Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 7)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.


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7. Como tudo começou


No início do primeiro ano, eu passava os intervalos escondido no vão da escada perto da capela. Não me perguntem por que, deveriam é perguntar aos outros como eles conseguiam se sentir tão à vontade naquele turbilhão chamado Ensino Médio. Nos primeiros dias, antes de descobrir o vão, eu matava o tempo na biblioteca. O problema é que ela ficava longe demais da minha sala, acabava que eu não ouvia o sinal pra retornar, distraído que estava com os livros, e chegava atrasado, chamando ainda mais a atenção dos colegas. Nerd ou rebelde, nenhum dos rótulos me interessava. Por ora, o novo abrigo vinha servindo, apesar de um pouco empoeirado. Ele me mantinha oculto todo o recreio e, quando a aula começava, eu me instalava rapidamente na minha carteira, onde podia manter o silêncio sob o pretexto de estar prestando atenção no professor. Foi bom enquanto durou, isto é, até me darem ordem de despejo.

— Dá licença que esse lugar é meu – trovejou uma voz cuja dona estava fora do meu campo de visão.

Saí do vão da escada, engatinhando, meio envergonhado por ter sido descoberto naquela posição ridícula e desapontado por ter que procurar outro lugar pra passar os intervalos. Lutar pelo direito de posse do território sequer me ocorreu como uma possibilidade, ainda mais a adversária parecendo uma viking de ópera ou de RPG. Saí sem oferecer resistência e segui rumo a um destino que não sabia qual seria.

— Peraí, ô, tigelinha... – era de novo o vozeirão – Você não é o primo da Paola do segundo ano? Ela tá te procurando a semana inteira.

— É, tô sabendo.

— Mas você prefere ficar na sua. Sei como é – fez uma pausa, me olhou de cima a baixo e continuou: – Viu, se quiser, pode ficar aqui no meu canto hoje, e amanhã a gente vê como faz. Chega aí.

Naquela época eu tomava qualquer sugestão, pedido, conselho ou sermão como ordem. Voltei a me enfiar no vão sob a escada e sentei de frente pra garota, que já tinha se instalado no lugar onde eu estava originalmente. Esperta, aproveitou a limpeza que eu tinha feito ali com nádegas, suor e uniforme.

— Como é seu nome?

— João Miguel.

— Nome de santo e de anjo, cabelo de seminarista. Você tá bem arrumado na vida...

Eu não dei sinais de que responderia à provocação. Ela continuou:

— Eu me chamo Úrsula. Em que sala você tá?

— 1E.

— Eu sou da 1A, sala dos crânios. Mas eu não vou tão bem, não, é só porque eu estudo aqui desde o jardim de infância, e eles estão ligados que pelo menos metade desse prédio foi financiado pelas minhas mensalidades. Você estudava onde antes de vir pra cá?

— No Alpha Centrum.

— O do centro ou o da Quintino Bocaiúva?

— O do bairro.

— Que coincidência, eu moro ali pertinho. Só que os meus pais preferem que eu estude aqui, colégio de freiras, tradicional, sabe como é.

— Idem.

— Idem o quê?

— Idem para tudo. Eu também moro ali perto, e meus pais preferem a educação religiosa. Eles dizem que eu preciso de mais disciplina pra me tornar um homem.

De onde veio aquele comentário tão pessoal? João Miguel, seu burro, você está condenado a só falar merda. Minha cabeça logo convocou um comitê inquisitorial, que tratou de incinerar uma fogueira colossal, tudo isso num milésimo de segundo. Eu estava prestes a abraçar a morte por livre vontade, mártir da imprudência, quando minha colega me puxou de volta com um comentário despachado:

— Pensei que só as mulheres precisassem se tornar mulheres.

Suspendi a imagem da fogueira por uns instantes e finalmente consegui olhar direto o rosto da Úrsula. Olhos pretondos, nariz pequeno, riso fácil. Até que ela não era tão assustadora, ainda mais agora, sabendo que se tratava de uma dessas raras adolescentes que transitam no mundo dos livros, e melhor, dos livrões, desses divididos em tomos. Mas ela não deu aquela pausa de quem espera receber elogio e já disparou:

— Você mora em qual rua?

— Na Machado de Assis, uma bem pequena, meio atravessada, pouca gente conhece.

— Casa ou prédio?

— Prédio, um amarelo, quadradão, antigo, com sacada de madeira.

— Prazer em te conhecer, vizinho, eu moro no condomínio da frente, o Ivory Tower, aspirante a primeiro mundo (e olha que nenhum morador pronuncia o nome direito), sétimo andar.

— Eu moro no último andar do meu, o sexto.

— Caramba, nós temos os mesmos gostos pra lugar. Aposto que dá pra te ver peladão da minha janela. Cuidado, hein, fecha a cortina quando for se trocar.

— Voyeurismo não saiu de moda desde Hitchcock?

Meu rosto queimava. Aquele que retrucava a brincadeira extravasando pedantismo não era quem eu estava habituado a ser. João Miguel está fora de controle, alguém o detenha!

— Filho, a única coisa que saiu de moda é essa sandália Raidor de velcro que você usa.

Bem feito, isso que dá bancar o engraçadão. Pensei em treplicar que naquela época do ano fazia um calor infernal, que minha unha estava encravada, que meu único par de tênis estava furado, que minha mãe tinha comprado aqueles chinelos sem me consultar e que, portanto, o mal gosto era dela. Deixei para lá, tomei de graça. Eu não sabia se aquela garota me divertia ou me irritava. Que diferença fazia? O fato é que nesse dia a Úrsula entrou na minha vida, e a partir de então se tornou impossível me esconder dela, mesmo se eu fechasse a cortina.

Comentários

  1. Esse encontro se deu na primeira série? Acho que os diálogos ficaram estranhos, não me parecem crianças conversando.

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    1. É primeiro ano do Ensino Médio... Ainda soa mt artificial?

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    2. Nâo, soava artificial pra crianças pequenas. Pra pré adolescentes, é ok. Vc menciona esse encontro no ensino médio antes? Eu tinha impressão que era anterior a isso. Não lembro direito (e agora tô com preguiça de ir lá reler).

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    3. Primeiro ano é por volta de 15 anos. Adolescência bombando já... Ou vc já virou tiozinho que acha que todo mundo abaixo de 30 anos é criança? Hehe.

      Mencionei que era EM ali no comecinho: "Não me perguntem por que, deveriam é perguntar aos outros como eles conseguiam se sentir tão à vontade naquele turbilhão chamado Ensino Médio."

      Obrigada pelo feedback. Se algumas coisas importantes só aparecem em leituras super-atentas, talvez seja o caso de eu dar mais ênfase a elas...

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    4. Verdade, vc coloca mesmo no início, eu é que li cortado e depois esqueci. (Comecei a ler, parei, e depois de um tempo voltei.)

      Fiquei com Harry Potter na cabeça, por causa do vão debaixo da escada, daí veio a imagem de crianças pequenas.

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    5. Harry Potter <3

      Outro q virou um babaca depois de adulto kkkk

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