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Mostrando postagens com o rótulo drama

Anna Karenina e a claustrofobia

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Toda sala de cinema é um pouco claustrofóbica. Ar parado, poltronas e piso infestados de ácaro, escuridão densa, estranhos sentados perto demais (e às vezes cutucando suas costas), barulho de mastigação, sussurros, o chato que faz shhhhh para impor ordem até no momento de lazer... Mas aí o filme começa, e uma janela de luz se abre bem à sua frente. Você se esquece do ambiente sufocante, desprende-se do seu ego mesquinho e viaja livremente. Bom, se você estiver assistindo a “Anna Karenina”, de Joe Wright, não é bem isso que acontece. Primeira cena, um palco de teatro. A cortina se abre e se inicia um giro frenético através de múltiplos cenários. Muitas portas, cortinas, cordas, escadas. Dezenas de personagens povoam esses ambientes móveis, preocupados com os próprios assuntos pessoais, indiferentes à coreografia que rege a todos, um compasso tão falso! Já viram algum filme do Peter Greenaway (sugiro “O bebê santo de Macon” para quem tiver estômago)? O jogo é bem parecido, fiquei ...

Como se dar bem

Faz o seguinte. Pega uma mina insegura e dá bola pra ela, assim de leve. Quase toda gostosa se odeia, se acha feia-chata, tá louca por um pouco de tapa na cara dum cachorrão que nem você. É fato. Aproveita, cara. É o que todas elas querem. Até as que não parecem são umas vadias loucas. Daí você faz aquela função, passa o fim de semana junto, fala dos assuntos dela, olha no olho, dá um pouco do mel pra ela provar. Tá me acompanhando, né, nem preciso dizer mais nada. É isso aí. Faz ela acreditar que você tá abrindo mão do seu precioso tempo livre por ela. Não tem erro. Só não esquece de deixar bem claro que você gosta dela apesar de ela ser a merda que é. Vai semeando, dizendo que o mundo inteiro lá fora não presta, que só você se salva, que ela tem sorte de tá perto, que nem você entende o que tá acontecendo, mas que você é verdadeiro demais pra ir contra, vai indo de boa, só você sabe o que é a vida, o que fazer com ela. Ensina ela quem manda, quem é a pessoa interessante da relação e ...

12 passos para superar o fim de um relacionamento

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Serviço de utilidade pública fornecido pela revista Elle. Texto: Michaela Von Schmaedel O que não falta na seção de auto-ajuda das livrarias são títulos sobre como superar o fim de um relacionamento. Afinal, o mundo é um casa-e-separa non-stop, e uma mãozinha nessas horas sempre é bem-vinda. Mas alguns livros, com dicas práticas e espertas, bem que poderiam estar na seção de humor. Como assim? Você aí, se debulhando em lágrimas, e a gente falando em fazer graça da sua desgraça? Calma, garota. O fato é que uma separação, dependendo do ângulo que você olha a coisa, pode tornar a vida bem mais divertida. Ainda mais se o caso já estava mais do que terminado e ruim pra chuchu, como costumam ser os derradeiros meses. Para ajudar nesse período de reabilitação, ELLE fez uma pesquisa, conversou com consultores escolados no assunto e preparou um roteiro com 12 passos rumo à cura da dor-decotovelo - qualquer semelhança com os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos é mera coincidência. Então,...

A kiss is just a kiss...

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Sabe quando você possui um objeto muito legal, mas, pela falta de uso, esqueceu-se dele? Hoje me ocorreu o feliz insight de que eu tenho um DVD de Casablanca que não via há uma era – culpa das minhas amigas (vou citar nomes: Ana, Bia, Marô, Boba, Paty e Maria Vitória), porque, quando a gente marcou de assistir, ficamos tipo umas cinco horas conversando e não sobrou tempo para o filme. Revi-o mal lembrando os detalhes, gostando ainda mais do que da primeira vez. Há um outro filme do qual já tratei neste blog, When Harry met Sally, em que os personagens discutem sobre Casablanca. Num primeiro momento, aos 22 anos, Sally defende que Ilsa (Ingrid Bergman) fez bem em embarcar com Lazlo, herói na resistência contra o nazismo, já que não haveria futuro com Rick, bêbado e persona non grata na América. Dez anos depois, a personagem de Meg Ryan se indigna: “Não, eu nunca diria isso! Ela tinha que ficar com o Humphrey Bogart” (a fala não é exatamente esta, mas o sentido sim). Assim como S...

