Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 9)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.

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9. Restart


Contagem regressiva pro retorno. Como seria? O que faria? Nem dobrando as sessões semanais de terapia, Leandro conseguiu evitar a ansiedade e, paranoia após paranoia, ia alimentando seu bicho carpinteiro. E se rirem dele? E se ele recair? O pior devem ser os olhares julgadores. Não, não, as perguntas dos outros é que são um inferno. Por onde você andou? O que são esses comprimidos que você toma? É verdade o que dizem... que você ficou louco? Por que você tá tremendo e suando? Que cicatrizes são essas em seus braços? Tem falado com a Inominada? Açúcar ou adoçante? Responderia tudo isso com um sorriso prepotente. Não, com um olhar indiferente. Não, jogaria a bosta no ventilador e daria de dedo na cara de quem se atrevesse. Não, responderia tudo com sinceridade.

Gastou tanto tempo planejando como reagir aos ataques que se esqueceu de supor um cenário em que ninguém se importasse, e foi o que acabou acontecendo. Sua entrada no escritório onde estagiava passou despercebida. Os colegas só tinham olhos pros Mokbooks, todos acompanhando no Feyce quem fez-se de alguma coisa que não era, mas que seria bom se fosse. O que se passava off-line não existia.

Sentou-se diante de seu Mok, fez logon e, agora sim, o dia de trabalho começava. As tarefas que a chefe comunicava pela intranet não apresentaram desafios, eram as mesmas de antes do incidente: atualizar as redes sociais da agência, responder a e-mails de clientes e matar o tempo livre até as 17 horas como preferisse, desde que fosse discreto. Sendo aquela uma típica equipe corporativa, lá havia quem se ocupasse com jogos on-line, havia também os adeptos da rede de notícias que não interessavam a ninguém e, claro, havia a velha guarda responsável por desenterrar e disseminar piadas de todos os gostos, principalmente as de mau gosto. Antes do afastamento, Leandro costumava ser do tipo versátil, transitava por todos esses grupos com fluência. A repercussão era sempre fenomenal, nunca rendia menos de cinquenta adoreis, e isso num dia fraco.

Desta vez, pela falta de prática, ele começou tímido, adorando memes de seriados nostálgicos, até ganhar autoconfiança suficiente para se arriscar em águas mais profundas. Até que não demorou muito. Antes do meio dia, ele já tinha compartilhado o resultado de um quizz sobre qual posição do Kama Sutra ele era, reclamado do trânsito (ou foi da chuva? ou foi da política? ou foi das pessoas que só reclamam?) e confirmado presença em cinco festas de aniversário, todas agendadas pra um mesmo fim de semana. A glória não tardou. O messenger do celular apitava a cada 9 ou 12 segundos, a galera toda feliz com o retorno dele, fazendo convites para eventos espetaculares. Vai ser estupendo, vamos nos acabar, vai, vai, vamos. Até o Jeff, que é um cozido, se animou de ir. Nenhuma pergunta, nenhuma menção ao nome proibido. Lembrou o que a vida costumava ser: sorrisos, brincadeiras, possibilidades.

Da mesa ao lado, eu vim acompanhado em tempo real o retorno triunfante do estagiário. Agora são nove e trinta e cinco da noite, o garoto está na aula de Teoria das Cores, pelo menos foi o que notificou pelo MeSpie. Apenas este reles redator-júnior permanece na agência, meio que trabalhando como pretexto pra prolongar a vigília da vida alheia, agora on-line. Umas poucas luzes acesas no andar, o barulho do trânsito já quase imperceptível pra um indivíduo ensurdecido pela metrópole, opa, hora de ir para casa. Antes de sair, anoto em meu caderninho:

Distraídos venceremos.

Sacada genial. Checar se já não escreveram algo parecido. 

Comentários

  1. Algum motivo pra não usar marcas reais? É pra dar um ar de realidade alternativa a todo esse universo?

    Outro ponto que achei confuso foi a voz do narrador. Até agora vc vem variando entre primeira e terceira pessoa, mas nesse você mistura. Eu aposto que você deve estar usando a terceira voz, na verdade, como a primeira do personagem "principal". Mas, a não ser que tenha um plot twitst lá na frente, tornando-o onisciente, ou talvez póstumo (tem essa trope que mortos sabem de tudo, né), acho que ficou meio confuso, porque a terceira voz narra coisas que o personagem não saberia.

    P.S. No nosso universo, o pessoal não usa PC como sinônimo de Macbooks (apesar de serem conceitualmente PC - personal computers). Vc não deve se lembrar, mas tinha toda uma gama de propagandas da Apple de Mac vs PCs - https://www.youtube.com/watch?v=0eEG5LVXdKo

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    1. Obrigada pelo esclarecimento da cultura computacional, vou consertar isso.

      Qt a mudar o nome das marcas, é um motivo muito besta, mas vá lá: eu amava qd faziam isso na Turma da Mônica. É só uma piada pessoal bem pueril mesmo.

      Por fim, o narrador... Não sei se deveria explicar, mas já que vc é o único leitor... Ele é sempre em primeira pessoa. Às vzs parece ser terceira, pq ele não está em cena, mas fique atento. É tipo um dr. Watson.

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    2. Ah, sim. Lembrei q tem um pequeno complicador... Além do narrador em primeira pessoa, q é sempre o mesmo, uso discurso indireto livre, isto é, reproduzo pensamentos de personagens sem marcar separação por aspas ou travessão, misturados na voz do narrador. O negócio é não encanar tanto, só deixar fluir. Afinal, qual o limite entre o eu e o outro?

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    3. Vamos ver onde vai. Mas já adianto que não sou fã desse deixar fluir. Saramago deixa fluir e é horrível de ler. Compensa, porque suas histórias são ótimas, mas é um porre ler sem acentuação, no caso dele.

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    4. Pois é, seu comentário me deu um frio na barriga aqui. Será q não fui excessivamente pretensiosa na técnica? Será q vou conseguir compensar o leitor pelo trabalho?

      Uma coisa q me faz desgostar um pouco do livro hj em dia é q ele vai ficando cada vez mais pós-moderno. Acho q tinha acabado de ler "Zero", do Ignácio de Loyola Brandão e me empolguei demais... A vantagem deste é q é hilário. Agora, eu conseguirei provocar algum riso ou qlqr emoção?

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  2. Gostei da subversão do dito popular ao final. Eu achei que nos últimos capítulos, ficou mais fácil acompanhar a alternância de narradores e de personagens nos capítulos.

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    1. Com o tempo é pra ficar mais óbvio, eu só não quis explicar td de cara, pq eu mesma odeio qd uma narrativa é mt didática. Gosto de ter os pequenos prazeres de ir descobrindo sozinha.

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