Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 14)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
14. Desirée (2)
É a terceira conversa, só neste mês, que a irmã-coordenadora-pedagógica tem com Desirée, desta vez acompanhada pela irmã-psicóloga. Simplesmente inaceitável! Onde já se viu uma garota de quatorze anos andar com os olhos carregados de lápis preto? Nós já não conversamos sobre isso? Sim, irmã. Então, por que você continua a me desobedecer? Este é um colégio respeitável, não uma discoteca! E todas essas correntes com símbolos pagãos? É o ankh, símbolo egípcio da morte. Antes que a pedagoga explodisse de vez, a psicóloga, que se chamava Marta, pediu para conversar sozinha com a aluna.
Você pensa sempre na morte, Desirée? Acho que tanto quanto todo mundo. E como você imagina que seja a morte? Simpática, reconfortante. E a vida, como você a vê? Incerta, a gente vai pra lá e pra cá sem nem saber o motivo da coisa toda. E a vida em si não lhe parece motivo suficiente? Pode ser, mas por que as pessoas colocam tantas regras pra viver? Por que tem gente achando que sabe mais sobre a vida que todo mundo? Eu entendo a sua revolta, pegue um lenço, querida. Pode assoar bem forte. Talvez não pareça, mas já fui jovem e também não nasci freira. Isso, tome essa água, vai te fazer bem, está benzida. Ah, o ódio que eu sentia de todo mundo, eu me lembro da sensação como se fosse ontem. Hoje não, porque hoje não odeio mais ninguém. O melhor conselho que posso te dar neste momento é: tenha piedade para receber piedade. Seja piedosa principalmente com os ignorantes, porque nós também somos um deles, mas ignoramos isso, porque é o que ignorantes fazem, ignoram. Isso que a senhora disse é Cristo ou Sócrates? Isso é Marta, querida, as velhas religiosas também pensam com alguma frequência. Você é uma boa garota, não jogue fora isso. Não sou suicida, irmã, fique tranquila.
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