Postagens

Mostrando postagens com o rótulo vida

Mãe

Ontem uma amiga deu à luz seu primeiro filho. Quando ela me descreveu o parto, que, precedido de uma gestação dolorosa, ainda teve complicações, pensei: essa mulher atingiu o nível existencial dos semideuses. A coragem para suportar a dor e dizer “sim” ao seu desejo até o final é impressionante. Nas histórias míticas, os heróis – quase sempre pertencentes a uma linhagem divina, por isso são semideuses – iam para as guerras para acumular feitos notáveis e, assim, provar sua honra. O que muitas vezes esquecemos é que, não importa a bravura e o desapego deles, ou quantas pessoas tenham “salvado” com suas armas, eles só conseguem matar, jamais gerar vida nova. Inclusive, já disseram (não lembro a fonte, desculpem) que o homem prolifera ideias para suprimir sua incapacidade de criar com o corpo. Esta conversa poderia descambar para os clichês de Dia das Mães: aquela que dá a vida, a que se sacrifica, a encarnação do amor incondicional... Mas aí mora outro perigo. Pela generalização, ignoram...

Para que investir em humanidades e artes?

Imagem
Grande dia! Hoje havia papel e sabonete no banheiro da biblioteca da UF**. É raríssimo haver os dois, ainda mais no masculino. Tenho usado o masculino, porque o feminino está interditado desde o começo do semestre, sem previsão de conserto. Saindo de lá, pude voltar toda minha atenção para a leitura de Richard Rorty, já que não precisaria gastar energia mental pensando nos germes que eu carregava após uma ida ao banheiro sem os utensílios básicos de higiene. Hoje não! Com as retaliações, quero dizer, as contingências no Ensino Superior, muitos universitários têm ido a público para demonstrar a importância de suas pesquisas para a sociedade. Eu, como doutoranda em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e bolsista da Capes, me sinto na obrigação de fazer o mesmo. Só temo não conseguir fazer isto tão rápido, angariar simpatias já à primeira vista. Tenham paciência para ler este texto e talvez, até o fim dele, quem sabe... Durante a minha pesquisa, não uso jaleco, nem bisturi, ...

Sobrevivência

Há muito tempo perdi a vontade de escrever para o público sem rosto da Internet. O blog ficou assim abandonado, desativei Facebook, Twitter e, por fim, Whatsapp. Nem preciso dizer que minha vida ficou muito melhor, a ansiedade baixou, o tempo se multiplicou. Claro que eu sentia falta de alguns amigos de quem eu não tinha mais notícias, mas passei a apreciar mais as companhias das pessoas que estavam por perto. Sem a armadura digital, finalmente entendi que era nesta cidade, neste bairro, nesta universidade minha nova vida. Poderia ser num espaço e num tempo expandidos, mantendo o cordão umbilical com os amigos que fiz pela vida toda, mas descobri que prefiro o espaço-tempo assim mais limitado, menos assustador, traz menos problemas para eu lidar. Isso não significa alienação, passei a ler mais a mídia tradicional e consigo novamente opinar sobre os fatos em vez de só mencionar manchetes ou memes. Para ficar perfeito, só preciso aprender a desativar o feed de notícias do Google (help!),...

Mudança

Imagem
Gente feliz não escreve, vive. Parafraseio uma fala do Cristóvão Tezza que ouvi nalguma Semana de Letras anos atrás para anunciar: resolvi ressuscitar o blog. Sim, estou meio infeliz, mas não é disso que falarei, já bastam os posts depressivos de meses atrás, ou talvez fale só um pouquinho... mas prometo um final otimista! Nada de depressão, graças à minha ótima psicóloga (passo o contato para quem precisar), apenas a tristeza normal da vida. Quero descrever a sensação de mudar de casa. Meus pais sempre foram muito constantes, avessos inclusive a reformas, de modo que nos mudamos pouquíssimas vezes, e acho que herdei essa característica. Chego a um lugar e tento logo transformá-lo na minha casa, instalar-me em definitivo. Claro que, fazendo assim, vou contra a ordem natural do mundo (pura inconstância), mas esse é um aprendizado que ainda não me entrou na cabeça, infelizmente. Não sei ser nômade, embora com frequência me proponha andanças e passe pela maioria das experiências de m...

