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Mostrando postagens de maio, 2021

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 19)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 19. Lila (1) Apesar da obviedade, poucos deduzem que Lila vem de Dalila. A mãe ouviu o nome num filme antigo da TV, ficou fascinada com a figura daquela mulher belíssima que derrotava o grande herói. Traidora aos olhos de Deus. Essa mesma mãe, que nomeou a menina, mas que nesta narrativa não terá direito a nome próprio, morreu de desgosto, segundo dizem. Para o mundo, foi como se nunca tivesse existido, tendo consumido a vida em trabalhos duríssimos na Califórnia e arredores – a cidade paranaense, não o estado gringo. Desde a infância, trabalhou de empregada em casa de gente rica, onde teve notícia do aparelho de televisão já na década de 1960. O diabo era o marido, que bebia não só o salário dela como a alma das mulheres da família. Os filhos homens f...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 18)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 18. Natália (3) — Você ficou sabendo que o Vítor vai casar? Ninguém mandou engravidar a namorada! Minha mãe disse que não quer saber de criar neto, que é pra ele arrumar um emprego e se virar. Meu pai nem falou nada. Depois do caso da Paty Pistoleira, ele fica bem quieto, senão também vai ter que ouvir a mesma coisa: que é para ele arrumar um emprego e se virar pra pagar a pensão. Até o Luís tá firme no namoro. Fiquei oficialmente pra titia. Não estou reclamando, nada disso. Ganho bem no banco, trabalho só seis horas por dia. Quando chego em casa tenho uma TV enorme me esperando com todas as séries que eu gosto, um vinhozinho argentino. Pra que vou querer homem? Outro dia, sabe quem me mandou um e-mail depois de mil anos? O Manuelzão. Sim, o próprio. Disse qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 17)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 17. Natália (2) Romualdo, o pai de Natália, venceu uma ação contra o filho da puta do jornalistinha de merda que fodeu com a vida dele e, do dia pra noite, a família ficou rica, ou quase isso. O caso se arrastou anos na Justiça. Nem a filha mais velha, embora conhecesse de cor as alcunhas pouco elogiosas atribuídas ao adversário, sabia o motivo daquele ódio todo. Só compreendeu que eles se mudariam para um apartamento grande, comprariam um carro importado, e ela ganharia um computador novinho só seu. Achou tudo isso muito bom. Acreditou até que a família tinha se tornado mais pacífica, sem saber que o nome completo dessa paz era Patrícia Ezequiel, 19 anos, a novíssima amante de Romualdo. Fosse por provocar prazer ou culpa, a moça contribuiu para torná-lo um p...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 16)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 16. Natália (1) — O jogo é assim: o chinelo é a trave, e quem faz gol vira goleiro. Se passar em cima do chinelo, o gol não vale, porque tem que fazer de conta que é a trave, que nem no jogo de verdade – explica Natália pro irmão Vítor, três anos mais novo do que ela. – Vai pra lá, eu começo chutando. — Você é muito ruim, só chuta pra fora! E eu odeio ficar no gol. Não quero jogar com você, sua burra! Prefiro mil vezes chutar a bola na parede sozinho. Vai embora! — Nem começa, Vítor. Você não lembra o que a mãe disse? Desde a última vez que você fugiu de casa, você não pode mais descer pra brincar no parquinho sozinho. É isso ou nada. Natália tem nove anos e sua principal função na família é cuidar dos dois irmãos menores, além de tirar notas acima da média, ...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 15)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 15. Desirée (3) Diário de viagem Paris, 23 de janeiro de 201X. Li em algum lugar, acho que foi na revista da Tantã, que o número de turistas em Paris é superior ao de habitantes. E cá estou eu reforçando essas estatísticas. O que torna Paris o destino predileto de nove em cada dez viajantes? Bela cama, bela mesa e nenhum julgamento se você pular o belo banho. O humor local deixa a desejar, admito, mas as possibilidades de romance são infinitas. Apaixonar-se em Paris, que sonho de consumo! Os pombinhos enamorados são tão imprudentes no uso do cartão de crédito... Portanto, amemos! Em nome do superávit, amemos! Os cenários amorosos são reconhecíveis dos inúmeros filmes e livros românticos devorados, tudo tão planejado e funcional. Até o encanto daquela chuva qu...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 14)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 14. Desirée (2) É a terceira conversa, só neste mês, que a irmã-coordenadora-pedagógica tem com Desirée, desta vez acompanhada pela irmã-psicóloga. Simplesmente inaceitável! Onde já se viu uma garota de quatorze anos andar com os olhos carregados de lápis preto? Nós já não conversamos sobre isso? Sim, irmã. Então, por que você continua a me desobedecer? Este é um colégio respeitável, não uma discoteca! E todas essas correntes com símbolos pagãos? É o ankh, símbolo egípcio da morte. Antes que a pedagoga explodisse de vez, a psicóloga, que se chamava Marta, pediu para conversar sozinha com a aluna.  Você pensa sempre na morte, Desirée? Acho que tanto quanto todo mundo. E como você imagina que seja a morte? Simpática, reconfortante. E a vida, como você a vê...

Elegia da gente viva (parte 3, capítulo 13)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** PARTE 3: CONTAS *** 13. Desirée (1) Desirée significa desejada em francês. A pessoa certa no tempo certo, doce e delicada donzela. Mas o nascimento da criança dourada não foi suficiente pra salvar aquele casamento. A filha única ficou morando com a mãe, que se casou de novo (antes que os peitos caíssem, um dia a ouviu contar, meio bêbada, a uma amiga) e teve mais três filhos (daí caíram de vez, os peitos). A criançada justificou a longevidade do segundo casamento, o divórcio sairia caro demais enquanto os três não concluíssem os estudos.  O pai de Desirée arrumou um emprego que lhe permitisse viver sem conexões com ninguém, embora sempre em conexões, com o perdão do trocadilho: virou assistente de bordo, vulgo aeromoço, num tempo em que isso era rar...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 12)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 12. Fantasma Um mês impecável. A relação com a família vai bem, os amigos estão sempre por perto, não há trabalhos pendentes, o corpo esbanja saúde, a mente atua sem sobressaltos. Até inventa um ou outro pequeno dilema para contar à sua terapeuta e assim fazer valer o preço da sessão. Parece que mês que vem vai subir 15%, a inflação está cruel, sabe como é. Precisa avisar a mãe pra mandar mais dinheiro. É possível ser sempre assim, tudo no lugar? Melhor não tocar no assunto pra não atrair más energias. Os problemas são criações nossas. As situações por si só não significam nada, a gente é que atribui valor positivo ou negativo a elas. É preciso tomar as rédeas, parar de sentirmos pena de nós mesmos. Leandro acredita ter enfim decifrado o mundo. Vive satisfeit...

Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 11)

  Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique  aqui . *** 11. Fãs Site da revista Atabaque, seção “Mural dos leitores”, abril de 201X. (A revista não se responsabiliza pelo teor das mensagens publicadas nesta seção) Obrigados (sim, permito-me falar em nome de todos os leitores), editores da revista Atabaque, por esta gaia surpresa! José Reynaldo enfim rompeu seus 25 anos de silêncio. Será esse o reinício de um diálogo com o público e a mídia? Gostei de constatar que, embora tivesse garantido o direito de não responder às perguntas que o desagradassem, o grande escritor não abusou do privilégio. Ele foi sensível e cínico nas respostas, combinação improvável que faz dele um artista genial. Como estudante de Letras, fiquei muito honrado de saber que ainda há escritores que valorizem o papel do crítico. Penso em ...