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Mostrando postagens com o rótulo direitos humanos

Mãe

Ontem uma amiga deu à luz seu primeiro filho. Quando ela me descreveu o parto, que, precedido de uma gestação dolorosa, ainda teve complicações, pensei: essa mulher atingiu o nível existencial dos semideuses. A coragem para suportar a dor e dizer “sim” ao seu desejo até o final é impressionante. Nas histórias míticas, os heróis – quase sempre pertencentes a uma linhagem divina, por isso são semideuses – iam para as guerras para acumular feitos notáveis e, assim, provar sua honra. O que muitas vezes esquecemos é que, não importa a bravura e o desapego deles, ou quantas pessoas tenham “salvado” com suas armas, eles só conseguem matar, jamais gerar vida nova. Inclusive, já disseram (não lembro a fonte, desculpem) que o homem prolifera ideias para suprimir sua incapacidade de criar com o corpo. Esta conversa poderia descambar para os clichês de Dia das Mães: aquela que dá a vida, a que se sacrifica, a encarnação do amor incondicional... Mas aí mora outro perigo. Pela generalização, ignoram...

Domingo de Ramos

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É preciso explicar que eu não suporto multidões e passei a vida toda criando estratégias para sobreviver às situações em que não pudesse evitá-las. A missa dominical é uma dessas ocasiões. Costumo chegar uns dez minutos antes para garantir um bom lugar, o que, no meu caso, significa sentar perto do corredor e da porta. Assim eu tenho a sensação de que, se as pessoas saírem do controle, conseguirei escapar correndo, mas não pode ser tão ao fundo a ponto de eu ver toda aquela gente diante de mim. É uma operação que exige certo cálculo. Então vocês podem imaginar minha reação quando, estando eu tão bem acomodada, uma ministra anunciou que a missa começaria do lado de fora e que entraríamos todos juntos em procissão. A igreja não é muito grande, quem chega atrasado sempre fica em pé. Saí bufando, mas fui. Recomecei os cálculos. O ponto de encontro ficava na calçada a uns 100 metros da igreja, procurei ficar mais ao fundo e próxima ao meio fio, para que eu pudesse escapar pela rua se n...

Ouves o grito dos mortos?

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Marielle virou símbolo. Não por ser uma exceção, mas porque conferiu um rosto para esses tantos brasileiros cuja aniquilação foi tão completa que quase duvidamos de que existiram. Marielle nos obriga a lidar com o fato de que muita gente neste país morre simplesmente por desejar justiça social. E mais: lembra que essa violência atinge todos nós. Há quanto tempo não vivemos amedrontados e impotentes, sem ousar esperar algo melhor do futuro? Até a esperança parece ter sido sequestrada. O Brasil é um dos países que mais matam ativistas dos direitos humanos e arrisco palpitar que seja também um dos que mais apagam sua memória. Quando se proíbe que certos temas sejam debatidos nas instituições de ensino, quando se dissemina a desinformação, quando se chama de “mimimi” toda narrativa de opressão, constrói-se uma máquina de apagamento da memória. O estado é o principal interessado em fazer esquecer, porque é o principal responsável pela violência. Seja apertando o gatilho, seja incentiva...