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Mostrando postagens de 2017

Comentários aleatórios sobre “Master of none” (poderia ser uma resenha se eu estivesse mais empenhada)

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Começo esclarecendo que não gosto de seguir séries. Já fiz muito isso no passado, mas não me sentia bem, pois sabia que, mais do que um hobby, era uma forma de evitar algum problema maior: eu só deitava no sofá e deixava o dia passar, entretida demais para ter pensamentos obsessivos. No fim das contas, ver séries não era muito diferente de me entregar a joguinhos de frutas, compras online, aplicativos de encontro... todos meios de dar asas à ansiedade e à compulsão, ainda que disfarçados de atividades felizes e produtivas. Apesar dessa objeção, admito que há algumas poucas séries que ultrapassam a barreira do entretenimento compulsivo e conseguem ter um efeito mais duradouro sobre mim, flertando fortemente com o cinema de qualidade. Fazem isso não no atacado – como “Friends”, em que aqueles personagens se tornam tão presentes na nossa vida que a gente desenvolve uma bizarra familiaridade com eles –, mas no varejo, com episódios tão bem executados que a gente precisa de uns minutin...

Sobre não fazer sexo

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Outro dia, esperando meu ônibus, pratiquei o hobby favorito dos aspirantes a escritor – ouvir a conversa alheia. Uma mulher de 58 anos falava com a cobradora, que devia ter uns quarenta e poucos, sobre as sem-vergonhices que os homens vinham lhe propondo nos aplicativos de encontro. Casada por 30 anos, a primeira se orgulhava de nunca ter precisado fazer “aquelas coisas nojentas”, “pôr o negócio na boca”, “ali atrás” e assim vai (ela fazia uns sons de vômito ao mencionar isso, era meio triste, meio engraçado), e estava chocada por ter descoberto que hoje em dia a mulherada logo fazia tudo isso com qualquer um. A senhora concluiu seu raciocínio dizendo que era por esse motivo que os homens não as respeitavam, enquanto ela, que estava casta há três anos, desde a morte do marido, era desejada por vários, por ser “diferente” das outras. Era noite de domingo, estávamos só nós três dentro da estação-tubo – nota contextual: em Curitiba, o cobrador fica dentro do ponto quando este é fecha...

Do amor ao próximo

Vós vos amontoais junto ao próximo e tendes belas palavras para isso. Mas eu vos digo: vosso amor ao próximo é vosso mau amor por vós mesmos. Fugis de vós mesmos em direção ao próximo, e desejaríeis fazer disso uma virtude: mas eu enxergo através de vosso “desinteresse”. O Tu é mais antigo que o Eu; o Tu foi santificado, mas o Eu ainda não: assim, o homem se apressa para junto do próximo. Eu vos aconselho o amor ao próximo? Aconselho-vos antes a fuga ao próximo e o amor ao distante! Mais alto que o amor ao próximo está o amor ao distante e futuro; ainda mais alto que o amor aos homens está o amor a coisas e fantasmas. Esse fantasma que corre à tua frente, meu irmão, é mais belo do que tu; por que não lhe dás tua carne e teus ossos? Mas tens medo e corres para teu próximo. Não suportais a vós mesmos e não vos amais o bastante: por isso quereis induzir o próximo a vos amar, dourando-vos com seu erro. Eu quisera que não suportásseis qualquer tipo de próximo e seus vizinhos; ...

Coleção de vídeos para vivenciar e entender a deprê

Meus amigos já estão cansados de receber sugestões desta página, The School of Life , mas deixo aqui uma pequena coletânea que pode ser útil para quem estiver passando por um momento de crise parecido com o que estive/estou passando. A verdade é que eu me abri muito nos posts passados justamente imaginando essa pessoa que poderia estar precisando de ajuda, como eu também estava, mas sei lá... acho que está sendo um esforço inútil, só exposição gratuita, uma vontade grande de me fazer útil para alguém ou uma esperança muito tola de alguém sentir pena de mim e me acolher. Não quero mais fazer isso, quero voltar à programação normal, só publicar textos opinativos sobre temas interessantes, exercitar um pouco minha má literatura, essas coisas... Então, ficam abaixo os vídeos para acompanhar aquele que nunca cheguei a abandonar, porque a pessoa nunca nem soube da minha existência e sequer quis ser ajudada por mim. Sobre sentir-se deprimido:  https://www.youtube.com/watch?v=UoLWYhwROBI...

