Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 8)

 Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.


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8. A entrevista do século


José Reynado deixou uma contribuição significativa para a literatura brasileira quando, na década de 1960, fundou a estética verista. Quem presta concursos vestibulares ou acompanha os suplementos de cultura frequentemente se depara com seu nome. Possui 42 títulos editados, alguns deles tão perturbadores que chegaram a ser banidos de bibliotecas escolares. Pais revoltados queimaram dezenas de volumes d’O cu humano em uma manifestação polêmica em 2004. Até hoje, aos 79 anos, o escritor mantém um ritmo criativo de alta produtividade. Só na última década, lançou cinco trabalhos inéditos e duas coletâneas de narrativas curtas.

Além do talento literário, outro motivo para a fama em Porto Alegre, cidade onde reside há mais de 60 anos, é seu estilo de vida recluso. Vem daí a alcunha, criada pela mídia e adotada pela academia, de Eremita. Faz um quarto de século que ele não se apresenta ao público, nem para receber prêmios, quanto menos para falar com jornalistas: sua última entrevista foi publicada em dezembro de 1989, ocasião em que, curiosamente, evitou assuntos literários e comentou apenas temas de política nacional e internacional.

É, portanto, com grande satisfação que trazemos nesta edição uma entrevista exclusiva com José Reynaldo. O escritor aceitou colaborar com a revista Atabaque nos seguintes termos: as perguntas deveriam ser enviadas por correio; o escritor selecionaria quais responderia e o faria por escrito; as perguntas não respondidas também deveriam constar na entrevista e publicadas na mesma ordem em que chegaram a ele.

Sem mais delongas, fiquemos na companhia deste autor de dezenas de livros, milhares de páginas, milhões de frases e, ainda assim, homem de raras palavras.

ATABAQUE: O que o levou a ser escritor?
JOSÉ REYNALDO: Há quem crie e creia em versões romantizadas, elegendo os escritores como “antenas da raça”. Eu prefiro pensá-los como pessoas fascinadas por pessoas, mas, contraditoriamente, solitárias. Talvez esse paradoxo aparente seja a chave para entender a necessidade dos escritores de criar suas próprias pessoas e mergulhar a fundo na vida delas.

A: Quais são suas fontes de inspiração?
JR: Tudo o que eu experiencio me suscita ideias que acabam, de alguma forma, aproveitadas na minha literatura. Mas imagino que você se refira a fontes literárias de inspiração. Nesse caso, lembro um livrinho que emprestei na biblioteca da minha escola quando eu tinha sete anos. Os protagonistas eram deuses, e a trama se passava num tempo imemorial. Lembro ainda que havia grandes batalhas, paixões proibidas, assassinatos e também um dilúvio colossal, mas não o de Noé, pois não existia ainda o homem naquele universo. Imagino que fosse algum mito não-judaico da criação do mundo. Essa leitura foi importante por me fazer perceber a existência de coisas além daquelas que os meus sentidos e a minha cultura me apresentavam. O título eu esqueci por completo. Depois de adulto tentei localizá-lo, mas nunca o achei, às vezes chego a supor que inventei o tal livro.

A: Como é o seu processo de criação literária?
JR: Nesta ordem: definição do tema, estruturação da narrativa, pesquisa, escrita e reescritas. Tem algum outro jeito de fazer ficção? Muitos escritores contam histórias mirabolantes sobre os processos deles, alguns até se colocam como profetas, por terem o privilégio de contatar uma instância supostamente inacessível para os demais. Entendo que a lenda seja mais interessante do que a descrição crua do fato, ainda que nenhuma das duas seja a realidade em si. De qualquer maneira, não sou um desses profetas.

A: Cada vez mais jovens produzem e publicam ficção, graças à Internet. O que o senhor recomenda aos neófitos?
JR: Nada que seja útil para eles. Cada autor tem um caminho próprio até chegar às suas questões e à sua linguagem e, independente do preparo, o trajeto é sempre difícil. Mais difícil para os competentes, um pouco menos para os medíocres.

A: Suas narrativas são famosas por abordarem a violência. Poderíamos concluir que o senhor é pessimista em relação ao mundo contemporâneo?
JR: Às vezes sim, nos momentos de maior lucidez. Mas também tenho meus lapsos de distração, como toda a gente, diante de algo essencial, que muitas vezes sou incapaz de descrever ou sequer ver.

