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Estudando filosofia, descobri-me pensando em política

Disse que não ia falar de política, mas a carne é fraca. Estava aqui relendo uns trechos de "Introdução ao pensamento filosófico" (2011), de Karl Jaspers, e encontrei algumas passagens que descrevem tão bem o nosso governo que quis compartilhar com vocês. (As citações estão em em azul para distinguir dos meus comentários, que vêm logo abaixo) "Os homens e suas ideias políticas podem ser avaliados, se conhecermos os nomes dos estadistas a que dedicam admiração." (p. 77) O que dizer de alguém que admira D. Trump e C. A. Ustra? E de seu Ministro da Economia, que trabalhou para Pinochet? "Subsistir pela violência exige a vilania e a mentira: a razão exige a franqueza e o respeito aos compromissos." (p. 77) Se o presidente abandonar a truculência e se abrir para o diálogo baseado na razão, ele vai ter que ser honesto e respeitar as Leis, o que poderia gerar alguns problemas com a Justiça para ele, sua família e muitos de seus aliados... "A verdad...

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Sobre a criação da arte

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Façamos uma analogia bem simples para compreender um processo complicado. A cachaça vem da cana. Sem cana não há cachaça, já que esta depende daquela para existir. Mas não se pode dizer que uma coisa seja igual à outra. Há um processo que transforma uma noutra. Os elementos básicos da cachaça já estavam na cana, mas a forma bruta é irrecuperável a partir do produto, isto é, a cachaça não pode voltar a ser cana. O que é esse processo que faz uma coisa ser outra sem se acrescentarem novos elementos? No caso da cachaça, chama-se fermentação e destilação. No caso da arte, criação. A realidade fornece experiências que chegam a nós pelos sentidos ou por relatos alheios. O artista trabalha esse caldo e o transforma em arte. Podem-se recuperar alguns traços da realidade na obra de arte, mas não totalmente, porque o caminho inverso é impossível de ser trilhado. Agora uma falha nesta analogia. A cachaça nos embriaga por algumas horas, depois vem a ressaca e tudo volta ao normal. A arte também...

O mundo paralelo dos cadernos de cultura

 A revolução digital ocorrida no último decênio, que popularizou o uso doméstico de computadores com acesso à internet, incrementou exponencialmente a produção e o consumo de informação. O efeito positivo disso é inegável: pessoas de todas as classes informam-se mais ativamente. Na medida em que os veículos tradicionais – rádio, televisão, jornal e revista – perdem o monopólio sobre a notícia, procuram adaptar-se à nova realidade. O caminho mais aconselhável à mídia impressa, segundo muitos especialistas, é desistir de competir com a rapidez da internet e se dedicar ao tratamento analítico dos fatos. Na prática, ao observar a evolução de um jornal como a Gazeta do Povo, deparamo-nos com a revalorização do furo e do trabalho de pesquisa. Não por acaso, em 2010, o diário paranaense ganhou um Prêmio Esso inédito pela série investigativa Diários Secretos. Enquanto isso, os cadernos de cultura – e aqui inclui-se o Caderno G, do referido jornal – permanecem alheios às mudanças, como aq...

A conjunção de cérebro e coração

No início do ano passado, inscrevi-me para um curso intensivo de italiano. Três semanas, quatro horas diárias, e teria meu diploma na língua. Eu havia acabado de chegar à cidade, quando fiquei sabendo que a turma fora cancelada. Era janeiro, as aulas já estavam pagas, eu terminara a faculdade há um mês, era mais uma desempregada na cidade grande. O que me restava fazer? Tomei a decisão mais estranha naquele momento: pedi para me transferirem para a turma de alemão. Embora eu tenha a pretensão de me tornar poliglota, alemão não estava entre minhas prioridades. Não tenho raízes germânicas, nem me identifico com a cultura. Da literatura daquele país, só conhecia o básico de Thomas Mann (“A montanha mágica”), Johann Goethe (“Werther” e “Fausto”) e Franz Kafka (“A metamorfose” e “O processo”). Ainda tentei ler algo de Günter Grass (“A ratazana”), mas não foi amor à primeira vista – não por culpa dele, eu que tenho algum problema com contemporâneos. De qualquer forma, segui com o cur...