Da vampira

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Eu queria escrever um texto que fosse totalmente autêntico, original, nunca antes escrito (como a vontade do dramaturgo da peça “Do vampiro – variações n. 2”, que está em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba) e que ainda fizesse todo sentido para qualquer pessoa que o lesse. Mas acaba sendo só mais um grito no vácuo. Imagem meio gasta em ficções científicas mais cults, admito. As ações não ecoam, porque não há ar, a casa está apertada demais, ninguém se mexa (mais uma vez parafraseando a dita peça – juro que darei o serviço dela no final deste post)! Tudo escuro, só a parca luz que entra pela janela faz um bonito desenho no chão, uma música daquelas românticas antigas, soando bem baixinho, como se deve ser, ao pé do ouvido, arrepio, vontade de chorar apenas uma lágrima. Eu te amo ao som de Frank Sinatra. Isso numa outra vida, quando as coisas cresciam sob o sol. O espelho não reflete mais a imagem que estava tão concreta na sua cabeça. (Vontade não faz verdade.) Não reflete mais...

Intermezzo

Faz-se um alarde tão grande sobre a dor que ela nem encontra espaço para emergir. Apenas um conceito. Bem fundamentado, é verdade, mas sem corpo. Isso é existência possível? Se a gente não der trela, vai que some? Vai que.

Pelo fim do preconceito com “Somewhere”

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“Um lugar qualquer” (Somewhere) é o novo filme de Sofia Coppola, que estreou ontem no Brasil. Apesar de não ser grande fã da diretora, estava curiosa para ver o que ela havia aprontado desta vez, dado o seu currículo de produções originais e cuidadosas. De apenas uma coisa tinha certeza: não se trataria de um blockbuster – “então o que seria?”, eu me perguntava. Convidei algumas pessoas para me acompanhar, mas ninguém se animou a ir (ainda que o ingresso custasse apenas R$ 3), alegando que seria chato. Não há muito que dizer contra esse comentário. De fato, Sofia traz como constante em seus filmes retratos da solidão, do tédio e da incomunicabilidade entre as pessoas. O seu ritmo é um pouco diferente do hollywoodiano e mais próximo do europeu, com cenas longas, poucos diálogos, quase nenhuma ação. Ela praticamente reduz o movimento (representado no cinema por 24 fotografias por segundo) de volta à imagem estática. Tudo o que eu disse até agora talvez só confirme a corrente do “é c...

Il film più triste che abbia mai guardato

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O filme mais triste de todos: "Umberto D.", de Vittorio De Sica. A temática é semelhante ao célebre "Ladrões de Bicicleta" - desespero causado pela falta de dinheiro -, mas, por algum motivo, esse me tocou ainda mais.

Ela está de volta, a famigerada resenha de filme

Há dois anos, comecei a estudar italiano para conhecer a cultura dos meus antepassados. Uma pessoa não é uma ilha, certo? Ela é a soma de vários acontecimentos, e acredito que a origem influencia também de alguma forma. Além do autoconhecimento, eu cria que esse interesse me traria outros bônus, como a possibilidade de conhecer novos autores e músicos. O francês, por exemplo, me surpreendeu muito positivamente com Albert Camus, Jacques Prévert e Edith Piaf, mas o mesmo não ocorreu com o italiano. Eu já conhecia Umberto Ecco e Luigi Pirandelli – da música nem falo nada, detesto o estilo romântico –, só que nem um nem outro estão na lista dos meus favoritos. São bons e só. Agora, o cinema italiano foi uma verdadeira compensação. Conheci nos últimos meses Sergio Leone (“The good, the bad and the ugly”), Fellini (“La dolce vita”, “8 ½”), Bertolucci (“O último tango em Paris”) e, mais recentemente, De Sica. Ainda não vi o mais famoso dele, “Ladrões de bicicleta”, comecei por “Milagre em M...

