Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 27)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
27. A inominada (3)
Bizarra aquela japinha de cabelo igual ao do Sonic, pensou Leandro, mas quando percebeu que ela não era a arruaceira que supusera à primeira vista, até que ficou com vontade de conhecê-la melhor. Fizeram à moda americana, já que ela era fã de Mom I became a Spider, Trends, Text to Nicky e seriados afins. No primeiro encontro, foram ver um filme do Studio Gigi no cinema. Parece que houve milhares de beijinhos durante os créditos finais, só pararam quando a luz acendeu e eles se perceberam os últimos sobreviventes na sala. No segundo encontro, assistiram a uma peça experimental inspirada em pinturas do Goya. Ele ficou um pouco cabreiro com as bruxas, mas fingiu que segurou firme a mão dela por puro romantismo. No fim do mês, já tinham experimentado todos os sabores de café do Marstrucks e de modalidades de beijos apropriados para locais públicos. Trocaram alianças de prata, as mais caras da loja, escolhidas e pagas pelo rapaz.
Leandro demorou pra contar que era filho de uma figura política importante em Santos, mas, quando finalmente fez a revelação, a moça não pareceu se deslumbrar com isso. Que fique bem claro: foi ele quem fez questão de inserir a namorada em seu círculo social, o que incluía participar de infinitos jantares com membros da extensa família, pais, irmãos casados, irmãos solteiros, avós, tios, primos dos mais diversos graus, padrinhos, tios-avôs, a ex-babá que era quase uma mãe etc. Ela demorou pra entender que a casa matriz deles era em Santos e que o apartamento em São Paulo só era usado quando vinham a passeio, já que isso acontecia basicamente toda semana. Rico de cidade média adora ser rico na capital, a moça constatou levianamente, mas guardou a opinião só para si.
O sobrenome dele rendeu ao jovem casal duas vagas de estágio numa empresa de propaganda importante, Stinks. O ritmo de trabalho ali era intenso, mas nos fins de semana sempre dava pra espairecer na casa de Santos, com a família dele, gente tão faladora e solícita. A visita ao sítio dos pais dela ia sendo adiada, porque ele achava longe demais e a estrada não era das melhores, riscaria o B1 rebaixado da mãe, que era praticamente dele por usufruto. Na véspera do primeiro aniversário de namoro, ela adotou o cabelo chanel castanho estilo Jackie Kennedy e, tendo percebido a satisfação do amado, resolveu dar um tempo no troca-troca de cortes e tinturas. Sentiu-se mais madura assim.
Durante dois anos e meio ela foi feliz desse jeito, castanha. Depois veio o tempo da dúvida, seguido pela quase certeza. Esperou o resultado do intercâmbio para ter a tal conversa. Ele ficou enfurecido, chutou umas coisas e tudo o mais. Até aí, nada fora do normal – aqueles que dizem que tiveram um término fácil é porque não se lembram mais dos detalhes, pra sorte deles. A inominada já tava devidamente instalada na Califórnia, agora sim estamos falando da gringa, quando soube da internação de Leandro. Considerou voltar pro Brasil, retomar o namoro, ajudá-lo a se recuperar, ser feliz pra sempre nas férias de verão em Santos. Todos os dias ela pensava nisso, mas não voltou. Não era culpa dela, já tinha aguentado até demais, os novos amigos deram um help. Uma hora ela acreditou neles e, abraçando a teoria do caos, relembrou como a inconstância da vida tem lá a sua graça.
Studio Gigi <3
ResponderExcluirUma coisa muito boa dos personagens que você coloca. De modo geral, são personagens-tipo dessa classe média. Mas eles sempre tem uma coisa que escapa da tipificação. E com a Inominada dá pra ver bem essas escapadas.
Os burgueses também amam.
Excluir"Mom I became a Spider, Trends, Text to Nicky"
ResponderExcluirNão peguei nenhuma das referências.
"Que fique bem claro: foi ele quem fez questão inserir a namorada em seu círculo social,"
Não ficou faltando um "de" entre "questão" e "inserir"?
E por fim, um amigo meu chama de Falecida.
"Mom I became a Spider, Trends, Text to Nicky"
ExcluirHow I met you mother, Friends, Sex and the City...
Sim, falta a preposição, já vou consertar. Obrigada!
"E por fim, um amigo meu chama de Falecida."
Não entendi...
How I Met your mother virou Mom I became a Spider? Gzuis.
ResponderExcluirA Inominada não tem esse "nome" por ser a ex? Um amigo meu chama a ex-esposa de A Falecida (de brincadeira, ela não morreu).
How I Met your mother virou Mom I became a Spider?
ExcluirVou mais pelo som que pelo sentido...
Ah, agora entendi a história da Falecida... Que descanse em paz! É o que a gente deseja dos ex, que não perturbem para todo o sempre, amém...
"Como eu conheci sua mãe" virou "Mãe, eu me tornei uma aranha". Tão kafkiano? kafkaano? kafkaniano? Sei lá.
ExcluirSe rima tá bom o suficiente pra mim. Ser kafkiano é um bônus... :D
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