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Frase [IX]

Quando toca o interfone, 48 horas após fazer um pedido gordo na Amazon, é como se fosse manhã de Natal e eu tivesse oito anos.

Agostiniana: começar do zero o tempo todo

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O que passou não existe mais, nem mesmo o minuto antes deste. Tudo morto, delegado a um lugar que não sabemos qual é, talvez até um não-lugar. O passado não é nada. Já foi um dia presente, mas, tendo-se tornado antigo, concretizando-se, acabou, torna-se irrecuperável. O mais próximo que se pode chegar dele é lembrando-se, mas a memória se dá no presente, não consegue resgatar o mesmo tempo que se foi, e mesmo a experiência rememorada não é igual à original, pois selecionamos fatos, resignificamos. Tudo morto, repito. Por que diabos, então, nos apegamos tanto ao ido? A resposta que me parece mais óbvia é que tratamos o passado como algo concreto, mesmo não sendo, porque é isso que nos dá substância, coerência quando nos perguntamos quem somos. Em geral respondemos: me nomeram X, nasci há n anos, vivi em tal lugar, estudei uma gama de temas, gastei horas ouvindo essa e aquela banda. Tudo coisas do passado. Mesmo o uso de verbos no presente, como "eu gosto disso", não par...

Da vampira

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Eu queria escrever um texto que fosse totalmente autêntico, original, nunca antes escrito (como a vontade do dramaturgo da peça “Do vampiro – variações n. 2”, que está em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba) e que ainda fizesse todo sentido para qualquer pessoa que o lesse. Mas acaba sendo só mais um grito no vácuo. Imagem meio gasta em ficções científicas mais cults, admito. As ações não ecoam, porque não há ar, a casa está apertada demais, ninguém se mexa (mais uma vez parafraseando a dita peça – juro que darei o serviço dela no final deste post)! Tudo escuro, só a parca luz que entra pela janela faz um bonito desenho no chão, uma música daquelas românticas antigas, soando bem baixinho, como se deve ser, ao pé do ouvido, arrepio, vontade de chorar apenas uma lágrima. Eu te amo ao som de Frank Sinatra. Isso numa outra vida, quando as coisas cresciam sob o sol. O espelho não reflete mais a imagem que estava tão concreta na sua cabeça. (Vontade não faz verdade.) Não reflete mais...

Saudades não sei de que

Às vezes, tenho saudades sem saber exatamente do quê. Fico em dúvida se é de algum desses domingos de sol em que nada especial aconteceu, mas que me fizeram sentir em paz. Ou de um passeio noturno com os pais para comprar o presente de Natal. Ou de um primeiro dia de aula. Ou de um amor da quarta série. Ou de um livro cujo título foi esquecido. Ou da melhor amiga que não vejo há sete anos. Ou do franguinho frito na época em que não se falava em gordura trans ou IMC. Ou das férias na casa da avó que mora no sítio até hoje. Ou de me apaixonar por uma música na primeira escutada. Ou das manhãs de desenho animado e Choco Kripis. Ou das madrugadas (antigamente onze horas, meia noite era madrugada) assistindo ao Palmeiras na Libertadores, vibrando quietinha os gols para não acordar a família. Ou de uma loja de roupas descoladas que não existe mais. Ou das 14 horas de sábado na época na Internet discada. Ou de balançar na rede enquanto o pé toca no ladrilho gelado. Ou do cheiro de bolo no for...

"Eu sou cult, e daí?"

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Venho ao blog para fazer uma pausa em “O tempo recuperado” e, assim, prolongar um pouco mais a leitura. Puro medo da despedida. Vocês já sentiram isso em relação a alguma obra ficcional longa? Nem me lembre de “Guerra e paz”! Pois é, desta vez, trata-se da última parte de “Em busca do tempo perdido”, obra maior (em todos os sentidos) de Marcel Proust (1871-1922). Ela entrou em minha vida há quatro anos, quando emprestei “O caminho de Swann” na biblioteca da universidade. Fazer o que se o meu curso de graduação me deixava tanto tempo livre? Gostei de cara, só que essa série não é do tipo que se lê numa sentada. Decidi, então, que leria um livro a cada janeiro (são sete no total). Esse era um ritual de férias delicioso. Pena que, depois do nascimento de minha sobrinha, as farras literárias do verão ficaram seriamente comprometidas. Como resistir aos grands-bleus? Impossível! Eu passava facilmente todo o verão sem me aproximar de leituras pesadas, só rolando pelo chão e assistindo a ...

