Postagens

Mostrando postagens com o rótulo artes

Ouves o grito dos mortos?

Imagem
Marielle virou símbolo. Não por ser uma exceção, mas porque conferiu um rosto para esses tantos brasileiros cuja aniquilação foi tão completa que quase duvidamos de que existiram. Marielle nos obriga a lidar com o fato de que muita gente neste país morre simplesmente por desejar justiça social. E mais: lembra que essa violência atinge todos nós. Há quanto tempo não vivemos amedrontados e impotentes, sem ousar esperar algo melhor do futuro? Até a esperança parece ter sido sequestrada. O Brasil é um dos países que mais matam ativistas dos direitos humanos e arrisco palpitar que seja também um dos que mais apagam sua memória. Quando se proíbe que certos temas sejam debatidos nas instituições de ensino, quando se dissemina a desinformação, quando se chama de “mimimi” toda narrativa de opressão, constrói-se uma máquina de apagamento da memória. O estado é o principal interessado em fazer esquecer, porque é o principal responsável pela violência. Seja apertando o gatilho, seja incentiva...

Veludo vermelho

Imagem
Dizem que os italianos falam com as mãos. Faço, porém, duas correções. Primeira, todas as nossas experiências, não só a fala, são pelo toque. Segunda, não tocamos apenas com as mãos, mas com cada pedaço do nosso corpo. Sensoriais até as pontas dos fios de cabelo, não é à toa que nós, italianos, somos amantes e místicos inveterados, os êxtases nos arrebatam sem trégua. Logo cedo, quando o gole de espresso fervendo amarra a língua e, logo depois, a cremosidade do canolli a desenrola, eu canto, as cordas vocais aplaudindo delirantes. É preciso cantar após uma boa refeição, senão nem o mais eloquente elogio convencerá o cozinheiro de que não foi schiffo  (nojo) o que eu senti. Meu corpo também vibra quando visto seda, que o vento levanta para cair úmida sobre as costas e as coxas. O que para uns é luxo, para os italianos é sobrevivência. Que remédio melhor para o desespero senão receber um cafuné de caxemira ou ter as mãos aquecidas por couro bem curtido? O mármore está lá em ...

Discurso de formatura

Homenagem a Deus (discurso apresentado na colação de Letras da UFPR, turma 2/2015) Como estudiosa da língua, estou ciente de que os discursos não são neutros, e sim marcados ideologicamente. Por mais que desejemos representar o todo, somos limitados por nossa história. Essa limitação humana provoca divergências até nas questões mais fundamentais. Por exemplo, a experiência do divino. Ao tentar expressá-la, acabamos nos desentendendo. O que é o divino? Onde ele se manifesta? Como devemos nos relacionar com ele? São muitas as respostas. Poderíamos passar eras discutindo, como muitos já fizeram e ainda fazem, sem descobrir qual é a certa. Deus se comunica conosco em diversas línguas, e mesmo que alguns de nós sejam poliglotas, muitas vezes somos incapazes de ouvir ou não sabemos o que fazer com aquilo que nos foi dito. Eu venho aqui numa postura humilde, assumindo a possibilidade de estar errada, e desde já peço desculpas se minhas palavras não derem conta (e certamente não darão) d...

Os Arnolfini

Imagem
Mulher vestida de azul e lenço branco,  Não fossem manto de veludo verde,  Metais no punho e no pescoço, rendas,  Na Renascença, a virgem Mãe seria – Adolescente com tão dura sina. Toma-lhe a mão o homem que compra tudo. Noiva amorosa a se entregar inteira A tal sujeito, Carniceiro-Mor.  E o troco dele? Nem sorriso volta.  Rico não sofre culpa: pilha ouros,  Assina acordos, tranca em cofre todos.  Cada estação, o homem só veste luto. N’águas vermelhas, ela nasce Vênus. Promessas velhas renovadas sempre – Todo o poder e a glória, a prole e o nome. Nem assim fica satisfeito, o rico Não ri. Até afeto poupa o rídico. Salve esta bela união: bens conjuntos. Graça da casa, o cachorrinho dela,  Atrevidinho vem, amor da moça.  Mete-se à frente de qualquer humano,  Hierarquia interespécie ignora. “Nojo me dá tanto xodó, senhora”. Nada suporta um homem tão casmurro.  A dama brilha no pincel do intruso,...

