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#liberteofuturo

Apesar de meu grande interesse pela esfera pública -- eu era aquela adolescente que lia o caderno de política do jornal antes dos demais e me metia na conversa de adultos para corrigi-los, depois virei jornalista, participei do movimento estudantil... --, faz uns anos que me desiludi de me engajar na política. O motivo é muito simples: quando alguém adere a um coletivo, é tragado por ele. Passa a vestir como se fossem seus os méritos do movimento e não precisa assumir a responsabilidade pelas falhas dele. As engrenagens da massificação e da trituração de individualidades que os governos autoritários de direita e esquerda exemplificam tão bem... É por esse motivo que Simone Weil é contra partidos políticos (recomendo fortemente a leitura do ensaio " Pela supressão dos partidos políticos "), além do fato de que essas organizações, a médio e longo prazo, acabam abandonando suas ideologias iniciais pelo projeto exclusivo de manutenção do poder. Todo partido é um PFL (Partido para...

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

O que vou dizer... [I]

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... quando meus filhos ou sobrinhos (o que é mais provável) perguntarem por que faz mal comer doce se é tão gostoso. Versões: a) teológica: os prazeres da carne são tentações para nos desviar do bem maior, Deus. Eles são efêmeros e, quando acabam, nos levam ao sofrimento. O alimento que o estômago pede nos satisfaz por pouco tempo, logo precisamos de mais; já o alimento do espírito, que é a palavra de Deus, nos sacia pela eternidade afora. Se você vive apenas para o corpo, o espírito passará fome e, enfraquecido, não o impedirá de pecar. É preciso atender às necessidades os dois, mas colocar o espírito, substância mais pura que a matéria corpórea, como mandante de nossa vida. Agora larga esse pacote de Negresco (como isso entrou em casa, para início de conversa?) e se troca para a gente ir à missa. b) nutricional/estética: a textura da gordura e do açúcar derretendo na boca provoca o prazer. Agora, se você acha que vale a pena ficar gordo, diabético e com veias entupidas par...

Sugestões para uma civilização do futuro

Já que o controle sobre nossa vida privada é inevitável (sob o pretexto de ser seguro e até descolado viver com um GPS colado na bunda) e só tende a crescer, aí vão algumas sugestões para sofrer menos com relacionamentos numa civilização do futuro. 1) Facebook empático. Por uma análise da sua personalidade e das suas atividades, ele automaticamente barra as atualizações que farão você sofrer. A solução é nova, o princípio não: o que os olhos não veem o coração não sente. 2) Espécie de programa de proteção à testemunha, mas para pessoas que terminaram o relacionamento. Você ganha uma nova identidade numa outra cidade. Talvez inclua até um novo guarda roupa (isso ainda precisa ser melhor pensado para não ficar economicamente inviável). A ideia é nunca mais correr o risco de cruzar com alguém da vida passada. Ou, se você tem apego às suas coisas atuais, apele para a boa e velha violência e contrate um jagunço – e para isso nem precisa esperar o futuro chegar –, mas considere que, por ...

Intermezzo

Faz-se um alarde tão grande sobre a dor que ela nem encontra espaço para emergir. Apenas um conceito. Bem fundamentado, é verdade, mas sem corpo. Isso é existência possível? Se a gente não der trela, vai que some? Vai que.

Futuro maravilhoso, presente detestável

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Acabo de voltar de uma palestra com Marc Giget, fundador do Instituto Europeu de Estratégias Criativas e de Inovação. Ele era, em resumo, um francês para lá de otimista em relação ao futuro da humanidade. Em seu discurso, apresentou projetos de melhorias de vida nas cidades que devem ser implantados no tempo de uma geração, isto é, entrariam em vigor já por volta de 2040. Algumas coisas pareceram malucas e supérfluas demais para se concretizarem no dia a dia, como espelhos com memória visual, no qual você poderia acessar um banco de informações e manipulá-las - uma versão high-tech do espelho da Madrasta da Branca de Neve -, o uso massivo de robôs androides e o emprego de super-armaduras que multiplicariam nossa força (esses dois últimos são coisas já reais no Japão, de onde mais poderia ser?). Outras perspectivas apresentadas me deram um certo alívio em relação ao estilo de vida futuro. Moradia principalmente. Os apartamentos não serão laboratórios frios cheios de aparatos mecâni...