O chiqueiro: esboço de uma nova teoria do afeto humano
Quatro ou cinco profissionais do Judiciário debatiam, numa tarde de domingo, questões da mais alta importância nacional, como o preço da soja, os novos modelos de colheitadeira, a ignorância do povo em geral. Explico aparentes incoerências. Primeiro, não estavam em seus escritórios e gabinetes como os cargos fazem supor, afinal, era dia de descanso; encontravam-se, isso sim, num leilão de gado promovido pela igreja matriz de Ângulo, embora nada impedisse que também conversassem sobre aqueles assuntos em seus locais de trabalho, como de fato faziam. Segundo, o número de participantes da conversa oscilava devido à natureza do evento, em que os lances disputavam a atenção desses fazendeiros de fim de semana, ávidos por aumentar seus rebanhos. Um pouco mais, um pouco menos grisalhos, eram cidadãos de bem: um juiz, dois advogados e um cartorário, além de um sujeito que ninguém sabia exatamente o que fazia, mas que tinha sido incorporado à roda por sua constância no fórum, onde aparecia d...