Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 29)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
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29. Inara (2)
Desde os treze anos, Inara gostava de especular sobre os prazeres da maternidade. Jurava para seus bebês imaginários que seria tudo aquilo que ninguém tinha sido para ela. Aos quinze, apareceu a oportunidade de provar que ela falava a sério. Na época, namorava Edilson, que não era adepto dos preservativos modernos e confiava além da conta em métodos como a oração e o chá de arruda para limpar os líquidos nocivos à saúde e ao planejamento familiar. Que merda, e agora, Naná? Agora a gente cria ela. Como você sabe que é menina? A tia Arê viu pra mim numa simpatia que não falha. Por mim essa criança não nasce, você sabe que não tenho dinheiro pra nada. Não fala assim que é pecado, Ed, é a nossa filha! Eu não quero, minha ela não é.
Nesse dia, Inara se transmutou em onça, e essa ficou sendo sua identidade. Não quis mais saber do namorado, arrumou uns bicos, fazia diárias, vendia docinho, trabalhava de manicure – a promoção de “pé e mão cinco reais” fez sucesso entre as colegas não gestantes. O medo da necessidade era tanto que acumulou além do mínimo necessário, deu para alugar um quarto longe do Ed, da avó e de todos que a desacreditavam. Quando passou com o carrinho de bebê na frente da escola onde tinha estudado, se sentiu superior a todo mundo lá dentro. Ela, sim, conhecia a vida de verdade e estava tirando de letra, sem precisar daquelas abstrações que os professores julgavam tão importantes.
Foi só dali a alguns anos, quando sua filha estava pra entrar na escola, que Inara se sentiu no dever de fazer o mesmo. Talvez a vida fosse mais do que trabalhar e rosnar pra todo mundo dia e noite. Faria supletivo e, se possível, um curso técnico, tudo seria mais fácil agora que estava casada. O marido era um tipo trabalhador, bem diferente do inútil do Edilson, e poderia ajudar a cuidar da criança à noite enquanto ela estudava. (Que engano! Ele só colaborava quando se tratava de aumentar a prole, um bebê atrás do outro nem bem acabava a dieta.)
Ela se formou, tendo que mostrar seus dentes afiados aqui e acolá, e arrumou um emprego de carteira assinada. As abstrações dos estudos foram decisivas para ela perceber que o marido era um grande imbecil, egoísta, cretino, descoberta que se encaminhou para o pedido de divórcio. Como o traste não tinha pra onde ir, a casa era tudo o que possuíam, ele ficaria morando no quartinho dos fundos até se arranjar. A ex-sogra também permaneceu no pacote. Isso já faz três anos.
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