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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Finismundo: a última viagem

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(Vou republicar aqui este belíssimo poema de Haroldo de Campos, porque, quando o procurei, me deu um trabalhão para encontrá-lo, e ele não pode cair no esquecimento. Nada a ver com as notícias de política que nos enfiam goela abaixo, é "só" poesia. POESIA!) Finismundo: a última viagem … per voler veder trapassò il segno 1. Último Odisseu multi- ardiloso             — no extremo Avernotenso limite               — re- propõe a viagem.                                                                                Onde de Hércules as vigilantes colunas à onda escarmentam:            vedando mais um passo            — onde pas...

Caos em poesia

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“Poesia, eles dizem, é uma questão de palavras. E isso é tão verdade quanto dizer que as pinturas são uma questão de tinta, e os afrescos uma questão de água e diluição das cores. Está tão longe da verdade completa que assim se torna ligeiramente tolo se declarado assim sentenciosamente. Poesia é uma questão de palavras. Poesia é também o afinar de palavras dentro de um murmúrio, de uma melodia, ou de um rastro de cores. Poesia é um entrejogo de imagens. Poesia é a sugestão prismática de uma ideia. Poesia é tudo isso e ainda alguma outra coisa a mais. Dados todos estes ingredientes, você obtém alguma coisa bem parecida com poesia, algo de que poderão dizer “Oh! Isso é muito poético”. E “o que é muito poético”, como um brinque, estará sempre na moda. Mas a poesia ainda é outra coisa. A qualidade essencial da poesia é que ela faz um novo esforço de atenção e “descobre” um novo mundo dentro do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, todos vivem dentro de um estra...

Quarentena

No 40º dia, comecei a ver com clareza quem eu era, onde eu estava, para onde eu ia. E sorri com serenidade. Muita compaixão por mim e por aqueles que cruzaram comigo, afinal, o caminho não era o meu, era o nosso -- eu só não havia visto o tanto de gente que rastejava, saltitava, corria, voava ao meu lado, pois eu era um espectro faminto, só enxergava o que parecia alimento para saciar o meu vazio. Entendi o valor dos 40 dias... anos... demônios... ministros... A tentação, a queda, a morte que precedem a luta, a ascensão, a vida. Se estou viva foi porque morri. Parei de lamentar a decadência do meu império. Era lindo, sim, muito imponente e me custou tanto trabalho, mas em algum momento ele já não era mais coisa alguma, senão uma lembrança. Então eu própria meti fogo em tudo e me permiti chorar enquanto ruía, depois enxuguei o rosto com as cinzas até eu mesma virar cinza. Pó, terra, matéria disforme. Nada, possibilidade, sonho. Venci o deserto quan...

CEPíada (epopeia de uma jovem professora)

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Homenagem aos 170 anos do Colégio Estadual do Paraná ― Filha, não vá nesta jornada! A luta é árdua –                           chorou-me a mãe. Súplica vã:                           jovens são surdos. ― Mestre sou, eu sei, mudo tudo. Pura arrogância, mudei nada. Emudeci.                           Faltou-me esteio, fugi rasteira.                           Estudo indigno foi que aprendi a amar nos livros? Após quimeras e ciclopes, mais favoráveis                           ventos sopraram. Olhos pousaram                           numa torre alva. Depus as armas, vi-me salva. Este...

Os Arnolfini

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Mulher vestida de azul e lenço branco,  Não fossem manto de veludo verde,  Metais no punho e no pescoço, rendas,  Na Renascença, a virgem Mãe seria – Adolescente com tão dura sina. Toma-lhe a mão o homem que compra tudo. Noiva amorosa a se entregar inteira A tal sujeito, Carniceiro-Mor.  E o troco dele? Nem sorriso volta.  Rico não sofre culpa: pilha ouros,  Assina acordos, tranca em cofre todos.  Cada estação, o homem só veste luto. N’águas vermelhas, ela nasce Vênus. Promessas velhas renovadas sempre – Todo o poder e a glória, a prole e o nome. Nem assim fica satisfeito, o rico Não ri. Até afeto poupa o rídico. Salve esta bela união: bens conjuntos. Graça da casa, o cachorrinho dela,  Atrevidinho vem, amor da moça.  Mete-se à frente de qualquer humano,  Hierarquia interespécie ignora. “Nojo me dá tanto xodó, senhora”. Nada suporta um homem tão casmurro.  A dama brilha no pincel do intruso,...

