Postagens

Mostrando postagens com o rótulo relacionamentos

Comentários aleatórios sobre “Master of none” (poderia ser uma resenha se eu estivesse mais empenhada)

Imagem
Começo esclarecendo que não gosto de seguir séries. Já fiz muito isso no passado, mas não me sentia bem, pois sabia que, mais do que um hobby, era uma forma de evitar algum problema maior: eu só deitava no sofá e deixava o dia passar, entretida demais para ter pensamentos obsessivos. No fim das contas, ver séries não era muito diferente de me entregar a joguinhos de frutas, compras online, aplicativos de encontro... todos meios de dar asas à ansiedade e à compulsão, ainda que disfarçados de atividades felizes e produtivas. Apesar dessa objeção, admito que há algumas poucas séries que ultrapassam a barreira do entretenimento compulsivo e conseguem ter um efeito mais duradouro sobre mim, flertando fortemente com o cinema de qualidade. Fazem isso não no atacado – como “Friends”, em que aqueles personagens se tornam tão presentes na nossa vida que a gente desenvolve uma bizarra familiaridade com eles –, mas no varejo, com episódios tão bem executados que a gente precisa de uns minutin...

Diário da crise existencial (os falsos aliados)

Só Deus sabe o quanto nesta vida resisti à tentação de dar indiretas nas redes sociais, mas esta mensagem será bem direta. Digo-a em prol da minha sanidade mental, não por algum tipo de vingança. Uma breve contextualização. Quando a gente está passando por uma longa fase depressiva, lutando para reconstruir uma existência neste mundo, tende a buscar ajuda em vários lugares, até obsessivamente, porque a gente não consegue ficar sozinha com os próprios pensamentos -- eles são tão terríveis que precisamos nos distrair de nós mesmos. O problema é que, na hora do desespero, podemos recorrer a pessoas que não querem o nosso bem, são os falsos aliados. Essas pessoas tentam tirar alguma vantagem da nossa vulnerabilidade e, após conseguirem ou porque não conseguiram e começa a ser muito trabalhoso insistir, desaparecem, fazendo a gente se sentir ainda mais abandonada do que já estava inicialmente. Felizmente, estou vacinada contra esse tipo de pessoa e, quando isso acontece, eu tento me des...

Como encontrar um bom companheiro

Imagem
“Melhores sites de encontro”, “Como conhecer homens”, “Sites de encontro para pessoas inteligentes”, “Experiências afetivas autênticas”. Acabo de confirmar que o Google não tem resposta para tudo, ao menos não conseguiu responder a essas pesquisas satisfatoriamente, por isso escrevo este texto. Quando vocês fizerem as tais buscas e também se frustrarem com os resultados, me encontrarão aqui, igualmente frustrada, então poderemos sentar e conversar sobre aquilo que nos chateia ou só ficarmos em silêncio, nos sentindo menos pressionados ao perceber que esse não é um problema exclusivo nosso. Talvez esta seja até uma das grandes questões do nosso tempo. Podem estranhar: encontrar namorado é a grande questão da atualidade? Não diretamente, mas tem relação, sim, já explico. Não é segredo para ninguém que as redes sociais atingiram seu sucesso com base na solidão e nas inseguranças de seus usuários. Basicamente todos se sentem mal com relação à própria vida em algum momento (ou quase se...

Minha súdita

Imagem
Outro dia assisti ao filme “Meu rei” por indicação de um amigo. Perguntei de que se tratava, ele disse que era um drama francês sobre relacionamentos. Com essas indicações vagas, comecei a vê-lo. As primeiras cenas mostram uma mulher fazendo tratamento para recuperar o joelho (são cenas fortes, demos graças a Deus pelos ligamentos sãos que evitam nosso joelho de dobrar para frente...) e essa mesma personagem cerca de dez anos antes, quando ainda não era mãe. Seu nome é Toni, ela é advogada, parece divertida e segura de si. Na fase da juventude, ela conhece Georgio, formando aquele casal autêntico, cujos encontros iniciais são meio doidos e que a gente acompanha com um sorriso no rosto. Assim segue a narrativa, intercalando o presente (tratamento ortopédico) e o passado, que vai avançando ao encontro do momento atual. O espectador rapidamente entende que essa é a história de como aquele relacionamento começou e se deteriorou. Não posso reclamar de propaganda enganosa, de fato, tr...

