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Mostrando postagens com o rótulo Brasil

Quadro de avisos

Atenção, meus dois ou três leitores: o blog está de volta à ativa. Sim, também estou cansada de telas e de discursos sem rosto e sem toque, meus dedos doem de tanto digitar, mas é o que temos para hoje. Tentei o silêncio, na esperança de não reforçar a tensão geral. Foi bom por um tempo, até que senti falta de conversar. Como estou em plena escrita da tese, para contrabalancear essa loucura de ser tão profundamente séria e inteligente (uhhh) por horas a fio, resolvi desengavetar aquele plano de publicar o meu romance "Elegia da gente viva” aqui. Só metade do livro está pronta, a outra vai sendo escrita em paralelo às postagens, então vocês podem palpitar. Talvez eu incorpore alguns desses comentários, se achar que eles forem produtivos para a estrutura geral. Independente disso, feedbacks são sempre bem-vindos.  Decidi postar aqui no blog, porque não é um grande romance e, ao mesmo tempo, não me parece tão ruim para morrer como arquivo de Word. É uma forma de me forçar a terminá-l...

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite...

Até dar uma choradinha? Acho que sim, faz parte. Não há dias em que chorar seja impossível ou proibido, certo? Sábado à noite é especialmente bom para chorar, me parece até mais honesto, sem medo de ser infeliz. Então lá vai. Encontrei esta bela homenagem às vítimas de COVID-19, chamada genialmente de "inumeráveis":  https://inumeraveis.com.br/ . Nestes tempos de quarentena, tenho "aproveitado" o isolamento para adiantar a tese. Quando meu companheiro, que também está escrevendo a dele, me contou que havia dedicado o presente capítulo às vítimas de COVID-19, pensei: a gente pode fazer isso? Se não pode, tem que fazer mesmo assim! Tentamos tirar um pouco a cabeça dessa bagunça que tá o mundo para conseguir escrever, mas não podemos ignorar que esse é o mundo em que nossas pesquisas estão se desenvolvendo. Absurdo seria agir como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra. Então eu o copiei. Como eu estava refletindo sobre a pessoalidade da morte para Heide...

#liberteofuturo

Apesar de meu grande interesse pela esfera pública -- eu era aquela adolescente que lia o caderno de política do jornal antes dos demais e me metia na conversa de adultos para corrigi-los, depois virei jornalista, participei do movimento estudantil... --, faz uns anos que me desiludi de me engajar na política. O motivo é muito simples: quando alguém adere a um coletivo, é tragado por ele. Passa a vestir como se fossem seus os méritos do movimento e não precisa assumir a responsabilidade pelas falhas dele. As engrenagens da massificação e da trituração de individualidades que os governos autoritários de direita e esquerda exemplificam tão bem... É por esse motivo que Simone Weil é contra partidos políticos (recomendo fortemente a leitura do ensaio " Pela supressão dos partidos políticos "), além do fato de que essas organizações, a médio e longo prazo, acabam abandonando suas ideologias iniciais pelo projeto exclusivo de manutenção do poder. Todo partido é um PFL (Partido para...

Boicotar a Amazon

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Talvez vocês já tenham ouvido falar que o patrimônio líquido de Jeff Bezos, o dono da Amazon, está próximo de atingir 1 trilhão de dólares. A pandemia só reforçou o modelo de negócios que essa empresa tinha estabelecido com tanta competência -- grande oferta de produtos, preços atraentes e entrega ágil --, mas vocês não acham assustador uma única pessoa deter uma fatia tão grande do mercado? A Amazon praticamente engoliu o mercado livreiro, basta ver quantas livrarias fecharam as portas nos últimos anos, mesmo as megastores, e começa a fazer o mesmo com o comércio de produtos variados (eletrônicos, papelaria, vestuário, tudo o que se puder imaginar). Quando ela for a única empresa, o que a forçará a manter a variedade de produtos e os preços baixos? Daí a necessidade de o consumidor também fazer as contas a longo prazo. Esses dez reais que você economiza agora custarão quanto no futuro? É por isso que, mesmo tendo me servido tanto das vantagens da Amazon no passado, hoje estou pre...

"Essa vida é mesmo...

... um barco de merda, navegando em um mar de mijo, impulsionado por uma forte vendaval de peidos." (Waly Salomão, "Self-portrait", in: Me segura q'eu vou dar um troço) ** Depois do verso do maravilhoso Waly Sailormoon, fica difícil colocar algum conteúdo mais relevante, mas preciso dar notícias a vocês sobre a minha tentativa de resistir ao consumismo . Obviamente eu fracassei. Fiquei uma semana inteira sem abrir sites aleatórios de compras e aproveitei também o embalo para suspender o hábito de checar o noticiário a cada hora. Isso, em tempos de internet, foi um uma internidade (sorry...), deu tempo de o "presidente" fazer um zilhão de merdas e de passarem uns cinco caras pelo Ministério da Saúde. Ou seja, o ciclo "normal" de acontecimentos do Brasil pós-2016. A diferença é que não gastei meu tempo formando opiniões sobre a atitude de um bando de ignorantes raivosos. Alienação? Só desisti de esperar qualquer bom senso dessa turma. Para...