Poemas publicados na coletânea da Flupp 2014

Ano passado participei de um evento muito interessante chamado Flupp Brasil. Sinceramente, ando bem cansada dessas palestras em que você ouve sempre os mesmos debates e reencontra as figurinhas blasées de sempre, mas fui atraída pela oportunidade de no final ter um trabalho publicado em livro. Outro aspecto curioso era ter que cortar a cidade todo dia de ônibus, levava duas horas nos períodos de rush, para chegar à Vila Verde. Naqueles dois dias vivenciei a periferia da minha cidade e tive a prova cabal de que a desigualdade social está intimamente ligada à desigualdade racial. Curitiba é uma cidade caucasiana? Vá para a periferia e você vai descobrir em que condições vivem os milhares de negros curitibanos. Nesta semana recebi as edições a que os autores selecionados têm direito: dez exemplares. Bom, dado o cenário de publicação de escritores neófitos, já estou bem feliz de não ter tido que pagar para ter um trabalho meu impresso. O que mais lamento é que a circulação seja tão ...

C.

amar sempre independente da maré e dos males plantados colhidos comidos cuspidos na cara amar sem esperar o mérito a ocasião a recompensa o príncipe amar já sem amargar amar no ódio não por causa dele mas apesar dele amar o outro em nós mais do que nós no outro amar sem possuir amar os sem posses amar por si amar em silêncio amar concretamente na poesia no asfalto na asia ao mar, sem medo!

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Um poema de Paulo Leminski

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[sem título] um passarinho volta pra árvore que não mais existe meu pensamento voa até você só pra ficar triste LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia . São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 70

Sobre a passagem do tempo

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O post passado me deu a ideia de fazer um ensaio fotográfico sobre a passagem do tempo. Ao focar a deterioração de corpos que um dia foram belos, eu tentei vislumbrar algum tipo de beleza no limiar da morte. A carniça pode ser sublime (para usar uma imagem de Baudelaire)? Eu bem que tentei durante três dias, mas a luz não ajudou desta vez - fotografei à noite, com iluminação artificial. De qualquer forma, o resultado servirá como ilustração para um poema que foi duramente interrogado e torturado durante quase dez horas por três estudantes de Letras. Tiramos o suco viçoso, ficou a carniça. Não a do poema, a nossa. O inimigo - Charles Baudelaire (Trad. Ivan Junqueira) A juventude não foi mais que um temporal, Aqui e ali por sóis ardentes trespassado; As chuvas e os trovões causaram dano tal Que em meu pomar não resta um fruto sazonado. Eis que alcancei o outono de meu pensamento, E agora o ancinho e a pá se fazem necessários Para outra vez compor o solo lamacento, Onde...

O amor, o sorriso e a flor

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Nesta postagem de número 200, vou deixar a verborragia de lado e me render à beleza simples e passageira. Afinal, como escreveu Horácio na ode I,38, "Renuncia a buscar o lugar, onde duram as rosas”. (A foto é de minha autoria, tirada com uma Sony Cybershot 5.1 que, sei lá como, ainda consegue captar essa riqueza de textura.)

Exercício poético

Quanto medo sem motivo! Pois bem. A gente cria (n)esta nefasta fantasia, (n)este abrigo que diz: PERIGO! Você pode ser feliz. -- Vale a pena ler de novo o poema "Medo" , de Raymond Carver

Ah, a arte, essa subversiva...

Segue letra de uma música de que gosto muito e que acrescenta lenha às ideias que vim expondo nos últimos posts, em especial sobre busca de paz espiritual versus de amor . Recomendo a versão cantada por Mônica Salmaso. ** Tempo de amor (Samba do Veloso) Vinicius de Moraes Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Mas tem que querer Pra poder amar Ah, mundo enganador Paz não quer mais dizer amor Ah, não existe coisa mais triste que ter paz E se arrepender, e se conformar E se proteger de um amor a mais O tempo de amor É tempo de dor O tempo de paz Não faz nem desfaz Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu

Caderno de poesia da aluna Sularien

Hoje li este poema na Folha de S. Paulo e achei muito bonito, por isso, copio abaixo para vocês. Medo Autor: Raymond Carver Tradução: Cide Piquet Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de cães que supostamente não mordem. Medo da ansiedade! Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto. Medo de ficar sem dinheiro. Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso. Medo de perfis psicológicos. Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar. Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes. Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado. Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha. Medo da confusão. Medo de que este dia termine com uma nota infeliz. Medo de ac...

Poemas pornográficos

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Hilda Hilst foi uma das maiores poetisas brasileiras. Por mim, diria até que a maior. Só que, no começo da década de 90, ela já estava com seus 60 anos, e o público em geral mal conhecia sua obra. Ela ficou tão frustrada por não receber reconhecimento proporcional à dedicação que depositava em seu trabalho que desistiu de tentar fazer tudo certinho. Em 1992, então, ela lança "Bufólicas", coletânea de poemas pornográficos ilustrados por Jaguar. (Informações do site da Editora Globo.) São histórias leves, descompromissadas e muito divertidas. Até nessa tentativa de ir contra a corrente, a danada não perde a qualidade. Em homenagem à querida Hilda, colo dois poemas deste livro e os convido para conhecer o resto do trabalho dela. Tem produções para todos os gostos. Ela criou contos, novelas, poemas, teatro... Tem uma coleção que saiu pela editora Globo no começo nos anos 2000 bem boa. Livros de preço acessível e muito bem editados. Fica a dica. (Sobre a falta de reconhecime...

