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Domingo de Ramos

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É preciso explicar que eu não suporto multidões e passei a vida toda criando estratégias para sobreviver às situações em que não pudesse evitá-las. A missa dominical é uma dessas ocasiões. Costumo chegar uns dez minutos antes para garantir um bom lugar, o que, no meu caso, significa sentar perto do corredor e da porta. Assim eu tenho a sensação de que, se as pessoas saírem do controle, conseguirei escapar correndo, mas não pode ser tão ao fundo a ponto de eu ver toda aquela gente diante de mim. É uma operação que exige certo cálculo. Então vocês podem imaginar minha reação quando, estando eu tão bem acomodada, uma ministra anunciou que a missa começaria do lado de fora e que entraríamos todos juntos em procissão. A igreja não é muito grande, quem chega atrasado sempre fica em pé. Saí bufando, mas fui. Recomecei os cálculos. O ponto de encontro ficava na calçada a uns 100 metros da igreja, procurei ficar mais ao fundo e próxima ao meio fio, para que eu pudesse escapar pela rua se n...

Sobre a bondade

Quando criança, eu achava que havia pessoas boas e pessoas más, ou melhor, totalmente boas e totalmente más. Eu era boa, claro. Os pais, os familiares e os professores, também. Os meninos bagunceiros eram maus, assim como as patricinhas e os bandidos que apareciam na TV. Era essa a lógica do meu sistema. A partir da adolescência e até bem pouco tempo atrás, mudei minha classificação de bondade. Acreditava então que todos eram essencialmente bons. Se às vezes agiam com maldade, era porque não haviam aprendido a fazer o correto. Faltava o know-how. Tão logo convivessem com exemplos adequados, perceberiam o erro e se consertariam. Digo isso por mim mesma. Tantas vezes fui grossa e egoísta, até que conheci amigas extremamente gentis como a G. e a A. e tentava imitá-las. Progredi um pouco. Acho, talvez, quem sabe. A essa regra, criei ainda uma exceção – os dias em que a preguiça tenta e a gente vai pelo caminho mais fácil: xinga, explora, esnoba. Depois sofremos sozinhos, porque somos bons ...