Postagens

Mostrando postagens com o rótulo piração

Uma questão de método

Depois de inúmeras crises existenciais nos últimos meses, cheguei a um dilema que, acredito, é a base de todos os outros. Alguém tem um palpite de como resolvê-lo a fim de levar uma vida menos sofrida e mais significativa? Segue. O melhor método para se viver é: a) assumir nossa fragilidade e excessiva dependência do afeto alheio, estabelecendo o maior número de conexões com as pessoas para se cercar de uma rede de proteção emocional, ou b) cortar de vez todos esses vínculos, viver radicalmente a solidão para se fortalecer fora da ilusão de que haja uma possibilidade de salvação individual? (Como os últimos, imagino que os próximos posts devem seguir nesta linha, estão avisados.)

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Sobre o vegetarianismo

Sempre tive certo preconceito contra vegetarianos. Algo moderado, quase latente, dado que minhas amigas adeptas não são do tipo mala e nunca me chatearam com pregação. A minha cisma vem de acreditar que há um milhão de causas mais nobres de militância: contra as guerras, contra os governos déspotas, contra o capitalismo selvagem, contra a intolerância religiosa, contra o abuso sexual etc. No cardápio de desgraças que a atualidade nos oferece, lutar pelos direitos dos animais me parece algo vago e utópico demais. Domesticamos os animais há milhares de anos com uma finalidade única: para nos servir. Simples assim. Vacas dão leite, couro, chifres, mocotó, carne. Ovelhas, lã e carne. Avestruz, couro, penas, carne. Cães e gatos, companhia, afeto (tendemos a acreditar nisso) e, em alguns países, carne. Sobrevivemos graças a eles. Talvez essa fonte de proteína não seja mais essencial como um dia já foi, mas se ela está aí e é culturalmente aceita, então por que não? Um bife ainda é melhor, do...

Sugestões para uma civilização do futuro

Já que o controle sobre nossa vida privada é inevitável (sob o pretexto de ser seguro e até descolado viver com um GPS colado na bunda) e só tende a crescer, aí vão algumas sugestões para sofrer menos com relacionamentos numa civilização do futuro. 1) Facebook empático. Por uma análise da sua personalidade e das suas atividades, ele automaticamente barra as atualizações que farão você sofrer. A solução é nova, o princípio não: o que os olhos não veem o coração não sente. 2) Espécie de programa de proteção à testemunha, mas para pessoas que terminaram o relacionamento. Você ganha uma nova identidade numa outra cidade. Talvez inclua até um novo guarda roupa (isso ainda precisa ser melhor pensado para não ficar economicamente inviável). A ideia é nunca mais correr o risco de cruzar com alguém da vida passada. Ou, se você tem apego às suas coisas atuais, apele para a boa e velha violência e contrate um jagunço – e para isso nem precisa esperar o futuro chegar –, mas considere que, por ...

Friday night

Pilhas de coisas para ler. Tantas páginas por escrever. Tenho tempo para fazer tudo isso enquanto a greve perdura, mas não quero. Vontade de. De jogar videogame até o dedo descamar. De ler um romanção daqueles que param em pé. De por salto alto e ir a um barzinho de classe. De chorar uns dois litros. Mas não vou fazer nada disso. Vou é escrever a dissertação. Infelicidade alimenta a vida acadêmica.

A primeira semana

(Outro post sobre relacionamentos – depois não digam que não avisei) No caos do universo, às vezes acontece de bilhões de fatores se combinarem aleatoriamente e resultarem em algo bom para você. Sim, para você, que só se fode para todo o sempre. Nessa hora você se joga, repete infinitamente como você é um puta sortudo, faz umas dancinhas toscas no meio da rua, pensa que não mudaria nada no presente. E você está certo em agir assim, afinal, é muito raro que tudo esteja perfeito na sua vida. Quando isso ocorre, tem que estar consciente mesmo. Vamos supor que, quando você se conforma em ser “só o amigo” e curtir uma balada despretensiosamente, conheça alguém, tudo muito casual. Todos sabemos que você é burro, mal pago, mais feio do que bonito e que suas piadas não têm graça, mas essa pessoa gosta de você. Assim gratuitamente mesmo. E você gosta dela de volta. Os dois se gostam simetricamente, não há obstáculos para ficarem juntos, logo, é isso que eles fazem. O primeiro dia tem algu...

Nerd on drugs having lunch at RU

Imagem
Teoria da ficção. O nome da disciplina logo me saltou aos olhos, eu tinha que cursá-la – ai de quem se pusesse no meu caminho! Claro que, caloura de tudo, eu acreditava que ficção fosse sinônimo de narrativa ficcional. Quando comecei a ler o Luiz Costa Lima – que forma traumática de se começar a estudar algo completamente novo –, não entendi por que ele gastava tanto tempo distinguindo mímesis e ficção. E pior: as divergências por ele ressaltadas não eram apenas de significado, mas também de trajeto histórico. Para se ter uma noção, as obras de Homero, para seus contemporâneos, não eram consideradas ficção. Ao mesmo tempo, não se confundiam com os relatos históricos de um Heródoto. Claro que quatro séculos separam os dois, mas não saberia agora pensar em um historiador mais próximo do autor de Ilíada (universitários?). Eram uma terceira coisa, mas não vou entrar no mérito da questão aqui. Passado o susto inicial, começo a me sentir um pouco mais à vontade para comentar questões teór...