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Abortos: Primeiro amor

Para G. Quem disse que amor de criança é leviano? Só muda a proporção. Se em uma semana a meninada pode trocar de número de sapato, imagine o significado de um bimestre! Dá até para completar álbum de figurinhas, ou seja, é uma vida inteira. Desde que começou a gostar de Anabel, Matheus agia da forma mais sensata: sendo um canalha. Na queimada, jogava a bola com força na cabeça da garota, isso quando não a xingava de nomes feios que ele nem sabia o que significavam. As provocações duraram nove semanas, até a véspera das férias, quando o menino encontrou uma carta cor de rosa em sua mochila. Mal terminou de ler, saiu pelo pátio gritando: “Ela me ama! Ela me ama!”. Então vieram as férias, e eles perderam o contato, pois isso foi naqueles tempos em que telefone e computador não eram brinquedos de criança. Reencontram-se só no ano seguinte, início da quinta série, mas não tinham nada para dizer um ao outro. E assim aprenderam que o melhor era gostar em silêncio, para o sentimento não ...

Mc Donald’s faz parceria com bruxa da Branca de Neve

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Do início. Depois de ouvir boatos de que o Pikachu havia se esgotado em alguns Mc Donald’s, corri para buscar o meu. Aliás, ele é lindo. Só seria melhor se fosse em tamanho real, de pelúcia, falasse “Pikachu!” e eletrecultasse pessoas a um comando meu. Mas o amo do mesmo modo. Batizei-o Pikassu. Os puritanos talvez se escandalizem por eu mexer no nome original, mas confesso que não sou das fãs mais exemplares. Só vi a primeira temporada e talvez a segunda, não lembro, na Record (no programa da Eliana, para ser mais específica) e já me sentia velha demais, aos 12 anos. Fazia-o escondida, não comentava com ninguém na escola, embora desconfie de que muitos de meus colegas tinham o mesmo segredo. A puberdade é uma fase difícil, você tem que provar que não é mais criança, principalmente porque ainda é. Como não? Continua fazendo as mesmas coisas dos últimos anos – bater em meninos, desenhar nos cadernos, correr e pular por qualquer pretexto –, com a única diferença de usar sutiã e, ocasi...

O que vou dizer... [I]

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... quando meus filhos ou sobrinhos (o que é mais provável) perguntarem por que faz mal comer doce se é tão gostoso. Versões: a) teológica: os prazeres da carne são tentações para nos desviar do bem maior, Deus. Eles são efêmeros e, quando acabam, nos levam ao sofrimento. O alimento que o estômago pede nos satisfaz por pouco tempo, logo precisamos de mais; já o alimento do espírito, que é a palavra de Deus, nos sacia pela eternidade afora. Se você vive apenas para o corpo, o espírito passará fome e, enfraquecido, não o impedirá de pecar. É preciso atender às necessidades os dois, mas colocar o espírito, substância mais pura que a matéria corpórea, como mandante de nossa vida. Agora larga esse pacote de Negresco (como isso entrou em casa, para início de conversa?) e se troca para a gente ir à missa. b) nutricional/estética: a textura da gordura e do açúcar derretendo na boca provoca o prazer. Agora, se você acha que vale a pena ficar gordo, diabético e com veias entupidas par...

Brincar de Barbie depois dos 20 anos (ou como ser tia)

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Para Bia e Liv Hoje é um dia muito especial. À noite o príncipe vai escolher a princesa mais bela e virtuosa e vai se casar com ela. Não, o casamento será só depois. Hoje é o baile, dia da escolha. Todas estarão usando seus melhores vestidos, sapatos riquíssimos, joias, sedas, perfumes, tudo muito especial. Clarissa é princesa. Sua amiga Daisy também, mas daquele tipo egoísta, com vocação para bruxa. Só foi convidada porque o pai dela é primeiro ministro, muito estimado pelo rei. Clarissa é de uma origem nobre mas poucos se lembram disso. A riqueza da família se perdera em batalhas no oriente; a honra, por sua vez, só crescia. Pobre e boa. Bonita também. O pai exerce um cargo menor na complicada burocracia real. Alcoólatra, triste, talvez digno quando a oportunidade se lhe apresentar. Daisy emprestou à outra seu pior vestido, há muito cotado para a lixeira, um modelito que já não se usava mais, meio infantil, cor-de-rosinha. Piedade? Não, tudo cálculo. Mantendo a mendiga por p...