Pangloss e suas discípulas no cinema

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Agora que terminei de assistir a todas as temporadas de “The Office” disponíveis na minha locadora posso voltar a locar filmes inteligentes e tornar meus finais de semana um pouco mais produtivos intelectualmente. Não que a trama do meu amado escritório seja burra, mas, sendo uma série americana, existe um limite máximo de inovação na dramaturgia. É aquela velha regra da TV: nivelar por baixo, ou melhor, supor que todo o público pensa como uma criança. Essa é uma afirmação que a gente sempre ouve na faculdade, mas posso dizer que senti sua veracidade na pele. Até os meus dez ou onze anos eu acompanhava fielmente todas as novelas da Rede Globo e algumas do SBT (Fascinação, Chiquititas, Pérola Negra, A Usurpadora e as três Marias-Qualquer-Coisa da Thalia). A partir da adolescência, passei a gostar cada vez menos e hoje, quando assisto, sinto que a programação em geral está me xingando de idiota. No entanto, creio que o cinema fora do circuito hollywoodiano tem um pouco mais de liberda...

O bebê santo de Curitiba

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Chega de enrolar. Vou fazer logo este post antes que ele esfrie demais. Acontece que eu tive uma epifania esses dias atrás e não sabia como tratá-la de forma adequada. Tive certeza de que precisaria compartilhá-la, só que havia o medo de cair na leviandade. Bem, o risco continua. O texto ideal ainda não me ocorreu, mas ele precisa ser escrito, então vamos lá. Tudo começou há duas semanas mais ou menos, quando a Folha de S. Paulo me surpreendeu com um ótimo caderno Mais!. Sabe quando todas as matérias e colunas estão boas? Pois é, eu não poderia desejar mais do que aquilo. No entanto, hoje não comentarei todas as matérias – cada uma renderia um texto à parte –, falarei apenas de uma. O título era “O chique na berlinda” e vinha logo abaixo da foto de um velho urinando – a ironia decorria de que esse vestia uma camisa estampada com a bandeira norte-americana. O texto era uma entrevista com o filósofo Peter Singer, autor do livro “The life you can save”. Transcrevo abaixo uma das pe...

Walkers on the storm

Lembro certa vez quando eu e mais alguém – não lembro quem era, talvez minha mãe – andávamos sem rumo por Curitiba. Isso foi numa época em que a gente podia passar o dia perambulando pelo centro e depois, cansadas apenas fisicamente, parar em uma padaria e pedir um latte machiatto e uma torta alemã. Sem culpa, já que não tínhamos compromisso e nem estávamos acima do peso. Depois de alguns minutos em silêncio, essa pessoa me perguntou: — Não entendo uma coisa. Por que ponto de táxi tem lugar para sentar e ponto de ônibus não? Isso não está certo, afinal, quem pega táxi nunca precisa esperar muito, já o ônibus... Estava claro que minha companheira queria apenas quebrar o silêncio incômodo. Seca como de costume, respondi o que me parecia óbvio: — Oras, porque táxi é para gente rica, que pode pagar pelo conforto de sentar à sombra enquanto espera. — É verdade. Pronto, missão cumprida. O silêncio já não existia, podíamos ir adiante com outros assuntos mais oportunos. Hoje de man...

Ao Brasil, notícias da fome na Etiópia

David Oliveira de Souza Onde está a ‘mão invisível’ que regula o mercado? Nenhuma das pessoas que vi morrer de fome por aqui parecia conhecê-la É consenso para organizações internacionais como Unicef e FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) que a produção de alimentos é mais que suficiente para cobrir as necessidades terrestres. Porém, durante a leitura desse artigo, 60 crianças no planeta morrerão de desnutrição e, ao fim do dia, serão quase 20 mil. Na Etiópia, onde trabalho em uma emergência nutricional como Médicos Sem Fronteiras (MSF), todos os dias me pergunto por onde anda a mão invisível e mágica do mercado global, o melhor regulador da economia. Nenhuma das pessoas que vi morrer de fome por aqui parecia conhecê-la. Em Kambata, no sul da Etiópia, fica bem clara uma das lógicas geradoras de fome. Dedicadas à produção de gengibre para o mercado externo, muitas famílias de pequenos produtores deixaram de produzir comida para consumo próprio, imaginando ...