Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 17)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
17. Natália (2)
Romualdo, o pai de Natália, venceu uma ação contra o filho da puta do jornalistinha de merda que fodeu com a vida dele e, do dia pra noite, a família ficou rica, ou quase isso. O caso se arrastou anos na Justiça. Nem a filha mais velha, embora conhecesse de cor as alcunhas pouco elogiosas atribuídas ao adversário, sabia o motivo daquele ódio todo. Só compreendeu que eles se mudariam para um apartamento grande, comprariam um carro importado, e ela ganharia um computador novinho só seu. Achou tudo isso muito bom. Acreditou até que a família tinha se tornado mais pacífica, sem saber que o nome completo dessa paz era Patrícia Ezequiel, 19 anos, a novíssima amante de Romualdo. Fosse por provocar prazer ou culpa, a moça contribuiu para torná-lo um pai de família mais zeloso, argumento que pouco lhe ajudaria quando a esposa descobrisse a traição anos mais tarde.
Antes que a família implodisse de vez, houve um tempo em que Natália ainda podia se sentar à frente de seu computador sem ser interrompida por gritos e choros. Nesses dias mais tranquilos, ela começou a escrever um livro de fantasia, algo inspirado em J. K. Rowling, Gogol e Ariano Suassuna, seus escritores favoritos. Cada semana ela postava um capítulo no blog “Nuno Titóvski, o bruxo repentista”, que tinha vários seguidores assíduos, inclusive aquele que se tornaria o primeiro namorado da autora.
O dito-cujo assinava como Manuelzão. Cearense de 17 anos, ele era o respeitável administrador de um fórum sobre President Elvis (jogo não recomendado para menores de 18 anos, contém cenas de violência, consumo de drogas e reboladas sensuais) que contava com quase quarenta e cinco membros – o vigésimo-terceiro maior do Brasil. Num tópico sobre métodos para costurar franjas na jaqueta de couro branca, ele conheceu Vítor e o adicionou como amigo no ÓioCult. Havia um depoimento fofo de Natália no perfil do irmão, além de uma foto divertida em que ela mandava um beijinho em frente ao espelho. Tudo isso vindo de uma mocinha de 14 anos e meio despertou o interesse do cabra. Ele leu o blog dela, comentou, se adicionaram no messenger, ficaram muitas madrugadas teclando até que finalmente se declararam apaixonados. Nenhum deles tinha dinheiro pra passagem, além de serem menores de idade, mas o amor era persistente. Falavam-se todas as sextas a partir da meia noite, sábados a partir das quatorze horas e domingos o dia todo.
As "reboladas sensuais" ficaram engraçadas. Essa menina que escreve o romance e posta no blog está me lembrando alguém.
ResponderExcluirAgora, uma questão de ordem jurídica. É uma pergunta mesmo. Sobre o fato de o pai ter ficado rico da noite para o dia com o processo, é possível isso acontecer pelo menos aqui no Brasil? Não existe aquela limitação para evitar de pessoas que façam dos processos uma forma de enriquecer?
Para ser bem sincera, eu não entendo isso. Pelo que pesquisei, danos morais gravíssimos hoje dá cerca de 300 mil reais... mas, ao mesmo tempo, o Olavo de Carvalho foi condenado a pagar mais de 3 milhões ao Caetano Veloso.
ExcluirDe qualquer forma, a família da Natália é o seguinte: mesmo que eles tenham ganhado "apenas" 300 mil, Romualdo é o tipo de cara que já pega isso e dá entrada num apartamento de 1 milhão, num carro de 100 mil, compra joias para a amante... Esse tipo de cara sem freio, entende? Eles se entendem como ricos e gastam mais do que têm. É isso.
Ah, e outra questão importante. Não tem nada de autobiográfico aqui, hein. Eu roubo um ou outro detalhe das histórias que vejo ou ouço, mas não quero representar ninguém em especial. Então uma dica aos leitores que me conhecem: não procurem indiretas ou diretas para vocês, não faço isso.
ExcluirEu imaginei. Achei foi curiosa mesmo a coincidência das situações.
ExcluirAcho q é pq uns 20-15 anos atrás os blogues revolucionaram a vida de qm escrevia e deixava na gaveta. Foi uma primeira experiência de ser publicado e ter retorno direto dos leitores. Agora tenho a impressão de q ficou mais fácil publicar por editoras, com amazon e tal...
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