Capitães de areia

Nessa semana fiz uma descoberta. Percebi que há um bando de garotos (de rua? Não posso afirmar, não sei se têm casa para onde voltar no fim do dia) no meu bairro. Justamente o meu bairro, que eu julgava um reduto de segurança e moralidade na grande Curitiba. Explico o ‘moralidade’: os habitantes daqui em sua maioria são velhos cujo ápice da existência é a missa de domingo. A maior parte de classe média ou alta, portanto, totalmente alérgica à miséria e a outras realidades duras. Critico, mas talvez eu já tenha adquirido essa mentalidade que atribuo à terceira idade local... Bem, voltando ao assunto. O fato é que todo dia tenho visto em bando esses garotos. O veterano do grupo não deve ter mais do que doze anos. São entre 5 e 10 moleques, andam por aí sujinhos, maltrapilhos, mas às vezes de bicicletas – prefiro não pensar como as conseguiram. Por onde passam fazem um barulho danado e vão pedindo esmolas aos transeuntes. Da primeira vez que os vi, fiquei preocupada. Pensei que me acu...

Domingo no parque

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Não, foi domingo em casa mesmo. Cozinhando, limpando e lavando. Mas, sei lá por que, me lembrei da música do Gilberto Gil. É de conteúdo simples, mas tem uma forma bem interessante. Quem não conhece, veja lá. E também fiz uma analogia mental ao fato de hoje ser domingo e ao papel de parede que estou usando no PC (essa ilustração acima), que parece acontecer num parque. Se estiverem aí à toa, abram mão de alguns minutos para observar essa cena. Para começar, ela me lembra outra música do repertório popular brasileiro: Todo domingo Havia banda No coreto do jardim E já de longe A gente ouvia A tuba do Serafim Porém um dia Entrou um gato Na tuba do Serafim E o resultado Dessa "melódia" Foi que a tuba Tocou assim: Pum, pum, pum - miau Pum, pururum, pum, pum - miau Pum, pum, pum - miau Pum, pururum, pum, pum – miau Conhecem? Essa é da época em que eu cantava no coral da escola (no remoto ano de 1997, acho). Logicamente, me veio à mente por causa dos gatinho...

Por que nos estupraste, Brasil?

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Não tinha a intenção de fazer tantas atualizações em um intervalo de tempo tão curto. Mas não posso deixar de divulgar o artigo que acabo de ler. É... É... enojante! Me sinto tão vil de viver de forma confortável enquanto outras pessoas (e não são poucas) passam por essa merda. A menina paraense que virou notícia Por Ligia Martins de Almeida em 27/11/2007 A prisão de uma menina de 15 anos em uma cela com 30 homens – e a violência continuada que sofreu durante o período – indignou a mídia na semana que passou, a ponto de merecer um editorial do Estado de S.Paulo sob o título de "Vergonha nacional": "No capítulo das grandes vergonhas nacionais, merece destaque o fato, especialmente sórdido, de vileza desmedida, que é a colocação de mulheres em celas com muitos homens, para que sejam exploradas e brutalizadas sexualmente... E o mais acachapante é que a governadora do Pará suspeita de que a prática é comum – não apenas em seu Estado, mas em outros locais do terr...

Por que me estupraste, Dalton?

Apresento logo abaixo um dos meus únicos poemas da fase adulta (nota: adulta de idade e não de qualidade de escrita). Como o título do post bem indica, cada vez mais esta cidade me arranca à força a ingenuidade. ** Ponto de ônibus Frio nos braços quentes e moles e engordurados (suor produzido no ponto máximo do calor e agora seco fedor velho). Abraço bem forte a bolsa Não a cobicem, é tudo o que tenho! Ô ônibus que nunca vem! Quero logo chegar em casa tomar banho comer dormir fazer qualquer coisa até fazer nada desde que não seja aqui! — Ô, piá! Qualé? As mãos pequeninas no auge dos oito anos empurram o peito gigante do garoto de doze uma rodinha de minimendigos em volta É sinal de briga? tiro? bala perdida? Por que mais ninguém enxerga isso? Você é a única tonta que olha finja que não viu nada aja naturalmente Quero estar em qualquer lugar que não seja aqui! Crianças-macho: animaizinhos nascidos acuados. Chegam em casa Esbofeteiam a mãe Mijam no p...

Gomas açucaradas

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i. o fim da minha lua-de-mel com o mundo Chega dessa história de que tudo é lindo e vai bem. Hora de reclamar um pouco. ii. o debate sobre o “teor político-ideológico dos livros didáticos” Cheguei ao assunto quando, por um acaso, encontrei jogado num banco da universidade um xerox da seguinte reportagem da Gazeta do Povo: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/parana/conteudo.phtml?tl=1&id=698497&tit=Livros-didaticos-com-teor-politico-ideologico-preocupam-educadores Li-a e pensei: “Hah, quem daria crédito a uma matéria mal-escrita e sensacionalista como esta?”. Esqueci o assunto, embora tenha comentado qualquer coisa como “li algo ridículo na gazeta hoje” com uma ou outra pessoa. Então, no último fim de semana, matando um tempo na Internet, vi que o assunto estava repercutindo nacionalmente. Sobre ele, encontrei uma abordagem mais sensata, a do Observatório da Imprensa: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=452JDB009 Infelizmente, ...