sabe mais o que fazer. Samuel e a noiva propuseram que Lila saísse da casa do doutor José Reynaldo e fosse morar co...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 19)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 19. Lila (1) Apesar da obviedade, poucos deduzem que Lila vem de Dalila. A mãe ouviu o nome num filme antigo da TV, ficou fascinada com a figura daquela mulher belíssima que derrotava o grande herói. Traidora aos olhos de Deus. Essa mesma mãe, que nomeou a menina, mas que nesta narrativa não terá direito a nome próprio, morreu de desgosto, segundo dizem. Para o mundo, foi como se nunca tivesse existido, tendo consumido a vida em trabalhos duríssimos na Califórnia e arredores – a cidade paranaense, não o estado gringo. Desde a infância, trabalhou de empregada em casa de gente rica, onde teve notícia do aparelho de televisão já na década de 1960. O diabo era o marido, que bebia não só o salário dela como a alma das mulheres da família. Os filhos homens f...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 18)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 18. Natália (3) — Você ficou sabendo que o Vítor vai casar? Ninguém mandou engravidar a namorada! Minha mãe disse que não quer saber de criar neto, que é pra ele arrumar um emprego e se virar. Meu pai nem falou nada. Depois do caso da Paty Pistoleira, ele fica bem quieto, senão também vai ter que ouvir a mesma coisa: que é para ele arrumar um emprego e se virar pra pagar a pensão. Até o Luís tá firme no namoro. Fiquei oficialmente pra titia. Não estou reclamando, nada disso. Ganho bem no banco, trabalho só seis horas por dia. Quando chego em casa tenho uma TV enorme me esperando com todas as séries que eu gosto, um vinhozinho argentino. Pra que vou querer homem? Outro dia, sabe quem me mandou um e-mail depois de mil anos? O Manuelzão. Sim, o próprio. Disse qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 17)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 17. Natália (2) Romualdo, o pai de Natália, venceu uma ação contra o filho da puta do jornalistinha de merda que fodeu com a vida dele e, do dia pra noite, a família ficou rica, ou quase isso. O caso se arrastou anos na Justiça. Nem a filha mais velha, embora conhecesse de cor as alcunhas pouco elogiosas atribuídas ao adversário, sabia o motivo daquele ódio todo. Só compreendeu que eles se mudariam para um apartamento grande, comprariam um carro importado, e ela ganharia um computador novinho só seu. Achou tudo isso muito bom. Acreditou até que a família tinha se tornado mais pacífica, sem saber que o nome completo dessa paz era Patrícia Ezequiel, 19 anos, a novíssima amante de Romualdo. Fosse por provocar prazer ou culpa, a moça contribuiu para torná-lo um p...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 16)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 16. Natália (1) — O jogo é assim: o chinelo é a trave, e quem faz gol vira goleiro. Se passar em cima do chinelo, o gol não vale, porque tem que fazer de conta que é a trave, que nem no jogo de verdade – explica Natália pro irmão Vítor, três anos mais novo do que ela. – Vai pra lá, eu começo chutando. — Você é muito ruim, só chuta pra fora! E eu odeio ficar no gol. Não quero jogar com você, sua burra! Prefiro mil vezes chutar a bola na parede sozinho. Vai embora! — Nem começa, Vítor. Você não lembra o que a mãe disse? Desde a última vez que você fugiu de casa, você não pode mais descer pra brincar no parquinho sozinho. É isso ou nada. Natália tem nove anos e sua principal função na família é cuidar dos dois irmãos menores, além de tirar notas acima da média, ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 15)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 15. Desirée (3) Diário de viagem Paris, 23 de janeiro de 201X. Li em algum lugar, acho que foi na revista da Tantã, que o número de turistas em Paris é superior ao de habitantes. E cá estou eu reforçando essas estatísticas. O que torna Paris o destino predileto de nove em cada dez viajantes? Bela cama, bela mesa e nenhum julgamento se você pular o belo banho. O humor local deixa a desejar, admito, mas as possibilidades de romance são infinitas. Apaixonar-se em Paris, que sonho de consumo! Os pombinhos enamorados são tão imprudentes no uso do cartão de crédito... Portanto, amemos! Em nome do superávit, amemos! Os cenários amorosos são reconhecíveis dos inúmeros filmes e livros românticos devorados, tudo tão planejado e funcional. Até o encanto daquela chuva qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 14)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 14. Desirée (2) É a terceira conversa, só neste mês, que a irmã-coordenadora-pedagógica tem com Desirée, desta vez acompanhada pela irmã-psicóloga. Simplesmente inaceitável! Onde já se viu uma garota de quatorze anos andar com os olhos carregados de lápis preto? Nós já não conversamos sobre isso? Sim, irmã. Então, por que você continua a me desobedecer? Este é um colégio respeitável, não uma discoteca! E todas essas correntes com símbolos pagãos? É o ankh, símbolo egípcio da morte. Antes que a pedagoga explodisse de vez, a psicóloga, que se chamava Marta, pediu para conversar sozinha com a aluna.  Você pensa sempre na morte, Desirée? Acho que tanto quanto todo mundo. E como você imagina que seja a morte? Simpática, reconfortante. E a vida, como você a vê...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 13)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** PARTE 3: CONTAS *** 13. Desirée (1) Desirée significa desejada em francês. A pessoa certa no tempo certo, doce e delicada donzela. Mas o nascimento da criança dourada não foi suficiente pra salvar aquele casamento. A filha única ficou morando com a mãe, que se casou de novo (antes que os peitos caíssem, um dia a ouviu contar, meio bêbada, a uma amiga) e teve mais três filhos (daí caíram de vez, os peitos). A criançada justificou a longevidade do segundo casamento, o divórcio sairia caro demais enquanto os três não concluíssem os estudos.  