Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 28)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.


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28. Inara (1)


A primeira vez em que Inara apareceu na TV foi uma choradeira só, antes, durante e depois. A avó a levou a um desses programas de auditório em que o povo lava a roupa suja ao vivo e a cores, uma fase triste da mídia brasileira que teve seu pico ali pelo fim dos anos 1990 e que, esperamos, deve se extinguir a qualquer momento, assim que o bom senso se tornar lucrativo. O tema daquele dia era “Você que fez, você que crie”. O “você”, no caso de Inara, seria mais correto no plural, porque se referia ao pai e à da mãe da menina, que sumiram no mundo e deixaram o pepino para a avó. O pepino era Inara, que, há de se admitir, não era de todo ruim, criança obediente e tudo o mais. O problema era isso de ela precisar comer, vestir e calçar, que demandava um dinheiro que a velha não tinha.

A participação no programa surgiu como uma oportunidade de compensar os onze anos de prejuízo. No melhor dos cenários, algum dos dois irresponsáveis voltaria para buscar a filha; no pior, havia o cachê, que não era de se jogar fora, cinquenta reais numa época em que isso era quase metade do que se ganhava por um mês de trabalho duro. A apresentadora, um mulherão que gritava sem parar “desce o cassete nesses vagabundos”, facilitou a vida de Inara, inspirando nela um choro verdadeiro do jeitinho que o moço da produção tinha mandado. Em casa, ela esperou ansiosa pela volta dos pais e, quando entendeu que isso nunca aconteceria, consolou-se pensando que ela pôde ficar com o vestidinho vermelho do programa, que lhe serviria ainda por três anos, já que era de constituição miúda. Ela ainda o guardaria de herança para a filha hipotética que criaria com muito amor, sem depender da ajuda de ninguém.

A segunda vez de Inara na TV nem se compara com a primeira, foi o momento mais feliz da sua vida. Um cantor simpático a levou para fazer compras no shopping. Eram tantas sacolas que nem conseguia carregar sozinha! Depois, ao abrir todos aqueles pacotes chiques em casa, viu que usavam uma baita embalagem para uma blusinha, outra maior ainda para um único shortinho, tudo para simular o tal volume que enchia os olhos de quem via o programa. Não fazia mal, ainda era bastante coisa bonita. E mais o salão de beleza e mais o jantar romântico e mais o apresentador dizendo e cantando o quanto era lindo o nome dela. Chorou de felicidade desta vez.

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