Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 22)

 Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.


***

22. Lúcia (1)


Lucinha era uma boneca, os adultos diziam. Os cabelos pretos, divididos precisamente ao meio e amarrados com fitas vermelhas (pra prevenir quebrante), caíam caudalosos, amazônicos demais para a pequena sansei. Os pezitos, embalados em meias brancas rendadas e sapatinhos igualmente alvos, balançavam sob a carteira. Escrevia no caderno com capricho, revezando as cores das canetas cintilantes que ia tirando do estojo, uma por vez, e guardando logo que concluía o uso. Naquele fim de manhã, lá pela hora quando o estômago já reclama almoço, a diretora entrou na sala do Pré-III, seríssima, e todos se puseram a pensar nas travessuras recentes que talvez tivessem sido flagradas – a descarga não apertada, a caricatura a giz na calçada, as flores do jardim pisadas –, menos Lúcia, que nunca errava. Ela continuou escrevendo, inabalada. Só parou quando ouviu o próprio nome:

― Lúcia, eu preciso que você me acompanhe.

No dia seguinte, o fofoqueiro do Matheus, cuja avó morava na mesma rua da Lúcia, espalhou a notícia de que os pais da garota tinham morrido. Os dois de uma vez, acidente de carro. Os alunos do Pré-III ficaram inseguros: essas coisas podiam acontecer com a gente? Ela voltaria? O que deveriam e o que não deveriam falar em voz alta? Corriam o risco de, pela proximidade, serem contagiados pelo seu azar? Ninguém perguntou nada disso, e a professora também não soube como tocar no assunto. A aula prosseguiu conforme o roteiro preparado no início do ano.

A garota voltou só no semestre seguinte, parecia outra, os cabelos tão curtos quanto os dos meninos, mais alta, mais seca. Foi então que alguns episódios estranhos aconteceram. O pior deles foi a queda de Hannah do topo do escorregador. Várias crianças disseram que Lúcia a tinha empurrado. A diretora conversou com a turma toda, frisou que só testemunhassem o que sabiam com certeza, que mentiras teriam consequências muito graves. Ninguém ousou confirmar a história. O importante era que Hannah, depois de ter metade do cabelo raspado e levar uns pontos no cocuruto, sobreviveria.

No ano seguinte, Lúcia não estudava mais naquele colégio.

Comentários