Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 15)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.

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15. Desirée (3)


Diário de viagem
Paris, 23 de janeiro de 201X.

Li em algum lugar, acho que foi na revista da Tantã, que o número de turistas em Paris é superior ao de habitantes. E cá estou eu reforçando essas estatísticas. O que torna Paris o destino predileto de nove em cada dez viajantes? Bela cama, bela mesa e nenhum julgamento se você pular o belo banho. O humor local deixa a desejar, admito, mas as possibilidades de romance são infinitas. Apaixonar-se em Paris, que sonho de consumo! Os pombinhos enamorados são tão imprudentes no uso do cartão de crédito... Portanto, amemos! Em nome do superávit, amemos! Os cenários amorosos são reconhecíveis dos inúmeros filmes e livros românticos devorados, tudo tão planejado e funcional. Até o encanto daquela chuva que desce do nada às 17 horas seguida por um céu pink-Monet já estava discriminado num pequeno roteiro turístico que distribuem de graça na Gâre du Nord.

Apesar de confirmar de cara todos esses clichês, mantive a esperança de conseguir encontrar algo de genuíno e íntimo na cidade mais turística do mundo. Afinal, foi esta mesma terra, estes mesmos prédios e esta mesma gente que atraiu várias gerações de gênios. Supus que aqui também eu poderia encontrar minha musa ou, no mínimo, uma parca disfarçada de mendiga que me revelasse o rumo da vida. Eu bem que puxei conversa com atendentes e clientes em cafés, também tentei nos pontos de ônibus com velhinhos portadores daqueles chapéus outrora elegantes e hoje puídos, mas todos só me respondiam com fria polidez. Realmente, eles parecem odiar quando lhes falamos em inglês, outro clichê comprovado.

No fim do dia, toda essa perambulação me despertou uma espécie de melancolia, mas, sem talento para transformar isso num soneto, fiquei só na sensação sem forma. Dor sem nome não pode ser remediada, então deixo doer.

De volta ao hostel, a companhia de jovens do mundo inteiro, russos, canadenses, peruanos, argelinos, chineses, ameaçou acabar com minha solidão. Que nada. Logo a multidão se fundiu numa coisa só. Além do inglês que todos falávamos, também havia os assuntos que todos dominávamos. Éramos um único povo, a grande nação da juventude autocentrada. Percebi que esses jovens aventureiros eram todos filhotes da elite que experimentavam uma pequena dose de liberdade antes de voltar pra casa e assumir os postos ilustres que os pais tinham preparado para eles.

E eu era tão diferente disso? Também tinha completado um curso universitário, bacharela em História (bati o pé pela flexão feminina no meu diploma), e um dia provavelmente me tornaria uma profissionala liberala (um pouco de humor autodepreciativo pra entrar no clima local), desfrutando de um conforto de classe média. Ao assumir minha cota de hipocrisia, abandonei também la Résistance contra minha verve burguesa e resolvi que no dia seguinte faria um passeio digno de folder de agência turística: Notre Dame, Louvre, Champs Elysés, Arc de Triomphe, Torre Eiffel, o pacote completo.

Foi lindo, não posso negar, mas por que nada disso me tocou? Eu atravessava as pessoas, os lugares, as histórias, para sair do outro lado igual tinha entrado. Só os euros ficaram para trás, sendo rapidamente papados – uma trilha mais apetitosa aos piafs do que a de pão. Nada me segurava. E quem diria que essa frase tinha um potencial tão triste? Foi exatamente o que me disse papi, meio bebinho, na sua festa de 50 anos. (Nesta família, se não houver álcool, não se sabe nada sobre os sentimentos de seus integrantes.)

Vim até Paris pra me sentir péssima, admiti durante uma volta solitária na Grand Roue. Com aquele frio invernal, nenhum outro turista tinha se atrevido a entrar nas gaiolinhas de vidro. A roda gigante funcionava só comigo dentro. O operador sequer me perguntou “você tem certeza?”, apenas pegou o billet, travou a barra de segurança e entrou na cabine de comando. Depois da terceira volta, já entediada com o show de luzes da torre Eiffel, cogitei que o funcionário tivesse se esquecido de mim, vestido seu beret e sumido na noite.

Eu vivo num mundo-fantasma. Até minha Paris é fantasma.

Malditos livros, malditos filmes! Por que Paris? Talvez eu ache minha casa no extremo Oriente ou na África ou mesmo no Brasil, numa tribo intocada pelo tempo que vai me reconhecer como uma ancestral desagarrada que enfim retorna. Pinturas, danças, festas, oferendas. Despojamento povoado, pulsante. Provarei poções poderosas, lutarei guerras, matarei e morrerei mais de uma vez, casarei com dezenas, parirei centenas, amarei um só a vida toda. É preciso me preparar para fazer tudo isso e, talvez, descobrir que o meu eu também nunca esteve lá.

As ruas de Paris me parecem atraentes apenas quando tiram sua máscara chic e se permitem ser honestas, amargas, odiosas. Isso ocorre tarde da noite, depois que todos os turistas se entocaram em restaurantes, hotéis e bordéis. Aí a gente descobre que não sou só eu, que a própria cidade vive sua cota de solidão, e não aquela que a gente busca quando está cheio do mundo e precisa pensar. Não, não é questão de escolha. É aquela solidão que chega sem avisar, na ponta dos pés, tranca a porta, engole a chave, ajeita o nó da corda e, comodamente instalada num canapé, assiste ao nosso pavor diante do não-anunciado. Nas ruas de Paris à noite, bate um vento frio direto na nuca, eu apenas levanto a gola do casaco e torço para que algo terrível aconteça logo.

Comentários

  1. O final desse capítulo leva direto ao final do anterior. Legal. E é interessante uma Desirée tão em crise, com os desejos tão bloqueados. Agora, qual foi a coisa do bacharela? Dilmices?

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    1. Sim, bacharela remete ao governo Dilma, coisas q aconteciam de 2011-2016, período em q se passa a história. E tb é um índice da inclinação ideológica da Desirée.

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  2. Vou ser sincero, não tô gostando muito da Desiree não. Vamos ver como é que ela vai mais em frente (ou não).

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    1. Que pena. Eu particularmente gosto bastante dela... Mas ela não deve ter mais nenhuma grande participação, então fique tranquilo. Hehe.

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