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Abortos: Ainda Otelo

Eles se amavam loucamente. Às vezes, a ausência do outro chegava a doer no peito e era preciso pegar o telefone, não importava a hora, para dizer “vem logo”. Ronaldo achava Joyce a mulher mais incrível do mundo, a ponto de redimir qualquer clichê amoroso. Não entendia a ausência de filas de pretendentes à porta dela e começou a desconfiar que elas se formavam às escondidas. A jovem também tinha seus aborrecimentos: amar homem bonito é uma responsabilidade e tanto, o mundo todo esperando que ela deslizasse e libertasse o Adônis, mas levava como podia, ignorando os olhares de cobiça sobre o namorado. Ele é que não se saiu tão bem, o ciúme o tornou ríspido. Em sua cabeça, tinha certeza de que era traído. Chegou a desabafar isso para o colega de faculdade Igor, que, por seus próprios motivos, reforçava os xingamentos àquela “vadia”. Diante da mudança de comportamento do namorado, Joyce também acabou mordida pela desconfiança e começou a investigar. Igor, Igor, o nome vivia na boca dele... ...

Abortos: O bolo

Na cozinha quente e perfumada pelo bolo no forno, dois namorados aguardavam. Olívia checou a massa, ainda crua, enquanto André discursava sobre coisas que não eram ouvidas. Era a primeira vez em muito tempo que passavam uma tarde a sós. Os 40 minutos previstos para o cozimento se estenderam para uma hora, forno imprestável! O menino não calava a boca e o maldito bolo que não ficava pronto nunca, Olívia pôs o fogo na temperatura máxima. Dez minutos depois, o casal encarava dois carvõezinhos em pratos de porcelana. Ele comeu tudo e ainda pediu mais. Ela se negou a concordar com aquele absurdo, mandou-o embora. Faz um mês que ninguém cozinha nada, mas o cheiro de queimado continua impregnado nos azulejos da cozinha. -- Da série "Abortos", leia também: Primeiro amor Eternidade 72 horas A um passante Festividades Curto e grosso Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Abortos: Eternidade

Osvaldo e Luana namoravam há nove anos. Mas não pensem que adiavam o casamento para aproveitar infinitamente a vida de solteiro! Ninguém sequer esperava que os dois subissem no altar tão cedo, afinal, tinham apenas 23 anos. Conheceram-se no jardim de infância e desde sempre formaram uma boa dupla, engraçados e desprendidos, topavam todos os convites. Diziam as boas e as más línguas que eles haviam descoberto o Santo Graal dos relacionamentos. Quando alguém perguntava o segredo, eles contavam que só faziam o que tinham vontade e, de alguma forma, isso funcionava. Numa daquelas tardes sem muito assunto, o casal começou a fazer contas, meio na brincadeira: “já passamos quase metade da nossa vida juntos”, “poderíamos ter tido um filho que, a essa altura, saberia escrever”, “ou oito filhos”, “ano que vem completa uma década de namoro, dez anos, você pode imaginar?”. O fato soou terrível. Poucos dias depois, eles terminaram. A pior parte foi inventar uma justificativa para dar aos amigos i...

Abortos: Aparição

Tristão, cansado de ser um sacana fodido eternamente de ressaca, rendeu-se à sociedade. Parou de faltar nas aulas, aderiu aos banhos diários, arrumou um estágio. Para o pacote ficar completo, só lhe faltava uma namorada de boa família. Mas isso já estava encaminhado: há tempos observava Lílian, tão rosada que parecia feita de uma substância impermeável à sujeira. Ela gostou do jeitinho vagabundo dele por baixo da crosta de bom moço, entenderam-se. Ao cabo daquela primeira semana de romance, ele confessaria aos colegas de bar que estava perdido, condenado a agir certo. Resistiu aos maus instintos o quanto pode, mas, um mês depois, quando a moça lhe disse “eu te amo”, ele surtou. Sumiu por seis dias, voltou todo estropiado, nunca mais procurou Lily, que agora estava mais pra amarela do que pra rosa. E haja tática de guerrilha para evitá-la, pois essa daí agora passava quatro horas todo dia, divididas rigorosamente em dois turnos, sentada na porta do prédio dele. Eles até se toparam algum...

Abortos: Amor livre

Um mês saindo juntos, a coisa se encaminhava para um namoro. Bebeto pensou em aproveitar a data para fazer o pedido formal a Antônio. Na manhã do grande dia, ele não se aguentou e contou suas intenções para metade dos colegas de escritório, virou um happening na hora do cafezinho, quem não gosta de um segredo coletivo? O incentivo foi unânime, jovens e bonitos daquele jeito tinham mais é que oficializar a relação, um desperdício que não pudessem também gerar filhos! No dia seguinte, o pessoal clamava pelo relato completo. Bebeto, então, revelou todos os detalhes da noite passada: como quem não quer nada, ele começou perguntando se os dois estavam saindo só um com o outro. Para a surpresa dele e de todo o escritório, a resposta foi “não”, completada por um “estamos de boa” – seja lá o que isso signifique. O jovem apaixonado se achou ridiculamente ingênuo por ter cogitado um namoro, nem chegou a fazer o pedido e, para não ficar para trás, começou a sair com outras pessoas. Isso magoou An...

Abortos: Bad reputation

Quando uma fêmea passava por Alex, os olhos se arregalavam, as narinas farejavam, as unhas se atiçavam. Típico lobo mau. Antes de terminar o chocomilk matinal, ele já havia escaneado todo o pátio do colégio e selecionado as potenciais vítimas do dia. Desta vez, arriscaria um golpe mais ousado: infiltrar-se na roda das Lovely Lambs, as cinco bad girls do último ano. Elas ostentavam make-up completo às 7h15, fumavam e só saíam com homens mais velhos. No recreio, a abordagem do calouro foi fina, bem bolada: “Alguém afim de fumar um depois da aula?”. Ele entrou para o grupo imediatamente. Naquela semana, dormiu cada noite na casa de uma delas, moças insaciáveis. Na sexta-feira, elas morreram de rir ao constatar que ele ainda vestia a roupa de segunda. Passados sábado e domingo, Alex naturalmente quis recomeçar o rodízio. Elas, por sua vez, gozaram da ingenuidade dele: figurinha repetida não enche o álbum, filho. Ele saiu com o rabo entre as pernas. O que lhe sobrava em desejo, faltava em e...

Sugestões para uma civilização do futuro

Já que o controle sobre nossa vida privada é inevitável (sob o pretexto de ser seguro e até descolado viver com um GPS colado na bunda) e só tende a crescer, aí vão algumas sugestões para sofrer menos com relacionamentos numa civilização do futuro. 1) Facebook empático. Por uma análise da sua personalidade e das suas atividades, ele automaticamente barra as atualizações que farão você sofrer. A solução é nova, o princípio não: o que os olhos não veem o coração não sente. 2) Espécie de programa de proteção à testemunha, mas para pessoas que terminaram o relacionamento. Você ganha uma nova identidade numa outra cidade. Talvez inclua até um novo guarda roupa (isso ainda precisa ser melhor pensado para não ficar economicamente inviável). A ideia é nunca mais correr o risco de cruzar com alguém da vida passada. Ou, se você tem apego às suas coisas atuais, apele para a boa e velha violência e contrate um jagunço – e para isso nem precisa esperar o futuro chegar –, mas considere que, por ...