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Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 33)

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Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 33. Planta (3)

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 32)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 32. Planta (2) Havia duas semanas que a planta não recebia água. Seu dono teria viajado? Do outro lado da sala, o orégano, a salsinha e o alecrim estavam nas últimas, sequinhos, estirados na terra esturricada. É verdade que todos tinham sido mal-acostumados pelas borrifadas diárias de água mineral, plantas de prédio. Nunca aprenderam que a chuva não caía sempre, sobretudo naquele ano de 2014 em São Paulo. Apenas o manjericão resistia um pouco mais dignamente, valendo-se de seus caules espessos. Era uma planta com um plano: fugiria do vaso.

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 31)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 31. Planta (1) Ela chegou ao apartamento toda enrolada num plástico escuro, mas já causando o maior escarcéu, soltando uns tantos torrões de terra preta no tapete. Media cerca de quinze centímetros, sem contar as raízes, uma mudinha ordinária que não prometia nada, ainda mais com aquela folhagem rala, murcha e toda furadinha devido à gula das lagartas. Para compensar a desvantagem inicial, ganhou um vaso enorme, um lugar sob o bom sol da manhã e todas as atenções de seu dono. Chamava-se manjericão na horta amadora, Ocimun basilicum na floricultura, e basílico ali pela freguesia dos Jardins, que aprecia exclusividade e distinção. Qualquer um com um pouco mais de conhecimento empírico de plantio reconheceria esse vegetal egoísta, que assassinaria sem dó qualque...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 30)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 30. Inara (3) — Doutora, eu agradeço demais o seu interesse pelo meu caso. Vou te dizer que aquilo foi um circo, ninguém investigou os fatos como manda a lei. Eu logo vi que só queriam arrumar um culpado qualquer pra encerrar o caso o quanto antes, e sobrou pra mim. O interrogatório foi assim. Ele: Nome? Eu: Inara Tavares. Ele: Idade? Eu: 28 anos. Ele: Profissão? Eu: Enfermeira. Ele: Estado civil? Eu: Divorciada. Ele: Qual era sua relação com o falecido Luan Onório Limenha? Eu: A gente saiu durante um tempo, e eu fiquei grávida do meu menor, o Luccas. A gente nem sabia ainda da gravidez quando o Luan sumiu. Desapareceu sem dar nenhuma explicação. Um ano depois reapareceu, disse que tinha voltado por mim e pelo bebê, mas daí já era tarde. Eu já est...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 29)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 29. Inara (2) Desde os treze anos, Inara gostava de especular sobre os prazeres da maternidade. Jurava para seus bebês imaginários que seria tudo aquilo que ninguém tinha sido para ela. Aos quinze, apareceu a oportunidade de provar que ela falava a sério. Na época, namorava Edilson, que não era adepto dos preservativos modernos e confiava além da conta em métodos como a oração e o chá de arruda para limpar os líquidos nocivos à saúde e ao planejamento familiar. Que merda, e agora, Naná? Agora a gente cria ela. Como você sabe que é menina? A tia Arê viu pra mim numa simpatia que não falha. Por mim essa criança não nasce, você sabe que não tenho dinheiro pra nada. Não fala assim que é pecado, Ed, é a nossa filha! Eu não quero, minha ela não é. Nesse dia, Inara ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 28)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 28. Inara (1) A primeira vez em que Inara apareceu na TV foi uma choradeira só, antes, durante e depois. A avó a levou a um desses programas de auditório em que o povo lava a roupa suja ao vivo e a cores, uma fase triste da mídia brasileira que teve seu pico ali pelo fim dos anos 1990 e que, esperamos, deve se extinguir a qualquer momento, assim que o bom senso se tornar lucrativo. O tema daquele dia era “Você que fez, você que crie”. O “você”, no caso de Inara, seria mais correto no plural, porque se referia ao pai e à da mãe da