Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 21)

 Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.


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21. Lila (3)


(Carta sobre um túmulo)

Querido filho,

Hoje chorei muito quando pensei que não vou poder ir no seu casamento. Ia ser lindo ver você entrando na igreja... Mas você se foi. Pouco depois o patrão velho também, como sempre fiquei pra trás.

Graças a Deus, o Samuel está bom, pelo menos isso. Ele foi morar nos estrangeiros, onde pedreiro ganha mais do que um doutor do Brasil. Agora dizem que nem tanto, mas ele tá lá junto com a esposa guardando dinheiro pra fazer a casinha deles aqui perto dos seus, se Deus permitir e Ele á de querer. Eu não fui com eles só porque não tenho mais idade pra aprender outro idioma, mas eles queriam muito, eu até pensei, mas depois mudei de ideia.

Deus sempre me deu força pra cuidar de todo mundo, a novidade é isso de ninguém mais precisar de mim... Que fazer com essa vida sem utilidade? De que jeito que a gente vive só pro próprio umbigo?

Todo mundo diz: mulher, vai se divertir, vai namorar, vai viajar! E vida lá é diversão? Uma vez postaram na Internet um negócio bonito que acho muito verdadeiro, dizia que a gente não morre de trabalhar pro outro, a gente morre de não ter por quem trabalhar... De amor meu coração está cheio, e isso que me dá força pra continuar. Arrumei patroa nova, meio chatinha a mulher, nem celular deixa a gente usar, mas foi o teste que Deus me deu pra aprender a ser humilde e paciente. Trabalho de sol a sol, deixo aquela casa um brinco, como nunca que foi antes com as outras funcionárias.

Deus acolhe aqueles que sofrem, tenho certeza que você está junto dele, livre do vício e do pecado, um anjo de luz.

Fica na paz de Deus e olha pela gente que ainda está aqui perdida.

Da sua mãe que muito te ama...

Dalila Cristina de Carvalho

Comentários

  1. Até agora, não tá parecendo muito um romance, mas uma coletânea de contos. Ainda não consegui enxergar o fio condutor que deve ligar tudo. Será falta de atenção minha ou você realmente ainda não mostrou?

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    1. Respondo com perguntas (que nem eu sei responder muito bem):

      1) O que define um romance?

      2) Precisa ter um fio condutor?

      3) Se tiver, esse fio condutor precisa se dar no plano da fábula (os acontecimentos narrados)?

      Daí pq chamei esse livro de "romance pós-moderno", ele é mais livre do que os tradicionais e, na verdade, ele parodia a tradição sem se comprometer com ela...

      Eu acredito que haja um fio condutor, sim, mas ele é mais temático do que cronológico. Se não o percebeu, não é desatenção sua, é pq é muito sutil mesmo. E aqui a safadeza da autora: fiz questão de não usar nenhuma vez a palavra que sintetizaria o tema deste romance.

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  2. 1) Não creio que exista definição, cada um usa a sua. Mas pra mim, é o tamanho da história (que deve ser uma única). Se for um tanto curta, é um conto. Senão, por exclusão, vira romance.

    2) Se for uma única história, entremeada por vários núcleos, precisa. Se não, são contos separados.

    3) Podem ser acontecimentos ou personagens. Mas se forem só personagens, fica mais fraco e fica mais parecido com várias histórias separadas com algumas referências ou fan services entre si.

    Se o seu fio condutor for só temático, sem ser cronológico ou envolver os diferentes personagens, eu acho que é mais uma antologia de vários contos do que um romance.

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    1. Bom, acho que, no fim das contas, não importa tanto o modo como vc ou eu o chamemos. Se fizer algum sentido e tiver algum interesse em conjunto ou em partes, já tá valendo.

      Curiosamente, qd eu estava definindo a estrutura do livro, uma das coisas que eu decidi foi que seriam capítulos curtos e com alguma autonomia, pq, de fato, gosto muito de escrever microcontos. Vai ver é por isso que ficou com cara de livro de contos.

      (Desculpe a demora para responder, estou no meio de uma mudança... Em uma semana, as coisas devem voltar ao nível de loucura habitual)

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  3. Eu estou curioso para ver o que vai acontecer. De um certo modo, essa apresentação dos personagens me lembra aqueles romances do século XIX (vide o Irmãos Karamazov) em que são apresentados muitos personagens, que depois estarão na história. Mas estou pensando se eles terão, de alguma maneira, uma relação como esse tipo de narrativa, ou se permanecerão na fragmentação isolada da vida deles mesmo.

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    1. Oba! Gostei da comparação com romances do século XIX, pq eles têm personagens e enredos complexos e cativantes. Um dos meus grandes medos é de soltar fogos de artifício em excesso mas não ter substância, acabar tudo em fumaça.

      Quanto a ter relação, depois vc me diz o que parece. Essa terceira parte, "Contas", é uma espécie de catálogo das personagens que deveriam contar, mas que infelizmente contam pouco nas histórias "principais". Atuam como uma espécie de contrapeso aos três protagonistas masculinos que dominam a narrativa. Digamos que é minha resistência feminina ao excesso de vozes masculinas. Mas quem é uma autora? Uma covarde que, ela própria, conta pouco.

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