Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 22)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
22. Lúcia (1)
Lucinha era uma boneca, os adultos diziam. Os cabelos pretos, divididos precisamente ao meio e amarrados com fitas vermelhas (pra prevenir quebrante), caíam caudalosos, amazônicos demais para a pequena sansei. Os pezitos, embalados em meias brancas rendadas e sapatinhos igualmente alvos, balançavam sob a carteira. Escrevia no caderno com capricho, revezando as cores das canetas cintilantes que ia tirando do estojo, uma por vez, e guardando logo que concluía o uso. Naquele fim de manhã, lá pela hora quando o estômago já reclama almoço, a diretora entrou na sala do Pré-III, seríssima, e todos se puseram a pensar nas travessuras recentes que talvez tivessem sido flagradas – a descarga não apertada, a caricatura a giz na calçada, as flores do jardim pisadas –, menos Lúcia, que nunca errava. Ela continuou escrevendo, inabalada. Só parou quando ouviu o próprio nome:
― Lúcia, eu preciso que você me acompanhe.
No dia seguinte, o fofoqueiro do Matheus, cuja avó morava na mesma rua da Lúcia, espalhou a notícia de que os pais da garota tinham morrido. Os dois de uma vez, acidente de carro. Os alunos do Pré-III ficaram inseguros: essas coisas podiam acontecer com a gente? Ela voltaria? O que deveriam e o que não deveriam falar em voz alta? Corriam o risco de, pela proximidade, serem contagiados pelo seu azar? Ninguém perguntou nada disso, e a professora também não soube como tocar no assunto. A aula prosseguiu conforme o roteiro preparado no início do ano.
A garota voltou só no semestre seguinte, parecia outra, os cabelos tão curtos quanto os dos meninos, mais alta, mais seca. Foi então que alguns episódios estranhos aconteceram. O pior deles foi a queda de Hannah do topo do escorregador. Várias crianças disseram que Lúcia a tinha empurrado. A diretora conversou com a turma toda, frisou que só testemunhassem o que sabiam com certeza, que mentiras teriam consequências muito graves. Ninguém ousou confirmar a história. O importante era que Hannah, depois de ter metade do cabelo raspado e levar uns pontos no cocuruto, sobreviveria.
No ano seguinte, Lúcia não estudava mais naquele colégio.
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