menina, que sumiram no mundo e deixaram o pepino para a avó. O pepino era Inara, que, há de se admitir, não era de todo ruim, criança obediente e tudo o mais. O problema era isso de ela precisar comer, vestir e calçar, que demandava ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 27)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 27. A inominada (3) Bizarra aquela japinha de cabelo igual ao do Sonic, pensou Leandro, mas quando percebeu que ela não era a arruaceira que supusera à primeira vista, até que ficou com vontade de conhecê-la melhor. Fizeram à moda americana, já que ela era fã de Mom I became a Spider, Trends, Text to Nicky e seriados afins. No primeiro encontro, foram ver um filme do Studio Gigi no cinema. Parece que houve milhares de beijinhos durante os créditos finais, só pararam quando a luz acendeu e eles se perceberam os últimos sobreviventes na sala. No segundo encontro, assistiram a uma peça experimental inspirada em pinturas do Goya. Ele ficou um pouco cabreiro com as bruxas, mas fingiu que segurou firme a mão dela por puro romantismo. No fim do mês, já tinham experi...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 26)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 26. A inominada (2) Foram muitas conversas tarde da noite entre o pai e a mãe. A garota, que só pegava umas palavras soltas através da parede comum aos quartos, pressentia que algo estava para acontecer. O anúncio se realizou, por fim, muito solene à hora do jantar: — Inominada, seu pai e eu decidimos que está na hora de você estudar numa escola melhor. Daqui a um ano você vai prestar vestibular e queremos que tenha todas as chances de seguir uma boa carreira. Amanhã vamos pra São Paulo fazer a sua matrícula no cursinho Alpha Centrum e procurar um pensionato de moças pra você morar. Que final de semana memorável aquele que passaram na capital! Matrícula feita, contrato com o pensionato assinado, toda a família, que no caso eram só os três mesmo, retornava par...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 25)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 25. A inominada (1) Aquela cujo nome nunca mais pronunciaremos nasceu e cresceu num sítio no interior de São Paulo. Foi dona de cachorros, gatos, coelhos, pássaros, vacas, cavalos, um burrico, uma fazenda de formigas, duas casas na árvore e ainda achava que era pouco. Seus dias mais felizes eram aqueles em que ela e a mãe passeavam no shopping da cidade grande enquanto o pai ia resolver a venda da colheita. Voltavam com o porta-malas repleto de sacolas e, quando as filhas do caseiro vinham fazer mexerico, a garota respondia que tinha comprado tudo em Melão, uma cidade onde nevava o ano inteiro. As outras ficavam de queixo caído. Havia uma escola rural perto do sítio, mas a inominada nunca estudou lá. De segunda a sexta, uma condução vinha buscá-la na porteira...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 24)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 24. Lúcia (3) Tirei um fim de semana pra visitar a Lúcia no Rio de Janeiro. Seu apartamento, aquilo sim, é casa de gente adulta, um desperdício que seja tão pouco usado. Ela é engenheira petrolífera, passa mais tempo na plataforma do que no duplex com vista para o mar. Disse ter ouvido uns boatos estranhos na empresa e que, por via das dúvidas, estava acionando uns contatos no exterior, em caso de. Pensei que esse tipo de insegurança não existisse no setor público, eu lhe disse. Todos pensam isso, mas o que é seguro nesta vida?, ela respondeu. Lúcia teve a paciência de fazer o tour completo comigo, já que era minha primeira vez na cidade. Frequentamos todos os cenários das músicas da Bossa Nova, não tão maravilhosos quanto nas músicas. Apesar disso, fi...