Tudo isso para dizer que não tenho o que postar hoje (mas o poema, que não é meu, vale a pena)

Passei o dia inteiro sem fazer nada. O mais odioso é pensar que não é tão difícil passar uma vida inteira assim, sem ter feito nada. Basta ter um computador e internet, não precisa nem ser de banda larga. Quase quebro o meu compromisso de postar diariamente. Não saí de casa, não aprendi coisa alguma, não tive qualquer conversa interessante. O que haveria, então, para lhes falar? Eu poderia imaginar algo, como nos velhos tempos. Não é o que fazem os excelentes escritores? Mas, lógico, não sou uma deles e não estou preparada para voltar à ficção ou à poesia. Depois de ter lido tanta coisa boa, me satisfaria com produções menores? Também elimino a possibilidade de falar de mim mesma, como se fosse o melhor tema do mundo. Não é. E humor estilo “Seinfield” é tão sem graça. Na adolescência, os que escrevem “mais bonito” na turma – o que, em geral, é sinônimo de “mais floreado” – costumam criar versozinhos sobre a dor de existir. E não é que aquelas besteiras lhes parecem geniais? A esse ...

Põe um pouco de amor numa cadência

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— Há sempre uma mulher a sua espera com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão. Eis o retrato do homem passional e cafajeste. Sempre digo que não vou cair na conversa de um desses, mas quem resiste ao Capitão Vinicius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil? Sim, meu querido, ainda to te esperando no portão, com um olho nas crianças e o outro nas panelas sobre o fogão. ** As aulas de Estudos de Poesia Brasileira têm sido a coisa mais fantástica deste semestre. Por elas, sinto-me até tentada a abandonar o sonho de ser jornalista – aquela coisa de revelar a verdade para o mundo, fazer justiça aos desfavorecidos e toda a ideologia que os calouros de 17 anos sustentam; tudo no superlativo e em escala global, ô, mania de grandeza! – para passar meus dias lendo, lendo, lendo. Sem propósito nenhum! Só lendo e sentindo prazer nisso. Depois esmiuçar o texto lido, desenvolver um artigo e, pronto, fingir que tenho alguma utilidade para a sociedade. Ah, se...

Hoje é dia de nostalgia

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Já aviso: ainda não fiz a resenha de Hoje é dia de Maria . Não consigo, po! Fazer o que? Espremer meu coração aqui para ver se sai alguma coisa? Sai sangue, ué, e eu preciso dele. Então, sinto muito, mas não. Não por enquanto. ** Psicastenia Não pensar Não pensar... Pensando sem pensar Canelas ante os olhos Duas, quatro, cem Milhares delas E apenas dois olhos Que olham mas não pensam - Fé Procissões que não me interessam Sobrancelhas oblíquas O ângulo apontando para o céu - Dó O qual não me afeta Que morram! Eu só não penso nisso Um polegar, um indicador, uma mão Duas delas Um único tecido epidérmico Que só sente, não pensa - Amor Se penso não o sinto E penso em não pensar Não pensar... Não pensar, Nem pensar! (22 de feveiro de 2004) ** Na época eu achei esse poema tão bom, mas para postar aqui tive que deletar uma série de reticências (ô, mania de adolescente!) e só não o reescrevi todo porque perdi-me da poesia. Tá certo que ela sempre era rui...

Intraduzível

Développement Ma bouche ne partage plus de pomme ni de lys ni de basilic parce que mon coeur est une terre infertile. Et ma tête pense à l'agriculture comme un moyen rétrograde. ** É hora de os intelectualóides comentarem qualquer coisa só para mostrarem que conhecem francês. ** Postei só por postar. Leiam o texto anterior, que também é de hoje e é bem mais interessante.

O lírio e a camélia

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Um olho no espelho vê o lírio. O outro, voltado para a sombra dançante na parede, vê a camélia. O lírio é rígido, correto, simples e sem excessos. Vive bem enraizado, próximo ao chão, cercado por seus iguais. Não tem pretensões. É constante, bondoso, eterno. Tem uma beleza tão crua, rústica, quase masculina. Virginal, nada esconde, nunca cede. Velado em sua santidade, morreria numa câmara nupcial. Foi feito para os santuários e as capelas, em honra a damas tão íntegras quanto ele. Fruto banal dos campos, há em sua seiva um misticismo que se perpetua intocado. A camélia já nasce nas alturas, aspirando ventos mais leves e velozes, pronta para saltar ao primeiro chamado. Poderiam olhar para ela e dizer "Que florzinha à toa, brota em qualquer canto, nada de especial tem!". Alguns até o fazem, mas basta deterem-se um segundo a observá-la que logo se rendem a seu balançar leviano. Camadas brancas em profusão, feito os saiotes da dançarina de cancan, que se oferece sem amor, só...