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Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Abortos: Curto e grosso

O ódio era tamanho que deu em casamento, oportunidade perfeita para se infernizarem dia e noite, sete dias na semana. Passada a instabilidade dos anos iniciais, o rancor seguia por verdes mares, não fosse uma nuvem: Mayra aprendeu com um pastor as maravilhas do perdão. Levíssima, ela se tornou amável até com José Lucas, que achou a mudança da mulher ridícula, chatíssima, irritante. Na primeira briga em que ela se recusou a gritar de volta, ele a esbofeteou até arrancar um dente. Ou foram dois, não lembro ao certo. ** Da série "Abortos", leia também: Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Abortos: Volta

Neuza esperou até o táxi virar a esquina e se arrastou para dentro de casa, com a solenidade que a vizinhança esperava dela. Assim que fechou a porta, correu ligar o rádio e dançou ao som de Juliano e Jandaia. Em 32 anos de casamento, era a primeira vez que tinha a casa toda só para ela, motivo mais do que suficiente para comemorar. Férias das faxinas diárias, dos almoços completos, das trocas semanais de lençol – homem sua demais! Deitou no sofá, ligou a TV, riu ao pensar que, às 18h45, ninguém reclamaria da geladeira mal abastecida. No segundo dia, repetiu à risca sua nova rotina. Com três décadas de cansaço acumulado, tinha todo o direito! Sem perceber, pegou a mania de vagar pelos cômodos da casa e começou a encarar a TV antes como um consolo do que uma opção. Apesar disso, tomava sua dose diária de tédio e falta de sentido. Mudanças arriscam pioras, e ela preferia o mal conhecido. Depois de 41 dias, quando Nestor voltou, ela se sentiu salva. Para não parecer dependente, soltou um ...

Sobre o casamento

Estudando para a dissertação, mais especificamente lendo "O jardim e a praça", livro interessantíssimo de Nelson Saldanha, deparei com estas duas citações: "Se eu me casasse agora, isto seria apenas uma asneira, que  me faria perder uma independência que conquistei a preço de meu sangue. [...] Antes viver miserável, doente e temido em algum canto do que arregimentado e situado dentro da mediocridade moderna." F. Nietzsche. "Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?" F. Pessoa. Agora percebo que, quando a gente está feliz a dois, não só perde a liberdade como a capacidade de pensar criticamente. Escolha difícil essa.