A: Seu livro mais recente, 29/04, retoma o tema da violência policial, que lhe foi tão caro nas décadas de 1960 e 1970. Além disso, ele apresenta uma estrutura fragmentária semelhante à de seu primeiro romance, Cabeça de papel. Essa retomada temática e formal é um alerta de que a democracia esteja em risco?
JR: Democracia em risco? Você é quem está dizendo isso. Se algo está em risco é a nossa faculdade cognitiva. Em bom português: não sabemos mais pensar por nós próprios. Recebemos estímulos (e são tantos) passivamente. Nas raras vezes em que reagimos, fazemos isso sob a condição do anonimato, como mensageiros do “pensamento geral”. Esse “nós” de quem julgamos ser porta-vozes é impossível de ser definido e, ainda assim, apresenta-se como total, quando, na verdade, é apenas parte idealizada de um todo heterogêneo. Tantos se julgam mais críticos do que os demais, seguem à risca uma fórmula contemporânea de “senso crítico”, enquanto os assuntos que não estão na moda, basicamente todo o resto, é calado, aniquilado, esquecido. Isso soa familiar? No fim, destruímos a reputação ou a vida de tantas pessoas sem corrermos o risco de sermos responsabilizados por isso. Isso porque não nos sentimos obrigados a fazer julgamentos morais conscientes, só seguimos a onda. Agora, com relação à sua pergunta, eu prefiro não comentar meus próprios livros, não quero tirar o emprego do pessoal da academia e acho que nem teria competência para isso.

A: Entre os livros que o senhor escreveu, qual é o seu favorito?
JR: Valorizo todos pelo grande esforço que me exigiram, mas claro que alguns atingiram mais os objetivos propostos do que outros.

A: O senhor acha que já escreveu a sua obra-prima?
JR não respondeu.

A: O senhor está trabalhando em alguma história neste momento?
JR: Sempre estou, é uma questão de luta com a morte.

A: O que significa a fama para o senhor?
JR: Significa que as pessoas se interessam por mim. Preferiria que essa mesma atenção fosse direcionada aos trabalhos que eu publiquei. Meus livros estão à espera de leituras. Não posso ser escritor e meu próprio leitor ao mesmo tempo, o jogo não funciona assim. Por que insistem para que eu analise minhas criações? Já fiz o papel de escrever. Agora aquelas histórias pertencem a quem quiser se apropriar delas, já não são mais minhas, não sei nada além das palavras com que as compus.

A: O senhor acha mais difícil escrever literatura antes ou após a fama?
JR não respondeu.

A: Uma biografia não autorizada sobre o senhor cita uma série de casos amorosos seus com celebridades, inclusive com a atriz francesa Aimée Douce. Poderia comentar alguma dessas histórias?
JR: Relembrar o passado amoroso nunca trouxe vantagens a ninguém.

A: O senhor acredita que as festas literárias incentivam a leitura ou, pelo contrário, deixam o livro em segundo plano para valorizar a figura do escritor?
JR: Parece que o senhor já tem uma tese sobre o assunto. O que eu poderia acrescentar? Não participo dessas festas.

A: Até a década de 1980, o senhor estava sempre em contato com o público e a mídia. O que mudou desde aquela sua última entrevista de 1989? Por que o senhor optou pelo silêncio e pelo isolamento?
JR: Por que não?

A: O que o senhor acha do apelido que a mídia lhe conferiu (Eremita)?
JR: Inapropriado, pois me faz parecer mais sábio do que eu sou.

Comentários

  1. Se eu lesse essa entrevista num jornal de verdade, iria achar o autor um babaca. Ou alguém muito cansado. Ou um babaca cansado.

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    1. Será q mts escritores não são mesmo babacas cansados da vida?

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    2. E digo até por mim mesma. Tento ser nietzschiana, celebrar a vida, mas qts vzs não caio no cinismo e na soberba...

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  2. Cansado e babaca, eu tb sou. As vezes estou descansado, mas babaca é uma questão de escolha. Depende tb de com quem a gente está falando.

    Voltando ao livro:
    Na construção do personagem, pela entrevista, dá essa impressão. Não sei se era o seu intento.

    Muitas vezes, quando você já conhece bem o personagem, acaba esquecendo que o leitor não, então fica alguma impressão errada. Às vezes o autor corrige isso mais a frente, mas não é incomum o autor não usar isso intencionalmente, criando uma reviravolta não intencional e que não causa muito impacto.

    É o mesmo problema ao escrever tese e dissertação. Depois de tanto tempo com aquilo, muito pra você fica óbvio. Mas nem sempre é.

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    1. Nem me fala em tese... To aqui tentando espremer o cérebro AGORA ora ver se sai algo.

      Qt ao José Reynaldo, é um velho antissocial e, sim, cansado no sentido de não entender o mundo contemporâneo e nem se esforçar pra isso. Como toda pessoa, ora é babaca, ora não. Depois vc me diz o q predomina. Tenho por ele um carinho igual àquele nosso tioavô que sofreu tanto na roça, mas vota no Bolsonaro pq acha q ele não é corrupto, sabe esse misto de emoções?

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  3. Alguma referência ao Dalton Trevisan? Pensando no comentário do Andarilho, eu lembro de alguns escritores do século XX, como Raduan Nassar, Lobo Antunes. Mas me lembra também a espetacularização da mídia sobre a figura do escritor.

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    1. Siiiim, pensei muito no Dalton para criar esse personagem. Mas também pensei num certo escritor gaúcho que você esqueceu de citar... (Mistérios)

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