O pai de Desirée arrumou um emprego que lhe permitisse viver sem conexões com ninguém, embora sempre em conexões, com o perdão do trocadilho: virou assistente de bordo, vulgo aeromoço, num tempo em que isso era rar...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 12)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 12. Fantasma Um mês impecável. A relação com a família vai bem, os amigos estão sempre por perto, não há trabalhos pendentes, o corpo esbanja saúde, a mente atua sem sobressaltos. Até inventa um ou outro pequeno dilema para contar à sua terapeuta e assim fazer valer o preço da sessão. Parece que mês que vem vai subir 15%, a inflação está cruel, sabe como é. Precisa avisar a mãe pra mandar mais dinheiro. É possível ser sempre assim, tudo no lugar? Melhor não tocar no assunto pra não atrair más energias. Os problemas são criações nossas. As situações por si só não significam nada, a gente é que atribui valor positivo ou negativo a elas. É preciso tomar as rédeas, parar de sentirmos pena de nós mesmos. Leandro acredita ter enfim decifrado o mundo. Vive satisfeit...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 11)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 11. Fãs Site da revista Atabaque, seção “Mural dos leitores”, abril de 201X. (A revista não se responsabiliza pelo teor das mensagens publicadas nesta seção) Obrigados (sim, permito-me falar em nome de todos os leitores), editores da revista Atabaque, por esta gaia surpresa! José Reynaldo enfim rompeu seus 25 anos de silêncio. Será esse o reinício de um diálogo com o público e a mídia? Gostei de constatar que, embora tivesse garantido o direito de não responder às perguntas que o desagradassem, o grande escritor não abusou do privilégio. Ele foi sensível e cínico nas respostas, combinação improvável que faz dele um artista genial. Como estudante de Letras, fiquei muito honrado de saber que ainda há escritores que valorizem o papel do crítico. Penso em ...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 10)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 10. As Meninas — Agora chega, Joel! – a Úrsula se impacientava volta e meia comigo. Joel era eu. Um dia ela veio com a ideia de que deveríamos nos chamar por apelidos e me propôs duas opções: Joel ou Migão. Com medo do que o segundo poderia derivar, aderi ao primeiro entusiasticamente. Engraçado que meu apelido continuava sendo um nome, ainda de fonte bíblica, só que mais curto. Eu até cogitei apresentar esse argumento, não fosse o Migão me assombrando. Deixei pra lá. — Tô levantando acampamento, e você vai comigo. As meninas estão doidas pra te conhecer, ninguém vai te tratar mal, não. Além do mais, essa poeira da escada todo dia na cabeça só serviu pra atacar minha rinite. Tô quase comprando ações da Melex. A espelunca tá interditada pela Vigilância ...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 9)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 9. Restart Contagem regressiva pro retorno. Como seria? O que faria? Nem dobrando as sessões semanais de terapia, Leandro conseguiu evitar a ansiedade e, paranoia após paranoia, ia alimentando seu bicho carpinteiro. E se rirem dele? E se ele recair? O pior devem ser os olhares julgadores. Não, não, as perguntas dos outros é que são um inferno. Por onde você andou? O que são esses comprimidos que você toma? É verdade o que dizem... que você ficou louco? Por que você tá tremendo e suando? Que cicatrizes são essas em seus braços? Tem falado com a Inominada? Açúcar ou adoçante? Responderia tudo isso com um sorriso prepotente. Não, com um olhar indiferente. Não, jogaria a bosta no ventilador e daria de dedo na cara de quem se atrevesse. Não, responderia tudo com s...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 8)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 8. A entrevista do século José Reynado deixou uma contribuição significativa para a literatura brasileira quando, na década de 1960, fundou a estética verista. Quem presta concursos vestibulares ou acompanha os suplementos de cultura frequentemente se depara com seu nome. Possui 42 títulos editados, alguns deles tão perturbadores que chegaram a ser banidos de bibliotecas escolares. Pais revoltados queimaram dezenas de volumes d’O cu humano em uma manifestação polêmica em 2004. Até hoje, aos 79 anos, o escritor mantém um ritmo criativo de alta produtividade. Só na última década, lançou cinco trabalhos inéditos e duas coletâneas de narrativas curtas. Além do talento literário, outro motivo para a fama em Porto Alegre, cidade onde reside há mais de 60 ano...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 7)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 7. Como tudo começou No início do primeiro ano, eu passava os intervalos escondido no vão da escada perto da capela. Não me perguntem por que, deveriam é perguntar aos outros como eles conseguiam se sentir tão à vontade naquele turbilhão chamado Ensino Médio. Nos primeiros dias, antes de descobrir o vão, eu matava o tempo na biblioteca. O problema é que ela ficava longe demais da minha sala, acabava que eu não ouvia o sinal pra retornar, distraído que estava com os livros, e chegava atrasado, chamando ainda mais a atenção dos colegas. Nerd ou rebelde, nenhum dos rótulos me interessava. Por ora, o novo abrigo vinha servindo, apesar de um pouco empoeirado. Ele me mantinha oculto todo o recreio e, quando a aula começava, eu me instalava rapidamente na minha cart...