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Mostrando postagens com o rótulo espiritualidade

Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

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Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário. Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Ne...

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Ah, a arte, essa subversiva...

Segue letra de uma música de que gosto muito e que acrescenta lenha às ideias que vim expondo nos últimos posts, em especial sobre busca de paz espiritual versus de amor . Recomendo a versão cantada por Mônica Salmaso. ** Tempo de amor (Samba do Veloso) Vinicius de Moraes Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Mas tem que querer Pra poder amar Ah, mundo enganador Paz não quer mais dizer amor Ah, não existe coisa mais triste que ter paz E se arrepender, e se conformar E se proteger de um amor a mais O tempo de amor É tempo de dor O tempo de paz Não faz nem desfaz Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu

Agostiniana: começar do zero o tempo todo

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O que passou não existe mais, nem mesmo o minuto antes deste. Tudo morto, delegado a um lugar que não sabemos qual é, talvez até um não-lugar. O passado não é nada. Já foi um dia presente, mas, tendo-se tornado antigo, concretizando-se, acabou, torna-se irrecuperável. O mais próximo que se pode chegar dele é lembrando-se, mas a memória se dá no presente, não consegue resgatar o mesmo tempo que se foi, e mesmo a experiência rememorada não é igual à original, pois selecionamos fatos, resignificamos. Tudo morto, repito. Por que diabos, então, nos apegamos tanto ao ido? A resposta que me parece mais óbvia é que tratamos o passado como algo concreto, mesmo não sendo, porque é isso que nos dá substância, coerência quando nos perguntamos quem somos. Em geral respondemos: me nomeram X, nasci há n anos, vivi em tal lugar, estudei uma gama de temas, gastei horas ouvindo essa e aquela banda. Tudo coisas do passado. Mesmo o uso de verbos no presente, como "eu gosto disso", não par...

Sobre a bondade

Quando criança, eu achava que havia pessoas boas e pessoas más, ou melhor, totalmente boas e totalmente más. Eu era boa, claro. Os pais, os familiares e os professores, também. Os meninos bagunceiros eram maus, assim como as patricinhas e os bandidos que apareciam na TV. Era essa a lógica do meu sistema. A partir da adolescência e até bem pouco tempo atrás, mudei minha classificação de bondade. Acreditava então que todos eram essencialmente bons. Se às vezes agiam com maldade, era porque não haviam aprendido a fazer o correto. Faltava o know-how. Tão logo convivessem com exemplos adequados, perceberiam o erro e se consertariam. Digo isso por mim mesma. Tantas vezes fui grossa e egoísta, até que conheci amigas extremamente gentis como a G. e a A. e tentava imitá-las. Progredi um pouco. Acho, talvez, quem sabe. A essa regra, criei ainda uma exceção – os dias em que a preguiça tenta e a gente vai pelo caminho mais fácil: xinga, explora, esnoba. Depois sofremos sozinhos, porque somos bons ...

Um conselho

Saudades masoquistas deste Word aberto em branco. Remete diretamente aos artigos que tanto sugaram minhas energias nessas férias. Mas também a um certo período em que escrever era a minha missão, e eu o fazia regularmente, acreditando na importância da comunicação honesta, responsável, engajada. Hoje estou mais para os personagens de Camus. Não importa o que façamos, estamos sozinhos e vamos nos acabar do mesmo jeito. Alguém talvez se identifique com a situação que descreverei. Um dia você foi tão otimista que atualmente qualquer tipo de esperança enoja, esforço vão. Lembrança do desespero de aguardar o que, você saberia no futuro apenas, nunca aconteceria. A fé no a-de-vir torna-se mais dolorosa do que o problema em si. Melhor seguir com os pés no chão, rotina, leis, tudo certo e seguro. Esse é o conselho que tenho para dar.

Bem-aventurança já disponível na biblioteca mais próxima!

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Felizes aqueles que estão satisfeitos em simplesmente viver. Quando a gente acrescenta advérbios além do “simplesmente”, a felicidade corre perigo – se não de desaparecer ao menos de se relativizar. A notícia ruim: ninguém permanece neste estágio inicial, vazio. Tão logo quanto nascemos e jogamos o primeiro bocado de ar para o pulmão, vêm muitas coisas e estímulos e desejos e coisas e coisas e coisas. Tudo nos leva para longe de nós mesmos. Agora a notícia boa: é possível encontrar caminhos (sim, no plural!) de volta. Inclusive, vou lhes acenar a seguir uma opção. Entre os muitos papéis que a arte exerce, interessa-nos sua função de recuperar o viver simplesmente, a felicidade absoluta ou a sublimação. Ao usar esses termos, afasto-me do uso recorrente na sociedade de massa, que associa lazer e arte, a qual acaba por se reduzir a entretenimento. Não digo que arte deva ser tediosa, mas o seu efeito sobre nós também não é tão imediatamente prazeroso. O caminho da catarse é praticam...

Caminhão de mudança

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Vamos supor que você precise mudar hoje. De que tamanho seria sua mudança? Uma mochila? Algumas malas de rodinhas? Um caminhão? Quando defini, há dez minutos, que este post seria sobre mudança, pensei em mudança no sentido de “transformação, alteração de estado”, e não de “troca de residência” como sugere o parágrafo acima. Mas as duas coisas vieram juntas no meu raciocínio caótico. Mantive a bagunça: achei que vinha a calhar nesta ocasião. Pergunto novamente, desta vez optando pelo outro sentido da palavra. Você já quis mudar radicalmente? Se sim, como resolveu isso? Foi ao shopping? A uma agência de turismo? Ao psiquiatra? É possível mudar sem carregar consigo uma pilha de tranqueiras? Afinal, dá para se livrar da vida velha e indesejável? Só para começar, pense na família – é um caminhão de mudança que vai te seguir para a vida toda. (E isso não é necessariamente ruim. As raízes nos prendem ao chão, com suas vantagens e desvantagens. Desvantagem: permanecer no mesmo lugar....