Complete o texto

Na segunda série do Ensino Fundamental, tínhamos um caderno só para redação. Era bacana, ele era grande, com uma página de 30 linhas, o tamanho ideal para um bom texto, e, ao lado, havia outra em branco para a gente desenhar. A professora nos pedia diversos gêneros textuais (exceto poesia; difícil demais para a cabeça dos pequenos), mas o desenho nunca era obrigatório, uma pena. Às vezes, líamos um livro e precisávamos resumi-lo, outras, era dado só o tema, como "minhas férias", e havia também o famigerado "complete o texto". Eu odiava, porque, por mais que eu tenha sempre sofrido para introduzir uma ideia por escrito, o início é a parte mais (masoquistamente) deliciosa de se fazer. Será ela que dará o tom ao resto da produção. É uma responsabilidade e tanto. Oras, como julgar um escritor que já começa lá do meio? Não há jeito de ele ser bom. A professora desse jeito nos condenava à mediocridade. (Condenar os outros é sempre mais fácil, diz minha consciência.) L...

Nomes de filhos hipotéticos

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(Não pude evitar a comparação - triste.) Nesse final de semana finalmente comprei um notebook novo. Não que o antigo estivesse tão ruim assim. Ele tinha seis anos de uso, um processador Celeron cheio das vontades, um 1Gb de espaço livre no HD e 256Mb de memória RAM, mas como eu só usava Word, Paciência Spider, Windows Live Messenger e Google Chrome, dava conta do recado. Tive que o trocar, porque preciso de mais espaço e memória, já que no próximo mês estarei diagramando uma revista para o meu trabalho de conclusão de curso. Bem, espero que haja uma revista para ser diagramada – nem comecei a fazê-la ainda –, mas isso já é outra história. O fato é que, não houvesse essa revista na minha vida, ainda estaria com o velho companheiro Glorfindel. Esse era o nome do meu notebook antigo. Comprei-o em 2003, quando “Senhor dos Anéis” e as demais obras do Tolkien, principalmente “Silmarillion”, eram o que havia de melhor na minha vidinha adolescente. Bom ano aquele, quando havia tempo dema...

Amar é...

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Vocês se lembram daquelas figurinhas "amar é..."? Sei lá por que me ocorreu essa lembrança, mas, quando ela me veio, ri sozinha. Meu deus, quando criança eu colava nos cadernos escolares e ainda achava o máximo. Colei acima alguns exemplos para quem não conhece essa preciosidade dos anos 1980. Agora que estou um tantinho mais madura, resolvi apresentar a minha própria versão, já que nunca topei com uma frase realmente legal - tampouco com um desenho bem feito. Segue abaixo para vocês avaliarem o nível de maturidade de uma garota que acabou de assistir a X-Men: Origins e ficou empolgadíssima. Amar é conhecer um homem moreno, suado, sujo de terra e de sangue, peludo, com garras mortíferas, braços musculosos, pernas musculosas, peito musculoso, bumbum musculoso, virilha musculosa and so go on...

Hoje é dia de nostalgia

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Já aviso: ainda não fiz a resenha de Hoje é dia de Maria . Não consigo, po! Fazer o que? Espremer meu coração aqui para ver se sai alguma coisa? Sai sangue, ué, e eu preciso dele. Então, sinto muito, mas não. Não por enquanto. ** Psicastenia Não pensar Não pensar... Pensando sem pensar Canelas ante os olhos Duas, quatro, cem Milhares delas E apenas dois olhos Que olham mas não pensam - Fé Procissões que não me interessam Sobrancelhas oblíquas O ângulo apontando para o céu - Dó O qual não me afeta Que morram! Eu só não penso nisso Um polegar, um indicador, uma mão Duas delas Um único tecido epidérmico Que só sente, não pensa - Amor Se penso não o sinto E penso em não pensar Não pensar... Não pensar, Nem pensar! (22 de feveiro de 2004) ** Na época eu achei esse poema tão bom, mas para postar aqui tive que deletar uma série de reticências (ô, mania de adolescente!) e só não o reescrevi todo porque perdi-me da poesia. Tá certo que ela sempre era rui...

Memórias de um café da manhã country

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No dia dessa foto, saímos da prova no sábado de manhã e fomos à casa da Gi fazer um trabalho de espanhol. Nos divertimos tanto (oras, por que acham que até hoje meu espanhol é uma catástrofe?)! Ai, que ótimo dia... Mas sinto muito, não vou compartilhá-lo com vocês. Ele pertence apenas às pessoas que lá estiveram naquela manhã. Então vocês podem reclamar: que história é essa de começar um causo e deixar o leitor na ignorância? Esse é meu direito como escritora onipotente no domínio deste blog. Ponto. Voltemos à minha lembrança daquela manhã. É algo tão vivo para mim. Se eu não soubesse que ela aconteceu exatamente no outono de 2004, poderia dizer “foi esses dias”, porque é assim que a sinto. Essa aí na foto é a Rafs. Recortei só ela dentre os que estavam presentes na ocasião, porque hoje faz exatamente 2 anos que essa minha amiga morreu. Mas, tal eu ia dizendo, esse dia do “trabalho de espanhol”, como muitas lembranças, é tão presente, pulsante, recente! Às vezes ainda dá aquel...