Do amor ao próximo

Vós vos amontoais junto ao próximo e tendes belas palavras para isso. Mas eu vos digo: vosso amor ao próximo é vosso mau amor por vós mesmos. Fugis de vós mesmos em direção ao próximo, e desejaríeis fazer disso uma virtude: mas eu enxergo através de vosso “desinteresse”. O Tu é mais antigo que o Eu; o Tu foi santificado, mas o Eu ainda não: assim, o homem se apressa para junto do próximo. Eu vos aconselho o amor ao próximo? Aconselho-vos antes a fuga ao próximo e o amor ao distante! Mais alto que o amor ao próximo está o amor ao distante e futuro; ainda mais alto que o amor aos homens está o amor a coisas e fantasmas. Esse fantasma que corre à tua frente, meu irmão, é mais belo do que tu; por que não lhe dás tua carne e teus ossos? Mas tens medo e corres para teu próximo. Não suportais a vós mesmos e não vos amais o bastante: por isso quereis induzir o próximo a vos amar, dourando-vos com seu erro. Eu quisera que não suportásseis qualquer tipo de próximo e seus vizinhos; ...

Coleção de vídeos para vivenciar e entender a deprê

Meus amigos já estão cansados de receber sugestões desta página, The School of Life , mas deixo aqui uma pequena coletânea que pode ser útil para quem estiver passando por um momento de crise parecido com o que estive/estou passando. A verdade é que eu me abri muito nos posts passados justamente imaginando essa pessoa que poderia estar precisando de ajuda, como eu também estava, mas sei lá... acho que está sendo um esforço inútil, só exposição gratuita, uma vontade grande de me fazer útil para alguém ou uma esperança muito tola de alguém sentir pena de mim e me acolher. Não quero mais fazer isso, quero voltar à programação normal, só publicar textos opinativos sobre temas interessantes, exercitar um pouco minha má literatura, essas coisas... Então, ficam abaixo os vídeos para acompanhar aquele que nunca cheguei a abandonar, porque a pessoa nunca nem soube da minha existência e sequer quis ser ajudada por mim. Sobre sentir-se deprimido:  https://www.youtube.com/watch?v=UoLWYhwROBI...

Quarentena

No 40º dia, comecei a ver com clareza quem eu era, onde eu estava, para onde eu ia. E sorri com serenidade. Muita compaixão por mim e por aqueles que cruzaram comigo, afinal, o caminho não era o meu, era o nosso -- eu só não havia visto o tanto de gente que rastejava, saltitava, corria, voava ao meu lado, pois eu era um espectro faminto, só enxergava o que parecia alimento para saciar o meu vazio. Entendi o valor dos 40 dias... anos... demônios... ministros... A tentação, a queda, a morte que precedem a luta, a ascensão, a vida. Se estou viva foi porque morri. Parei de lamentar a decadência do meu império. Era lindo, sim, muito imponente e me custou tanto trabalho, mas em algum momento ele já não era mais coisa alguma, senão uma lembrança. Então eu própria meti fogo em tudo e me permiti chorar enquanto ruía, depois enxuguei o rosto com as cinzas até eu mesma virar cinza. Pó, terra, matéria disforme. Nada, possibilidade, sonho. Venci o deserto quan...

Diário da crise existencial (os falsos aliados)

Só Deus sabe o quanto nesta vida resisti à tentação de dar indiretas nas redes sociais, mas esta mensagem será bem direta. Digo-a em prol da minha sanidade mental, não por algum tipo de vingança. Uma breve contextualização. Quando a gente está passando por uma longa fase depressiva, lutando para reconstruir uma existência neste mundo, tende a buscar ajuda em vários lugares, até obsessivamente, porque a gente não consegue ficar sozinha com os próprios pensamentos -- eles são tão terríveis que precisamos nos distrair de nós mesmos. O problema é que, na hora do desespero, podemos recorrer a pessoas que não querem o nosso bem, são os falsos aliados. Essas pessoas tentam tirar alguma vantagem da nossa vulnerabilidade e, após conseguirem ou porque não conseguiram e começa a ser muito trabalhoso insistir, desaparecem, fazendo a gente se sentir ainda mais abandonada do que já estava inicialmente. Felizmente, estou vacinada contra esse tipo de pessoa e, quando isso acontece, eu tento me des...

