Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 20)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
20. Lila (2)
O iPhone foi um presente do filho mais velho, Samuel, um reconhecimento do sacrifício que ela fez pra pagar os 52 boletos da faculdade dele – curiosamente o ano letivo tinha oito meses de aulas, mas lhe cobravam treze mensalidades. Formado em Administração, o rapaz acaba de ser contratado por uma multinacional do ramo alimentício e já aproveitou para marcar a data do casamento. Bem diferente do irmão, Sérgio, que mal para em casa. A mãe descobriu que este tá mexendo com drogas. Torce pra que seja usuário e não traficante, na esperança de que o vício mate menos que a polícia. Ai, meu Deus, cuida desse menino, porque ela já não sabe mais o que fazer.
Samuel e a noiva propuseram que Lila saísse da casa do doutor José Reynaldo e fosse morar com eles. Logo o jovem casal teria filhos e preferia deixar as crianças com gente da família, em vez de creche. A potencial futura avó ainda não decidiu. A nora até que é boazinha, vem de uma família tradicional gaúcha, gente educada. Por outro lado, Lila gosta do emprego, o velho fica sempre trancado no escritório, nunca reclama de nada. Além do mais, quem pode abrir mão de um salário certo hoje em dia? Nunca se sabe o que vem amanhã. Problema se herda, não se deserta.
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