Medeia

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"Medeia", de Evely de Morgan (1855-1919) Você começou a me chamar de Medeia, eu passei a chamá-lo de Jasão. Você queria que eu fosse Medeia, eu sei que você é Jasão. Você diz que não é Jasão, eu ameaço ser Medeia. Eu admiro Medeia, você teme ser Jasão. Eu afasto de mim Medeia, você é cada vez mais Jasão. Eu não matei os filhos de Jasão, você morrerá assombrado por Medeia. *** Recomendo a leitura de "Medeia", de Eurípedes, uma peça incrível sobre uma mulher forte que sabe ferir, com as mãos e as palavras, aqueles que lhe foram desleais. Gosto também desta representação pictórica de Medeia, um pouco menos etérea, mais perturbada: "Medeia", de Anthony Frederick Augustus Sandys (1829-1904)

Quarentena

No 40º dia, comecei a ver com clareza quem eu era, onde eu estava, para onde eu ia. E sorri com serenidade. Muita compaixão por mim e por aqueles que cruzaram comigo, afinal, o caminho não era o meu, era o nosso -- eu só não havia visto o tanto de gente que rastejava, saltitava, corria, voava ao meu lado, pois eu era um espectro faminto, só enxergava o que parecia alimento para saciar o meu vazio. Entendi o valor dos 40 dias... anos... demônios... ministros... A tentação, a queda, a morte que precedem a luta, a ascensão, a vida. Se estou viva foi porque morri. Parei de lamentar a decadência do meu império. Era lindo, sim, muito imponente e me custou tanto trabalho, mas em algum momento ele já não era mais coisa alguma, senão uma lembrança. Então eu própria meti fogo em tudo e me permiti chorar enquanto ruía, depois enxuguei o rosto com as cinzas até eu mesma virar cinza. Pó, terra, matéria disforme. Nada, possibilidade, sonho. Venci o deserto quan...

Diário da crise existencial (os falsos aliados)

Só Deus sabe o quanto nesta vida resisti à tentação de dar indiretas nas redes sociais, mas esta mensagem será bem direta. Digo-a em prol da minha sanidade mental, não por algum tipo de vingança. Uma breve contextualização. Quando a gente está passando por uma longa fase depressiva, lutando para reconstruir uma existência neste mundo, tende a buscar ajuda em vários lugares, até obsessivamente, porque a gente não consegue ficar sozinha com os próprios pensamentos -- eles são tão terríveis que precisamos nos distrair de nós mesmos. O problema é que, na hora do desespero, podemos recorrer a pessoas que não querem o nosso bem, são os falsos aliados. Essas pessoas tentam tirar alguma vantagem da nossa vulnerabilidade e, após conseguirem ou porque não conseguiram e começa a ser muito trabalhoso insistir, desaparecem, fazendo a gente se sentir ainda mais abandonada do que já estava inicialmente. Felizmente, estou vacinada contra esse tipo de pessoa e, quando isso acontece, eu tento me des...

Diário da crise existencial (a recaída)

Quando escrevi o post passado, lembro de estar me sentindo otimista, ainda bastante fraca, mas esperançosa de que a melhora não tardaria. Hoje venho para registrar que estou de volta à fase um, total desânimo. Como assim, né? Tinha voltado a me dedicar aos estudos, estava saindo com os amigos, empenhada numa busca mais espiritual... para onde foi tudo isso? Não sei e, no momento, não encontro forças para tentar explicar. Só me sinto um corpo sem vida, deixado de lado, sem ninguém a quem recorrer. Acho que é assim que funciona, não há um progresso linear, a gente fica sempre em torno das mesmas situações até conseguir superá-las de verdade. Felizmente tenho terapia amanhã de manhã, só preciso me aguentar até lá...

Diário da crise existencial (3493874957º episódio)

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Estou passando para registrar o estado atual desta crise. Eu me permiti escrever posts mais pessoais como parte de um exercício de aceitação da minha vulnerabilidade, que basicamente consiste em mostrar aos outros meu rosto sem máscaras e ter que lidar com a resposta deles sem desabar. Além disso, acho que estes textos íntimos podem ajudar àqueles que estão no estágio inicial da desilusão (ou da iluminação), isto é, desespero e desejo de morte. Quando eu mesma estive lá, e foram as duas semanas mais longas da minha vida, gastava minhas noites de insônia, porque nem o alívio do sono a gente tem, procurando uma palavra que me resgatasse. Talvez estas sejam as palavras que resgatem alguém. Não são salvadoras, mas servem de companhia até que essa pessoa se sinta forte o suficiente para caminhar com as próprias pernas, porque – respondendo à pergunta do post passado – parece que o caminho para se viver bem é, sim, prioritariamente solitário. Mas esta verdade não ajuda na primeira fase. Ne...

Uma questão de método

Depois de inúmeras crises existenciais nos últimos meses, cheguei a um dilema que, acredito, é a base de todos os outros. Alguém tem um palpite de como resolvê-lo a fim de levar uma vida menos sofrida e mais significativa? Segue. O melhor método para se viver é: a) assumir nossa fragilidade e excessiva dependência do afeto alheio, estabelecendo o maior número de conexões com as pessoas para se cercar de uma rede de proteção emocional, ou b) cortar de vez todos esses vínculos, viver radicalmente a solidão para se fortalecer fora da ilusão de que haja uma possibilidade de salvação individual? (Como os últimos, imagino que os próximos posts devem seguir nesta linha, estão avisados.)