Diário da crise existencial (a recaída)

Quando escrevi o post passado, lembro de estar me sentindo otimista, ainda bastante fraca, mas esperançosa de que a melhora não tardaria. Hoje venho para registrar que estou de volta à fase um, total desânimo. Como assim, né? Tinha voltado a me dedicar aos estudos, estava saindo com os amigos, empenhada numa busca mais espiritual... para onde foi tudo isso? Não sei e, no momento, não encontro forças para tentar explicar. Só me sinto um corpo sem vida, deixado de lado, sem ninguém a quem recorrer. Acho que é assim que funciona, não há um progresso linear, a gente fica sempre em torno das mesmas situações até conseguir superá-las de verdade. Felizmente tenho terapia amanhã de manhã, só preciso me aguentar até lá...

Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

Imagem
Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário. Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Ne...

Uma questão de método

Depois de inúmeras crises existenciais nos últimos meses, cheguei a um dilema que, acredito, é a base de todos os outros. Alguém tem um palpite de como resolvê-lo a fim de levar uma vida menos sofrida e mais significativa? Segue. O melhor método para se viver é: a) assumir nossa fragilidade e excessiva dependência do afeto alheio, estabelecendo o maior número de conexões com as pessoas para se cercar de uma rede de proteção emocional, ou b) cortar de vez todos esses vínculos, viver radicalmente a solidão para se fortalecer fora da ilusão de que haja uma possibilidade de salvação individual? (Como os últimos, imagino que os próximos posts devem seguir nesta linha, estão avisados.)

Crise existencial acadêmica

Imagem
Alguém se reconhecerá no desabafo abaixo? Pensei em dividir estas angústias para lhes dizer: não estamos sozinhos em acharmos que estamos sozinhos. Porém, mesmo não estando sozinhos no sofrimento, a sensação de solidão ainda é imensa, então não acaba sendo verdade que estamos mesmo sozinhos? Bem-vindos ao clube da eterna crise da pós-graduação! E olhe que nem comecei o doutorado ainda... Diálogo mental com meu escritor favorito (preencha aqui o nome de sua preferência): Você que chegou lá, que eu tanto admiro por publicar livros de verdade, me diz como se faz para atingir um ponto em que você se sente seguro de que sabe muitas coisas ou pelo menos sabe muito bem poucas coisas? Quanto mais eu leio e penso, mais evidente fica minha ignorância sobre tudo. Isso na boca de um Sócrates, cujo valor intelectual está bem provado, parecem palavras de sabedoria, mas num contexto de modernidade, em que você é um novato precisando provar para pessoas capacitadas a sua capacidade quando voc...

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

De volta

Imagem
Estive lá fora. Há muito para ver e sentir e fazer. Mas nada que se compare àquilo que a literatura já me dava. A vida dentro dela é mais intensa e perfeita. A gente enxerga certas coisas com mais nitidez quando toma distância. Estou a cada dia mais convicta de que o belo só desponta em meio ao feio. Mesmo um rei em seu palácio de marfim, servido pelas escravas mais lindas e degustando os pratos mais deliciosos, pode considerar, em algum momento, que não possui sequer o necessário. É preciso sair, para poder voltar prenhe de sentidos e, um dia, querer sair de novo. (Sob a égide de “Cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino, um livro que só cresce quanto mais me distancio daquela primeira e frustrada leitura.)

O dia em que resolvi parar de ter aquelas conversas profundas sobre o sentido da vida e comecei a vivê-la

Um dia produtivo, daquele tipo que adoro. Eu voltava para casa de bicicleta, satisfeita e cansada. O problema foi o horário: ainda eram sete horas da noite. Vislumbrei a cena. Eu abriria a porta, seria recebida por aquele silêncio denso, não teria ninguém para quem ligar, nenhum bicho para alimentar, só restaria o computador e o trabalho pendente. Se encarasse mais uma dose de obrigação, arruinaria aquela quinta-feira, que já estava na medida certa, e iria dormir com a sensação de mais outro dia repetido, igual ao anterior e ao anterior e ao anterior. Enrolei-me no caminho de volta, esperando uma solução mágica. Foi então que encontrei rostos conhecidos. Gente de quem nem gosto muito, mas era uma oportunidade de conversar. Fiquei superexcitada, me atropelei, falei mais do que devia. Quando me dei conta, revelava àquelas pessoas de quem nem gosto muito o quanto eu vinha me sentindo solitária. E isso já faz uns quatro anos, mas elas supuseram que era uma condição que se arrastava de ap...