Janelas provisórias

Eu tenho duas janelas, enormes, pelas quais o sol da manhã inunda meu quarto-cozinha, o que a gente diferenciada gosta de chamar de "loft", mas, para bom entendedor, ainda é uma "quitinete". Esse foi o principal motivo para eu ter me mudado para cá. A vista anterior, um muro e uma gaiola com uma calopsita berrando, quando penso nela, nas raras vezes em que faço isso, parece irreal, como um pesadelo que se dissolveu no momento em que abri os olhos, despertada por este sol farto que me toca todas as manhãs. Quando abro a janela, espero pelo tropel de um cão só. É Pólux que vem me saudar, esperançosa de que eu a convide para o café da manhã. Ultimamente o pão tem sido pouco, mas ela sempre vem. Não importa a hora, ela se levanta e vem, olhando para cima e lambendo seu focinho castanho. Se não tenho comida em casa, lanço-lhe beijos, mesmo sabendo que ela preferiria um bolo. Seu favorito é o de mexerica, mas ela aceita qualquer oferta e volta a dormir. Esta é uma jan...

Ouves o grito dos mortos?

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Marielle virou símbolo. Não por ser uma exceção, mas porque conferiu um rosto para esses tantos brasileiros cuja aniquilação foi tão completa que quase duvidamos de que existiram. Marielle nos obriga a lidar com o fato de que muita gente neste país morre simplesmente por desejar justiça social. E mais: lembra que essa violência atinge todos nós. Há quanto tempo não vivemos amedrontados e impotentes, sem ousar esperar algo melhor do futuro? Até a esperança parece ter sido sequestrada. O Brasil é um dos países que mais matam ativistas dos direitos humanos e arrisco palpitar que seja também um dos que mais apagam sua memória. Quando se proíbe que certos temas sejam debatidos nas instituições de ensino, quando se dissemina a desinformação, quando se chama de “mimimi” toda narrativa de opressão, constrói-se uma máquina de apagamento da memória. O estado é o principal interessado em fazer esquecer, porque é o principal responsável pela violência. Seja apertando o gatilho, seja incentiva...

Mantra

Repita até soar natural e razoável: "No Brasil, o novo teto salarial dos juízes é 18 vezes a média salarial da população." E, na sequência: "Isso vai aumentar em mais de 5 bilhões as despesas da União, enquanto usam a justificativa da dívida pública para cortar direitos do trabalhador." Por fim, pra atingir o Nirvana: "Ó, Pátria amada, idolatrada, salve, salve!"

Censurado

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Eu ia fazer uma piada sobre o Coiso, mas daí pensei no exército de trolls que trabalha 24 horas por dia para destruir qualquer voz dissidente -- como eles arrumam tanto ódio e tanto tempo? Receberão salário ou fazem só por amor à coisa (ao Coiso)? Moral da história: a autocensura é o primeiro passo para a censura. Eu aprendi isso com José J. Veiga, em especial com "A hora dos ruminantes", leitura que pode nos ajudar a sobreviver nos próximos anos. Sejamos corajosos. Repito para mim mesma. Se o pior acontecer e eu tiver me calado, a culpa também terá sido minha. Ensaio para ter coragem. Uma hora ousarei contar a tal piada, mas ainda não. Infelizmente meu dia não é tão longo quanto o dos trolls, e eu preciso resolver todas as minhas obrigações, que são muitas, sozinha. Então espero por dias mais calmos pós-fim-de-semestre. Mas contarei, eu preciso contar para acreditar que tenho coragem e que a sustentarei quando ela for mais necessária.

Paixões à parte, terrorismo se combate com inteligência

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Depois que eu relembrei o caminho das pedras, fiquei com vontade de voltar. Como comentei no post anterior, troquei as redes sociais pela mídia tradicional e assim venho me sentindo melhor informada. Em vez de replicar memes e incomodar meus amigos e parentes com mensagens alarmistas no Zap, acho que é hora de fazer uma autocrítica para tentar entender como chegamos a este ponto. Afinal, se tivemos 13 anos de governos supostamente de esquerda, por que de repente a extrema direita parece tão mais atrativa no Brasil -- e também no mundo? Esse processo não é súbito, vem ocorrendo há pelo menos uma década, é complexo e exige um pouco mais de dedicação da nossa parte para compreendê-lo. Quem explica bem isso é o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Gostaria de sugerir uma entrevista que achei particularmente interessante do Canal do Le Monde Diplomatique. Em geral, não gosto dos textos deles, acho a linguagem excessivamente acadêmica e panfletária, mas hoje, quando descobri o c...