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 23)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 23. Lúcia (2) Lúcia nunca nos contou que ela e o irmão tinham sido criados pelos tios. Tampouco desconfiávamos, porque ela os chamava de pai e mãe, e havia a semelhança física. Quem deixou escapar foi a imã-coordenadora-pedagógica numa conversa de corredor. Gostaria de esclarecer que não me interesso tanto assim pela vida alheia, só comecei a prestar atenção quando ouvi o nome de minha amiga. Entenda, a vida foi muito dura com a Lúcia Koeda, órfã, coitadinha, justificava a religiosa. Outra revelação daquela bisbilhotice involuntária foi o incômodo de certo professor com o jeito da minha amiga. Reclamava com a pedagoga que, veja bem, era difícil explicar, a aluna fazia tudo o que ele pedia, mal abria a boca, só tirava notas máximas, mas ela tinha aquele...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 22)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 22. Lúcia (1) Lucinha era uma boneca, os adultos diziam. Os cabelos pretos, divididos precisamente ao meio e amarrados com fitas vermelhas (pra prevenir quebrante), caíam caudalosos, amazônicos demais para a pequena sansei. Os pezitos, embalados em meias brancas rendadas e sapatinhos igualmente alvos, balançavam sob a carteira. Escrevia no caderno com capricho, revezando as cores das canetas cintilantes que ia tirando do estojo, uma por vez, e guardando logo que concluía o uso. Naquele fim de manhã, lá pela hora quando o estômago já reclama almoço, a diretora entrou na sala do Pré-III, seríssima, e todos se puseram a pensar nas travessuras recentes que talvez tivessem sido flagradas – a descarga não apertada, a caricatura a giz na calçada, as flores do...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 21)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 21. Lila (3) (Carta sobre um túmulo) Querido filho, Hoje chorei muito quando pensei que não vou poder ir no seu casamento. Ia ser lindo ver você entrando na igreja... Mas você se foi. Pouco depois o patrão velho também, como sempre fiquei pra trás. Graças a Deus, o Samuel está bom, pelo menos isso. Ele foi morar nos estrangeiros, onde pedreiro ganha mais do que um doutor do Brasil. Agora dizem que nem tanto, mas ele tá lá junto com a esposa guardando dinheiro pra fazer a casinha deles aqui perto dos seus, se Deus permitir e Ele á de querer. Eu não fui com eles só porque não tenho mais idade pra aprender outro idioma, mas eles queriam muito, eu até pensei, mas depois mudei de ideia. Deus sempre me deu força pra cuidar de todo mundo, a novidade é isso de...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 20)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 20. Lila (2) O iPhone foi um presente do filho mais velho, Samuel, um reconhecimento do sacrifício que ela fez pra pagar os 52 boletos da faculdade dele – curiosamente o ano letivo tinha oito meses de aulas, mas lhe cobravam treze mensalidades. Formado em Administração, o rapaz acaba de ser contratado por uma multinacional do ramo alimentício e já aproveitou para marcar a data do casamento. Bem diferente do irmão, Sérgio, que mal para em casa. A mãe descobriu que este tá mexendo com drogas. Torce pra que seja usuário e não traficante, na esperança de que o vício mate menos que a polícia. Ai, meu Deus, cuida desse menino, porque ela já não sabe mais o que fazer. Samuel e a noiva propuseram que Lila saísse da casa do doutor José Reynaldo e fosse morar co...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 19)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 19. Lila (1) Apesar da obviedade, poucos deduzem que Lila vem de Dalila. A mãe ouviu o nome num filme antigo da TV, ficou fascinada com a figura daquela mulher belíssima que derrotava o grande herói. Traidora aos olhos de Deus. Essa mesma mãe, que nomeou a menina, mas que nesta narrativa não terá direito a nome próprio, morreu de desgosto, segundo dizem. Para o mundo, foi como se nunca tivesse existido, tendo consumido a vida em trabalhos duríssimos na Califórnia e arredores – a cidade paranaense, não o estado gringo. Desde a infância, trabalhou de empregada em casa de gente rica, onde teve notícia do aparelho de televisão já na década de 1960. O diabo era o marido, que bebia não só o salário dela como a alma das mulheres da família. Os filhos homens f...