Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 13)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
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PARTE 3: CONTAS
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13. Desirée (1)
Desirée significa desejada em francês. A pessoa certa no tempo certo, doce e delicada donzela. Mas o nascimento da criança dourada não foi suficiente pra salvar aquele casamento. A filha única ficou morando com a mãe, que se casou de novo (antes que os peitos caíssem, um dia a ouviu contar, meio bêbada, a uma amiga) e teve mais três filhos (daí caíram de vez, os peitos). A criançada justificou a longevidade do segundo casamento, o divórcio sairia caro demais enquanto os três não concluíssem os estudos.
O pai de Desirée arrumou um emprego que lhe permitisse viver sem conexões com ninguém, embora sempre em conexões, com o perdão do trocadilho: virou assistente de bordo, vulgo aeromoço, num tempo em que isso era raridade. Diziam as más línguas que ele finalmente tinha saído do armário, nada comprovado até agora. A filha o idolatrava, colava na parede do quarto os cartões postais que chegavam do mundo inteiro, seu favorito era do Cairo, e sonhava ela própria fugir dali o mais cedo possível.
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