Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 26)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
26. A inominada (2)
Foram muitas conversas tarde da noite entre o pai e a mãe. A garota, que só pegava umas palavras soltas através da parede comum aos quartos, pressentia que algo estava para acontecer. O anúncio se realizou, por fim, muito solene à hora do jantar:
— Inominada, seu pai e eu decidimos que está na hora de você estudar numa escola melhor. Daqui a um ano você vai prestar vestibular e queremos que tenha todas as chances de seguir uma boa carreira. Amanhã vamos pra São Paulo fazer a sua matrícula no cursinho Alpha Centrum e procurar um pensionato de moças pra você morar.
Que final de semana memorável aquele que passaram na capital! Matrícula feita, contrato com o pensionato assinado, toda a família, que no caso eram só os três mesmo, retornava para casa leve, amorosa, já saboreando as glórias futuras. O pai visualizava a filha tocando os negócios do sítio como engenheira agrônoma; a mãe a imaginava médica cirurgiã plástica, ou arquiteta como segunda opção; a principal envolvida não pensava nem uma coisa nem outra, apenas degustava a ideia de ir para São Paulo, terra das oportunidades. Seria tudo o que quisesse ser. Seria, principalmente, feliz.
Devidamente instalada na pensão da capital, nunca manifestou uma opinião sobre nada, não fazia nenhuma exigência, era a inquilina ideal. Também era quieta nas aulas do cursinho, mas seu cabelo, agora curtíssimo e de volta ao natural preto-graúna com mechas azul-celeste, não passava incólume. Muitos colegas vinham conversar com ela nos intervalos usando esse pretexto. Eles eram adeptos do que chamavam de “aperfeiçoamento corporal”: portadores de tatuagens, piercings, alargadores de orelhas, cabelos pouco usuais e/ou roupas costuradas por eles próprios. O cabelo da inominada determinou que esses seriam seus amigos, e ela própria não achou ruim.
Às vezes com esses companheiros, às vezes sozinha, a inominada foi a museus, tomou tubão na Sé, estourou o cartão de crédito no Shopping Migatemi, assistiu a um show internacional (pra alguns dizia que era do Metallica, pra outros, da Beyoncé) e a várias apresentações de artistas locais, resolveu quase todos os exercícios da apostila de matemática mas nenhum da de português, teve um namoradinho que durou quase nada e alguns affairs que duraram um pouco mais, fumou maconha e se frustrou com o efeito, esteve por um triz de adotar uma cadela bem peluda que se chamaria Priscilla (mas não conseguiu convencer a dona da pensão, na verdade nem tentou), quis voltar pra casa, pesquisou como se fazia mochilão, aprendeu a bordar com um manual dos tempos do teatro com “th”, comprou um computador de última geração, ficou brigada com o pai três semanas, gastou dezenas (ou centenas) de horas em joguinhos on-line, escreveu letras de música, beijou uma ou duas meninas, trabalhou ilegal de garçonete, tomou ayahuasca, trocou todos os seus livros de sci-fi por uma bicicleta de segunda mão, passou no vestibular para Design, teve que explicar para os pais o que fazia um designer.
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