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 18)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 18. Natália (3) — Você ficou sabendo que o Vítor vai casar? Ninguém mandou engravidar a namorada! Minha mãe disse que não quer saber de criar neto, que é pra ele arrumar um emprego e se virar. Meu pai nem falou nada. Depois do caso da Paty Pistoleira, ele fica bem quieto, senão também vai ter que ouvir a mesma coisa: que é para ele arrumar um emprego e se virar pra pagar a pensão. Até o Luís tá firme no namoro. Fiquei oficialmente pra titia. Não estou reclamando, nada disso. Ganho bem no banco, trabalho só seis horas por dia. Quando chego em casa tenho uma TV enorme me esperando com todas as séries que eu gosto, um vinhozinho argentino. Pra que vou querer homem? Outro dia, sabe quem me mandou um e-mail depois de mil anos? O Manuelzão. Sim, o próprio. Disse qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 17)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 17. Natália (2) Romualdo, o pai de Natália, venceu uma ação contra o filho da puta do jornalistinha de merda que fodeu com a vida dele e, do dia pra noite, a família ficou rica, ou quase isso. O caso se arrastou anos na Justiça. Nem a filha mais velha, embora conhecesse de cor as alcunhas pouco elogiosas atribuídas ao adversário, sabia o motivo daquele ódio todo. Só compreendeu que eles se mudariam para um apartamento grande, comprariam um carro importado, e ela ganharia um computador novinho só seu. Achou tudo isso muito bom. Acreditou até que a família tinha se tornado mais pacífica, sem saber que o nome completo dessa paz era Patrícia Ezequiel, 19 anos, a novíssima amante de Romualdo. Fosse por provocar prazer ou culpa, a moça contribuiu para torná-lo um p...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 16)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 16. Natália (1) — O jogo é assim: o chinelo é a trave, e quem faz gol vira goleiro. Se passar em cima do chinelo, o gol não vale, porque tem que fazer de conta que é a trave, que nem no jogo de verdade – explica Natália pro irmão Vítor, três anos mais novo do que ela. – Vai pra lá, eu começo chutando. — Você é muito ruim, só chuta pra fora! E eu odeio ficar no gol. Não quero jogar com você, sua burra! Prefiro mil vezes chutar a bola na parede sozinho. Vai embora! — Nem começa, Vítor. Você não lembra o que a mãe disse? Desde a última vez que você fugiu de casa, você não pode mais descer pra brincar no parquinho sozinho. É isso ou nada. Natália tem nove anos e sua principal função na família é cuidar dos dois irmãos menores, além de tirar notas acima da média, ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 15)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 15. Desirée (3) Diário de viagem Paris, 23 de janeiro de 201X. Li em algum lugar, acho que foi na revista da Tantã, que o número de turistas em Paris é superior ao de habitantes. E cá estou eu reforçando essas estatísticas. O que torna Paris o destino predileto de nove em cada dez viajantes? Bela cama, bela mesa e nenhum julgamento se você pular o belo banho. O humor local deixa a desejar, admito, mas as possibilidades de romance são infinitas. Apaixonar-se em Paris, que sonho de consumo! Os pombinhos enamorados são tão imprudentes no uso do cartão de crédito... Portanto, amemos! Em nome do superávit, amemos! Os cenários amorosos são reconhecíveis dos inúmeros filmes e livros românticos devorados, tudo tão planejado e funcional. Até o encanto daquela chuva qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 14)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 14. Desirée (2) É a terceira conversa, só neste mês, que a irmã-coordenadora-pedagógica tem com Desirée, desta vez acompanhada pela irmã-psicóloga. Simplesmente inaceitável! Onde já se viu uma garota de quatorze anos andar com os olhos carregados de lápis preto? Nós já não conversamos sobre isso? Sim, irmã. Então, por que você continua a me desobedecer? Este é um colégio respeitável, não uma discoteca! E todas essas correntes com símbolos pagãos? É o ankh, símbolo egípcio da morte. Antes que a pedagoga explodisse de vez, a psicóloga, que se chamava Marta, pediu para conversar sozinha com a aluna.  Você pensa sempre na morte, Desirée? Acho que tanto quanto todo mundo. E como você imagina que seja a morte? Simpática, reconfortante. E a vida, como você a vê...