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Janelas provisórias

Eu tenho duas janelas, enormes, pelas quais o sol da manhã inunda meu quarto-cozinha, o que a gente diferenciada gosta de chamar de "loft", mas, para bom entendedor, ainda é uma "quitinete". Esse foi o principal motivo para eu ter me mudado para cá. A vista anterior, um muro e uma gaiola com uma calopsita berrando, quando penso nela, nas raras vezes em que faço isso, parece irreal, como um pesadelo que se dissolveu no momento em que abri os olhos, despertada por este sol farto que me toca todas as manhãs. Quando abro a janela, espero pelo tropel de um cão só. É Pólux que vem me saudar, esperançosa de que eu a convide para o café da manhã. Ultimamente o pão tem sido pouco, mas ela sempre vem. Não importa a hora, ela se levanta e vem, olhando para cima e lambendo seu focinho castanho. Se não tenho comida em casa, lanço-lhe beijos, mesmo sabendo que ela preferiria um bolo. Seu favorito é o de mexerica, mas ela aceita qualquer oferta e volta a dormir. Esta é uma jan...

Censurado

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Eu ia fazer uma piada sobre o Coiso, mas daí pensei no exército de trolls que trabalha 24 horas por dia para destruir qualquer voz dissidente -- como eles arrumam tanto ódio e tanto tempo? Receberão salário ou fazem só por amor à coisa (ao Coiso)? Moral da história: a autocensura é o primeiro passo para a censura. Eu aprendi isso com José J. Veiga, em especial com "A hora dos ruminantes", leitura que pode nos ajudar a sobreviver nos próximos anos. Sejamos corajosos. Repito para mim mesma. Se o pior acontecer e eu tiver me calado, a culpa também terá sido minha. Ensaio para ter coragem. Uma hora ousarei contar a tal piada, mas ainda não. Infelizmente meu dia não é tão longo quanto o dos trolls, e eu preciso resolver todas as minhas obrigações, que são muitas, sozinha. Então espero por dias mais calmos pós-fim-de-semestre. Mas contarei, eu preciso contar para acreditar que tenho coragem e que a sustentarei quando ela for mais necessária.

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Exercício poético

Quanto medo sem motivo! Pois bem. A gente cria (n)esta nefasta fantasia, (n)este abrigo que diz: PERIGO! Você pode ser feliz. -- Vale a pena ler de novo o poema "Medo" , de Raymond Carver

Caderno de poesia da aluna Sularien

Hoje li este poema na Folha de S. Paulo e achei muito bonito, por isso, copio abaixo para vocês. Medo Autor: Raymond Carver Tradução: Cide Piquet Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de cães que supostamente não mordem. Medo da ansiedade! Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto. Medo de ficar sem dinheiro. Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso. Medo de perfis psicológicos. Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar. Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes. Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado. Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha. Medo da confusão. Medo de que este dia termine com uma nota infeliz. Medo de ac...