Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 31)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
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31. Planta (1)
Ela chegou ao apartamento toda enrolada num plástico escuro, mas já causando o maior escarcéu, soltando uns tantos torrões de terra preta no tapete. Media cerca de quinze centímetros, sem contar as raízes, uma mudinha ordinária que não prometia nada, ainda mais com aquela folhagem rala, murcha e toda furadinha devido à gula das lagartas. Para compensar a desvantagem inicial, ganhou um vaso enorme, um lugar sob o bom sol da manhã e todas as atenções de seu dono.
Chamava-se manjericão na horta amadora, Ocimun basilicum na floricultura, e basílico ali pela freguesia dos Jardins, que aprecia exclusividade e distinção. Qualquer um com um pouco mais de conhecimento empírico de plantio reconheceria esse vegetal egoísta, que assassinaria sem dó qualquer plantica que se aproximasse de seu vaso. Leandro, sendo neófito, não se deu conta da criatura que trouxera para o lar. Deu-lhe bastante água, e a malévola se proliferou feito Gremlin. Um dia, ele encontrou o apartamento tomado por uma floresta perfumada.
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