Sobre a criação da arte

Imagem
Façamos uma analogia bem simples para compreender um processo complicado. A cachaça vem da cana. Sem cana não há cachaça, já que esta depende daquela para existir. Mas não se pode dizer que uma coisa seja igual à outra. Há um processo que transforma uma noutra. Os elementos básicos da cachaça já estavam na cana, mas a forma bruta é irrecuperável a partir do produto, isto é, a cachaça não pode voltar a ser cana. O que é esse processo que faz uma coisa ser outra sem se acrescentarem novos elementos? No caso da cachaça, chama-se fermentação e destilação. No caso da arte, criação. A realidade fornece experiências que chegam a nós pelos sentidos ou por relatos alheios. O artista trabalha esse caldo e o transforma em arte. Podem-se recuperar alguns traços da realidade na obra de arte, mas não totalmente, porque o caminho inverso é impossível de ser trilhado. Agora uma falha nesta analogia. A cachaça nos embriaga por algumas horas, depois vem a ressaca e tudo volta ao normal. A arte também...

Da vampira

Imagem
Eu queria escrever um texto que fosse totalmente autêntico, original, nunca antes escrito (como a vontade do dramaturgo da peça “Do vampiro – variações n. 2”, que está em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba) e que ainda fizesse todo sentido para qualquer pessoa que o lesse. Mas acaba sendo só mais um grito no vácuo. Imagem meio gasta em ficções científicas mais cults, admito. As ações não ecoam, porque não há ar, a casa está apertada demais, ninguém se mexa (mais uma vez parafraseando a dita peça – juro que darei o serviço dela no final deste post)! Tudo escuro, só a parca luz que entra pela janela faz um bonito desenho no chão, uma música daquelas românticas antigas, soando bem baixinho, como se deve ser, ao pé do ouvido, arrepio, vontade de chorar apenas uma lágrima. Eu te amo ao som de Frank Sinatra. Isso numa outra vida, quando as coisas cresciam sob o sol. O espelho não reflete mais a imagem que estava tão concreta na sua cabeça. (Vontade não faz verdade.) Não reflete mais...

Bem-aventurança já disponível na biblioteca mais próxima!

Imagem
Felizes aqueles que estão satisfeitos em simplesmente viver. Quando a gente acrescenta advérbios além do “simplesmente”, a felicidade corre perigo – se não de desaparecer ao menos de se relativizar. A notícia ruim: ninguém permanece neste estágio inicial, vazio. Tão logo quanto nascemos e jogamos o primeiro bocado de ar para o pulmão, vêm muitas coisas e estímulos e desejos e coisas e coisas e coisas. Tudo nos leva para longe de nós mesmos. Agora a notícia boa: é possível encontrar caminhos (sim, no plural!) de volta. Inclusive, vou lhes acenar a seguir uma opção. Entre os muitos papéis que a arte exerce, interessa-nos sua função de recuperar o viver simplesmente, a felicidade absoluta ou a sublimação. Ao usar esses termos, afasto-me do uso recorrente na sociedade de massa, que associa lazer e arte, a qual acaba por se reduzir a entretenimento. Não digo que arte deva ser tediosa, mas o seu efeito sobre nós também não é tão imediatamente prazeroso. O caminho da catarse é praticam...

Logotipo inovador?

Imagem
Tanta gente chamou o logotipo das Olimpíadas Rio-2016 de inovador. Será que ninguém mais percebeu que é o quadro "A dança", de Matisse, estilizado? A mesma composição, as mesmas cores... Inovador foi Matisse, o resto é cópia. Comparem: