Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 23)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
23. Lúcia (2)
Lúcia nunca nos contou que ela e o irmão tinham sido criados pelos tios. Tampouco desconfiávamos, porque ela os chamava de pai e mãe, e havia a semelhança física. Quem deixou escapar foi a imã-coordenadora-pedagógica numa conversa de corredor. Gostaria de esclarecer que não me interesso tanto assim pela vida alheia, só comecei a prestar atenção quando ouvi o nome de minha amiga. Entenda, a vida foi muito dura com a Lúcia Koeda, órfã, coitadinha, justificava a religiosa. Outra revelação daquela bisbilhotice involuntária foi o incômodo de certo professor com o jeito da minha amiga. Reclamava com a pedagoga que, veja bem, era difícil explicar, a aluna fazia tudo o que ele pedia, mal abria a boca, só tirava notas máximas, mas ela tinha aquele olhar... Meio sinistro, vazio, como se ela desprezasse todas as pessoas.
Desde aquele dia, comecei a procurar o tal olhar na Lúcia. Conosco ela era gentil, enchia-nos de presentinhos fora de época, mas sempre sumia antes que lhe agradecêssemos. Apenas aceite, não foi nada, dizia. Sim, era esquiva, mas nunca pareceu desprezar ninguém. Pelo contrário, ela parecia invejar o que os outros tinham sem qualquer esforço, aquela alegria leve. Ela, que era excepcional em tudo o que fazia, não conseguia se alegrar com nada.
Concluí que o tal professor era razoavelmente bom de cálculos, mas nem um pouco de empatia. Risquei um “Gilmar cuzão” na porta do banheiro pra que toda a comunidade masculina do colégio ficasse ciente disso e, se possível, espalhasse logo para a metade feminina.
No "imã-coordenadora-pedagógica" é um erro de digitação (irmã) ou é uma metáfora? Se for metáfora, não entendi.
ResponderExcluirErro de digitação! Obrigada por avisar, vou arrumar aqui.
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