Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 10)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
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10. As Meninas
— Agora chega, Joel! – a Úrsula se impacientava volta e meia comigo.
Joel era eu. Um dia ela veio com a ideia de que deveríamos nos chamar por apelidos e me propôs duas opções: Joel ou Migão. Com medo do que o segundo poderia derivar, aderi ao primeiro entusiasticamente. Engraçado que meu apelido continuava sendo um nome, ainda de fonte bíblica, só que mais curto. Eu até cogitei apresentar esse argumento, não fosse o Migão me assombrando. Deixei pra lá.
— Tô levantando acampamento, e você vai comigo. As meninas estão doidas pra te conhecer, ninguém vai te tratar mal, não. Além do mais, essa poeira da escada todo dia na cabeça só serviu pra atacar minha rinite. Tô quase comprando ações da Melex. A espelunca tá interditada pela Vigilância Sanitária, e não se discute com a Lei. Allons-y!
E assim fui anexado à rodinha das amigas da Úrsula. Elas se reuniam perto da gruta de Nossa Senhora, um canto do pátio pouco frequentado. Num momento de grande inspiração, ou até de iluminação eu diria, entendi por que ícones religiosos em geral me trazem paz de espírito: mantêm adolescentes longe, principalmente os bacanudos.
Eu me referia ao grupo como “As Meninas”, embora houvesse um ou outro membro masculino esporádico. As integrantes regulares eram cinco garotas nos seus quatorze, quinze anos, inteligentes e ingênuas, umas queridas. Desde o primeiro contato, percebi nelas aquele otimismo de quem sabe que tudo dará certo – e, mesmo se não desse, papai teria o dinheiro pra fiança e o número de um ou dois advogados que não esperariam o celular tocar duas vezes. A vida até então vinha sendo só um ensaio e, quando começasse de verdade, elas saberiam exatamente o que fazer: iriam para as melhores faculdades e dariam contribuições significativas para a humanidade. Hoje tenho a alegria de vê-las em posições sociais admiráveis, a maioria delas. Mas justo a líder, a mais brilhante de todas, o que foi feito dela?
(Preciso dar um jeito neste saudosismo. Por que isso logo agora que as coisas estão começando a entrar nos eixos?)
Por ora, falemos das quatro que vingaram: Desirée, Natália, Lúcia e Amanda. No dia em que Úrsula me jogou no meio da roda, foram tantas apresentações que minha memória me deixou na mão. Aquela da franja mal cortada era a Amanda ou a Natália? Como chamava mesmo a que trouxe bolo para todo mundo? Achei melhor permanecer em silêncio, só sorrindo de leve para não parecer antipático; assim haveria menos risco de errar, apesar de o perigo nunca estar completamente eliminado. Devo ter feito uma cara meio apalermada enquanto tentava acompanhar duas conversas paralelas, uma sobre a tarefa de química e outra sobre o retorno polêmico de Britney Spears ao show business. Ninguém comentou nada sobre a minha inserção no grupo, como se eu estivesse lá desde sempre.
Quanto a mim, gostei imediatamente de todas essas garotas. Não notei entre elas aquele clima de violência e rejeição que eu sempre associei à adolescência. Elas me deram espaço, e eu sobrevivi de migalhas de informações apanhadas aqui e a ali. Foi assim até o dia em que tive coragem de eu mesmo lançar um tópico de conversa. Quem é essa tal de Lady Gaga de que vocês tanto falam? Responderam com gritos de revolta. Era um escândalo eu não saber aquilo! Elas trataram de remediar a situação rapidamente, explicaram, cantaram, prometeram me dar uma cópia de CD. Minha estreia como proponente de tópico de conversa aconteceu seis meses depois da chegada, mas ninguém pareceu notar diferença no nível da minha participação no grupo. Acho que o sorriso apalermado havia cumprido bem sua tarefa no fim das contas.
Procrastinando a tese com literatura...
ResponderExcluirAlguns comentários. Eu gostei da ironia do narrador ao descrever as meninas, principalmente no trecho "Desde o primeiro contato, percebi nelas aquele otimismo de quem sabe que tudo dará certo – e, mesmo se não desse, papai teria o dinheiro pra fiança e o número de um ou dois advogados que não esperariam o celular tocar duas vezes." Eu tenho gostado desse tom do narrador, que dá umas pontadas de maneira às vezes mais sutil, às vezes menos. Gosto inclusivo do tom meio autodepreciativo que ele tem.
Além disso, tenho observado a diversidade das referências culturais desses jovens, que mistura Lady Gaga com Hitchcock (alguns capítulos atrás). Não sei se eu ainda chamaria isso de algo pós-moderno, apesar de em alguns capítulos você fazer aquela mistura relativa a discursos do mundo do consumo. No geral, tem me chamado a atenção esse ambiente classe média alta do livro. São adolescentes que têm acesso a um cenário cultural bem privilegiado, citando inclusive termos em francês (Allons-y).
Opa! Bom saber que esse blog tem sido um refúgio para os procrastinadores... Me sinto menos só.
ResponderExcluirObrigada pelos muitos "gosto",. É sempre gostosa essa sensação de uma obra nossa ser bem vista, até me sinto que mereço um pouco desse carinho (mesmo sabendo que qm escreveu tudo isso foi o duende, não eu...).
Com relação à classe social, é exatamente isso. Acesso à boa educação, à cultura erudita, mas tb atravessada pela cultura de massa. Classe média alta way of life.
Respondidos os comentários, allons-y!