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Sim

Estava pensando em um cenário hipotético no qual eu, uma mulher jovem, solteira e com uma independência financeira muito recente e frágil, para não dizer questionável, ficasse grávida. A pressão mais explícita viria da família, representante desta classe-média conservadora (progressivo na concepção deles é, no máximo, ter amigo preto ou gay). Eu não te reconheço mais! Você fez sexo fora do casamento! Agiu como uma qualquer! Envergonhou seus pais! Deus te castigou! Haveria também a pressão dos colegas da minha geração, essa mais velada. Como você pode ter feito sexo sem proteção? E se tivesse pego uma doença? Essa criança vai arruinar sua carreira e sua vida sexual! Seu corpo e sua disposição nunca mais serão os mesmos! Seja pelo discurso dos velhos moralistas, seja pelo dos liberais hedonistas-cientificistas, percebo que estamos todos cegos. Como interpretar essa gravidez “fora de hora” (sem carteira assinada, sem plano de saúde, sem registro de casamento... enfim, sem “condições...

Abortos: Aparição

Tristão, cansado de ser um sacana fodido eternamente de ressaca, rendeu-se à sociedade. Parou de faltar nas aulas, aderiu aos banhos diários, arrumou um estágio. Para o pacote ficar completo, só lhe faltava uma namorada de boa família. Mas isso já estava encaminhado: há tempos observava Lílian, tão rosada que parecia feita de uma substância impermeável à sujeira. Ela gostou do jeitinho vagabundo dele por baixo da crosta de bom moço, entenderam-se. Ao cabo daquela primeira semana de romance, ele confessaria aos colegas de bar que estava perdido, condenado a agir certo. Resistiu aos maus instintos o quanto pode, mas, um mês depois, quando a moça lhe disse “eu te amo”, ele surtou. Sumiu por seis dias, voltou todo estropiado, nunca mais procurou Lily, que agora estava mais pra amarela do que pra rosa. E haja tática de guerrilha para evitá-la, pois essa daí agora passava quatro horas todo dia, divididas rigorosamente em dois turnos, sentada na porta do prédio dele. Eles até se toparam algum...

Na Bocasa

Como se diz boca em alemão? Acho que é Mund, só não tenho certeza do artigo, eu chutaria der. Isso! Der Mund, so... Ich möchte alle am Mund küssen. Engraçado, eu tava pensando agorinha mesmo nisso: dieser Platz ist ein Mund. Ein Rauchermund, para ser mais precisa. Was sagst du? Rauchermund, boca de fumo em alemão. Não, o que eu falei antes foi am Mund küssen. Aaah, você quis dizer boca-boca. Rolam por aí umas histórias de que eu falo alemão quando estou bêbada. Não sei, sempre que esse fenômeno acontece, eu estou bêbada demais para prestar atenção. Mas, naquela noite, pude observar a estranha magia suceder com minhas amigas, e, sim!: bêbados têm o dom de se expressar em alemão!, mas comigo nada. O máximo que consegui foi uma dúvida pelo resto da noite sobre o maldito gênero. Nada para se estranhar – eu tava sóbria. Aliás, eu era a única pessoa sóbria naquela boca de fumo. Boca desastrida, ai, se alguém ouve! É falta de consideração chamar a casa de alguém de boca de fumo, não é? Ti...

A kiss is just a kiss...

Imagem
Sabe quando você possui um objeto muito legal, mas, pela falta de uso, esqueceu-se dele? Hoje me ocorreu o feliz insight de que eu tenho um DVD de Casablanca que não via há uma era – culpa das minhas amigas (vou citar nomes: Ana, Bia, Marô, Boba, Paty e Maria Vitória), porque, quando a gente marcou de assistir, ficamos tipo umas cinco horas conversando e não sobrou tempo para o filme. Revi-o mal lembrando os detalhes, gostando ainda mais do que da primeira vez. Há um outro filme do qual já tratei neste blog, When Harry met Sally, em que os personagens discutem sobre Casablanca. Num primeiro momento, aos 22 anos, Sally defende que Ilsa (Ingrid Bergman) fez bem em embarcar com Lazlo, herói na resistência contra o nazismo, já que não haveria futuro com Rick, bêbado e persona non grata na América. Dez anos depois, a personagem de Meg Ryan se indigna: “Não, eu nunca diria isso! Ela tinha que ficar com o Humphrey Bogart” (a fala não é exatamente esta, mas o sentido sim). Assim como S...

Procissão de fé

Quando a missa começou, lamentei muito não poder fazer anotações. Ideias fervilhavam. Fato inédito nessas últimas semanas, que têm sido de completa masturbação mental (séries + redes sociais). Para quem estranhou o fato de eu estar voluntariamente assistindo à missa, a explicação é bem simples. No ano passado, quando eu estava desesperada diante da quase certeza de que não seria aprovada no mestrado de Literatura na UF**, prometi que iria na missa todos as semanas de 2011 se me fosse concedida essa graça. Não sei a percentagem da participação divina na conquista, mas, considerando que eu não sou formada em Letras, que passei boa parte do ano doente e que estudei menos do que deveria, acredito que tenha sido grande. Agora estou quitando minha dívida – melhor pagar a Deus do que ao dono da PUC! Só faz três domingos que tenho ido à igreja, mas sabe que estou achando essa uma experiência edificante? Não no sentido mais comum, o de me sentir tocada pelo Espírito Santo. Mas tenho apren...

Mea culpa

Há cerca de um mês, li um artigo na Mais! que me chamou bastante a atenção. Chamava-se “Sonhos do avesso” e fora escrito pela psicanalista Maria Rita Kehl. A maior qualidade do texto, na minha opinião, é mostrar algo tão óbvio, mas que eu nunca havia lido nas páginas de um jornal. No começo, a autora dá uma boa enrolada, por isso (e também porque não tenho saco para digitar tanto) vou transcrever apenas a partir de quando ela entra no assunto central, a crise do sujeito. "Se Freud fundou a psicanálise ao vislumbrar, no horizonte de sua época, as razões da insatisfação histérica, é nossa vez de tentar escutar o que mudou desde então, à medida que a norma produtiva/repressiva foi sendo substituída pela norma do gozo e do consumo. "Alguns sintomas, na atualidade, têm se tornado mais frequentes e mais incômodos do que as formas consagradas das neuroses e das psicoses no século passado. Hoje as drogadições, os transtornos alimentares, os quadros delinquenciais e as depressões ...