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Quarentena

No 40º dia, comecei a ver com clareza quem eu era, onde eu estava, para onde eu ia. E sorri com serenidade. Muita compaixão por mim e por aqueles que cruzaram comigo, afinal, o caminho não era o meu, era o nosso -- eu só não havia visto o tanto de gente que rastejava, saltitava, corria, voava ao meu lado, pois eu era um espectro faminto, só enxergava o que parecia alimento para saciar o meu vazio. Entendi o valor dos 40 dias... anos... demônios... ministros... A tentação, a queda, a morte que precedem a luta, a ascensão, a vida. Se estou viva foi porque morri. Parei de lamentar a decadência do meu império. Era lindo, sim, muito imponente e me custou tanto trabalho, mas em algum momento ele já não era mais coisa alguma, senão uma lembrança. Então eu própria meti fogo em tudo e me permiti chorar enquanto ruía, depois enxuguei o rosto com as cinzas até eu mesma virar cinza. Pó, terra, matéria disforme. Nada, possibilidade, sonho. Venci o deserto quan...

Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

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Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário. Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Ne...

Sobre o vegetarianismo [2]

Após mais uma greve de servidores da UFPR, que resultou no fechamento dos restaurantes universitários por quatro meses, nós, os estudantes, saímos dessa história bem mais pobres e subnutridos. Não é a primeira nem a segunda nem a terceira greve que enfrento, já sei como as coisas funcionam e me preparei desde o início para um longo período de improvisação na hora de comer. E, como a primeira consequência era inevitável, decidi que desta vez eu tentaria evitar ao menos a segunda. Por um tempo foi, sim, macarrão diariamente. É rápido e enche a barriga. Em dias de fartura, a massa vinha acompanhada de carne e vegetais; em ocasiões mais modestas, quando a geladeira só continha eco, a base era alho e óleo e, com sorte, um ovo frito. Em dado momento eu já não aguentava mais esse menu, estava ganhando peso e ainda me sentia carente de nutrientes essenciais (termos que a gente aprende em propagandas da Nestlé ou da Danone). Percebi que a greve poderia durar ainda muitos meses e que eu deveri...