Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 18)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
18. Natália (3)
— Você ficou sabendo que o Vítor vai casar? Ninguém mandou engravidar a namorada! Minha mãe disse que não quer saber de criar neto, que é pra ele arrumar um emprego e se virar. Meu pai nem falou nada. Depois do caso da Paty Pistoleira, ele fica bem quieto, senão também vai ter que ouvir a mesma coisa: que é para ele arrumar um emprego e se virar pra pagar a pensão. Até o Luís tá firme no namoro. Fiquei oficialmente pra titia. Não estou reclamando, nada disso. Ganho bem no banco, trabalho só seis horas por dia. Quando chego em casa tenho uma TV enorme me esperando com todas as séries que eu gosto, um vinhozinho argentino. Pra que vou querer homem? Outro dia, sabe quem me mandou um e-mail depois de mil anos? O Manuelzão. Sim, o próprio. Disse que começou a trabalhar numa locadora e que vai sair da casa dos pais em breve. Locadora dessas de DVD, negócio muito promissor, hein! Você bota fé? Ele disse que tem saudades de conversar comigo. Eu deveria ter respondido que ele tem saudades é de ter idade de adolescente em vez de só agir como um. Nem respondi. Homem só serve pra perturbar a vida da gente. Menos você, né, Joel, não se ofenda. Claro que pode ligar sempre que quiser. Agora eu que vou bancar a boba carente: que saudades que eu tenho do nosso tempo de colégio! Você ainda tem escrito contos? Eu sempre soube que seria você o nosso amigo escritor famoso. Eu nada, não consegui nem terminar o Nuno Titóvski, você lembra daquele meu romance-folhetim online? Acho que está no ar ainda, olha lá qualquer hora pra rir de como a gente era ingênua. Quem sabe, talvez, quando eu me aposentar, daqui a 32 anos – sim, já estou na contagem regressiva! – retomo aquilo lá. Claro, eu entendo, sem problema. Liga mais vezes, tá? Não sei se foi o vinho ou o luar, mas essa conversa me deixou besta feito o Manuelzão.
Gostei das referências ao Manuelzão e aos versos do Drummond na última frase do texto.
ResponderExcluirEu achei legal a personagem Desirée também, mas gostei da forma como você amarrou ela ao Joel no final agora. E é interessante também a forma como essa mulher independente, que já aparece no capítulo anterior, e que se coloca como independente de homem presa numa vida bem burguesa. A liberdade burguesa de poder assistir sua televisão. Gostei :)
Fico feliz que alguém esteja encontrando prazer no texto.
Excluir"A liberdade burguesa de poder assistir sua televisão."
Minha especialidade, de fato, é apontar o ridículo da classe média. Na próxima personagem, vc vai ver como nado mal fora dessa lagoinha burguesa. Cenas do próximo capítulo...