Abusar

Imagem
Entre as muitas vantagens do modo de vida moderno, está poder se sentar ao lado de um estranho no ônibus sem temer que ele vá te agredir repentinamente. A casca da civilidade garante que disfarcemos nossas emoções em locais públicos e, assim, não joguemos merda no ventilador quando estivermos putos. Você pode odiar seu vizinho, mas o “bom dia” é uma promessa de que vão dividir em paz o espaço que habitam. Agora, o que acontece com certas pessoas que até conseguem seguir essas regras básicas de convivência, mas não as levam para a vida pessoal? Por que depois de ganhar intimidade suficiente há quem vire um pequeno demônio, respondendo torto, xingando e abusando de quem ama? Que lógica existe em tratar bem os desconhecidos e martirizar os amigos e familiares? Desconfio de que alguns indivíduos se importam mais em aparentar para a sociedade bondade do que em realmente ser bons. Só não sei se isso dá conta de explicar o abuso moral que muitos praticam contra os entes queridos. Me...

Sobre a passagem do tempo

Imagem
O post passado me deu a ideia de fazer um ensaio fotográfico sobre a passagem do tempo. Ao focar a deterioração de corpos que um dia foram belos, eu tentei vislumbrar algum tipo de beleza no limiar da morte. A carniça pode ser sublime (para usar uma imagem de Baudelaire)? Eu bem que tentei durante três dias, mas a luz não ajudou desta vez - fotografei à noite, com iluminação artificial. De qualquer forma, o resultado servirá como ilustração para um poema que foi duramente interrogado e torturado durante quase dez horas por três estudantes de Letras. Tiramos o suco viçoso, ficou a carniça. Não a do poema, a nossa. O inimigo - Charles Baudelaire (Trad. Ivan Junqueira) A juventude não foi mais que um temporal, Aqui e ali por sóis ardentes trespassado; As chuvas e os trovões causaram dano tal Que em meu pomar não resta um fruto sazonado. Eis que alcancei o outono de meu pensamento, E agora o ancinho e a pá se fazem necessários Para outra vez compor o solo lamacento, Onde...

O amor, o sorriso e a flor

Imagem
Nesta postagem de número 200, vou deixar a verborragia de lado e me render à beleza simples e passageira. Afinal, como escreveu Horácio na ode I,38, "Renuncia a buscar o lugar, onde duram as rosas”. (A foto é de minha autoria, tirada com uma Sony Cybershot 5.1 que, sei lá como, ainda consegue captar essa riqueza de textura.)

Há dias em que é preciso escrever

Há dias em que é preciso escrever. Se eu não o fizer, parece que morro. Depois que encho uma folha inteira e pingo o último ponto, as dores do morrer ainda estão lá. A única – mas essencial – diferença é que as sinto com alegria. Tudo se justifica pela arte: disseram-me, acreditei. Eu produzo arte: digo-lhes, acreditem. A literatura deveria facilitar as experiências ruins. Facilita? Ela multiplica a dor, que se transforma num turbilhão e, sabe-se lá como, anestesia a dor original. A literatura dá nomes diferentes aos demônios conhecidos, cobre os medos com capas bordadas e grita: “que lindo este defunto!”. Nenhuma dor é verdadeira, nada nos diz respeito, por isso, podemos chorar à vontade. Ao lastimar o fim daquele amor de mentirinha, esquecemos o que realmente há para se lamentar: a fugacidade da vida. Vida que nos escapa inclusive quando nos distraímos, encantados, com um livro na mão. Será que nós sobreviveríamos à realidade? Eu já tentei e concluí, há dias, que é preciso escrever. ...

Sobre a humildade

Logo após publicar o post passado, pus-me a pensar o seguinte: esperamos muito das outras pessoas, mas o que lhes oferecemos da nossa parte? Hoje gostaria de agradecer àqueles que me tratam com arrogância, pois me mostram como a soberba é detestável e me fazem desejar ser cada vez menor, mais silenciosa, menos venenosa. Este texto pequeno e simples é meu primeiro passo em busca da humildade.