Como encontrar um bom companheiro

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“Melhores sites de encontro”, “Como conhecer homens”, “Sites de encontro para pessoas inteligentes”, “Experiências afetivas autênticas”. Acabo de confirmar que o Google não tem resposta para tudo, ao menos não conseguiu responder a essas pesquisas satisfatoriamente, por isso escrevo este texto. Quando vocês fizerem as tais buscas e também se frustrarem com os resultados, me encontrarão aqui, igualmente frustrada, então poderemos sentar e conversar sobre aquilo que nos chateia ou só ficarmos em silêncio, nos sentindo menos pressionados ao perceber que esse não é um problema exclusivo nosso. Talvez esta seja até uma das grandes questões do nosso tempo. Podem estranhar: encontrar namorado é a grande questão da atualidade? Não diretamente, mas tem relação, sim, já explico. Não é segredo para ninguém que as redes sociais atingiram seu sucesso com base na solidão e nas inseguranças de seus usuários. Basicamente todos se sentem mal com relação à própria vida em algum momento (ou quase se...

Crise existencial acadêmica

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Alguém se reconhecerá no desabafo abaixo? Pensei em dividir estas angústias para lhes dizer: não estamos sozinhos em acharmos que estamos sozinhos. Porém, mesmo não estando sozinhos no sofrimento, a sensação de solidão ainda é imensa, então não acaba sendo verdade que estamos mesmo sozinhos? Bem-vindos ao clube da eterna crise da pós-graduação! E olhe que nem comecei o doutorado ainda... Diálogo mental com meu escritor favorito (preencha aqui o nome de sua preferência): Você que chegou lá, que eu tanto admiro por publicar livros de verdade, me diz como se faz para atingir um ponto em que você se sente seguro de que sabe muitas coisas ou pelo menos sabe muito bem poucas coisas? Quanto mais eu leio e penso, mais evidente fica minha ignorância sobre tudo. Isso na boca de um Sócrates, cujo valor intelectual está bem provado, parecem palavras de sabedoria, mas num contexto de modernidade, em que você é um novato precisando provar para pessoas capacitadas a sua capacidade quando voc...

Minha súdita

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Outro dia assisti ao filme “Meu rei” por indicação de um amigo. Perguntei de que se tratava, ele disse que era um drama francês sobre relacionamentos. Com essas indicações vagas, comecei a vê-lo. As primeiras cenas mostram uma mulher fazendo tratamento para recuperar o joelho (são cenas fortes, demos graças a Deus pelos ligamentos sãos que evitam nosso joelho de dobrar para frente...) e essa mesma personagem cerca de dez anos antes, quando ainda não era mãe. Seu nome é Toni, ela é advogada, parece divertida e segura de si. Na fase da juventude, ela conhece Georgio, formando aquele casal autêntico, cujos encontros iniciais são meio doidos e que a gente acompanha com um sorriso no rosto. Assim segue a narrativa, intercalando o presente (tratamento ortopédico) e o passado, que vai avançando ao encontro do momento atual. O espectador rapidamente entende que essa é a história de como aquele relacionamento começou e se deteriorou. Não posso reclamar de propaganda enganosa, de fato, tr...

Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Discurso de premiação do Concurso de Contos Dirce Doroti Merlin Clève 2017

Nota preliminar: Meu conto "O chiqueiro" foi classificado em quarto lugar no Concurso de Contos Dirce Doroti Merlin Cléve deste ano.  Eu descobri que não teria direito a publicação quando anunciaram  o resultado e que eu apenas receberia um certificado na cerimônia Mulheres Paranaenses , tirariam uma foto minha (aqui:  http://www.unibrasil.com.br/noticias/detalhes.asp?id_noticia=14523 ) e era só isso. Então comecei a imaginar como seria bom se eu pudesse me fazer ouvida naquele evento por cinco minutos que fossem. A partir desse cenário hipotético, escrevi o discurso que se segue, imprimi-o e levei-o na bolsa. Claro que não tive direito à palavra, por isso posto o texto abaixo para conhecimento amplo. Para não dizerem que eu sou muito intransigente com os organizadores do evento da Unibrasil, devo confessar minha emoção ao ver uma mesa de homenageadas composta apenas de mulheres ilustres em suas áreas de atuação. Gostaria que aquela não fosse uma exceção devida às co...

O chiqueiro: esboço de uma nova teoria do afeto humano

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Quatro ou cinco profissionais do Judiciário debatiam, numa tarde de domingo, questões da mais alta importância nacional, como o preço da soja, os novos modelos de colheitadeira, a ignorância do povo em geral. Explico aparentes incoerências. Primeiro, não estavam em seus escritórios e gabinetes como os cargos fazem supor, afinal, era dia de descanso; encontravam-se, isso sim, num leilão de gado promovido pela igreja matriz de Ângulo, embora nada impedisse que também conversassem sobre aqueles assuntos em seus locais de trabalho, como de fato faziam. Segundo, o número de participantes da conversa oscilava devido à natureza do evento, em que os lances disputavam a atenção desses fazendeiros de fim de semana, ávidos por aumentar seus rebanhos. Um pouco mais, um pouco menos grisalhos, eram cidadãos de bem: um juiz, dois advogados e um cartorário, além de um sujeito que ninguém sabia exatamente o que fazia, mas que tinha sido incorporado à roda por sua constância no fórum, onde aparecia d...