Abortos: Ainda Otelo

Eles se amavam loucamente. Às vezes, a ausência do outro chegava a doer no peito e era preciso pegar o telefone, não importava a hora, para dizer “vem logo”. Ronaldo achava Joyce a mulher mais incrível do mundo, a ponto de redimir qualquer clichê amoroso. Não entendia a ausência de filas de pretendentes à porta dela e começou a desconfiar que elas se formavam às escondidas. A jovem também tinha seus aborrecimentos: amar homem bonito é uma responsabilidade e tanto, o mundo todo esperando que ela deslizasse e libertasse o Adônis, mas levava como podia, ignorando os olhares de cobiça sobre o namorado. Ele é que não se saiu tão bem, o ciúme o tornou ríspido. Em sua cabeça, tinha certeza de que era traído. Chegou a desabafar isso para o colega de faculdade Igor, que, por seus próprios motivos, reforçava os xingamentos àquela “vadia”. Diante da mudança de comportamento do namorado, Joyce também acabou mordida pela desconfiança e começou a investigar. Igor, Igor, o nome vivia na boca dele... ...

Abortos: O bolo

Na cozinha quente e perfumada pelo bolo no forno, dois namorados aguardavam. Olívia checou a massa, ainda crua, enquanto André discursava sobre coisas que não eram ouvidas. Era a primeira vez em muito tempo que passavam uma tarde a sós. Os 40 minutos previstos para o cozimento se estenderam para uma hora, forno imprestável! O menino não calava a boca e o maldito bolo que não ficava pronto nunca, Olívia pôs o fogo na temperatura máxima. Dez minutos depois, o casal encarava dois carvõezinhos em pratos de porcelana. Ele comeu tudo e ainda pediu mais. Ela se negou a concordar com aquele absurdo, mandou-o embora. Faz um mês que ninguém cozinha nada, mas o cheiro de queimado continua impregnado nos azulejos da cozinha. -- Da série "Abortos", leia também: Primeiro amor Eternidade 72 horas A um passante Festividades Curto e grosso Cegueira Volta Aparição Amor livre Bad reputation Maiores de idade A terceira Dai as mãos

Abortos: Eternidade

Osvaldo e Luana namoravam há nove anos. Mas não pensem que adiavam o casamento para aproveitar infinitamente a vida de solteiro! Ninguém sequer esperava que os dois subissem no altar tão cedo, afinal, tinham apenas 23 anos. Conheceram-se no jardim de infância e desde sempre formaram uma boa dupla, engraçados e desprendidos, topavam todos os convites. Diziam as boas e as más línguas que eles haviam descoberto o Santo Graal dos relacionamentos. Quando alguém perguntava o segredo, eles contavam que só faziam o que tinham vontade e, de alguma forma, isso funcionava. Numa daquelas tardes sem muito assunto, o casal começou a fazer contas, meio na brincadeira: “já passamos quase metade da nossa vida juntos”, “poderíamos ter tido um filho que, a essa altura, saberia escrever”, “ou oito filhos”, “ano que vem completa uma década de namoro, dez anos, você pode imaginar?”. O fato soou terrível. Poucos dias depois, eles terminaram. A pior parte foi inventar uma justificativa para dar aos amigos i...

Abortos: Aparição

Tristão, cansado de ser um sacana fodido eternamente de ressaca, rendeu-se à sociedade. Parou de faltar nas aulas, aderiu aos banhos diários, arrumou um estágio. Para o pacote ficar completo, só lhe faltava uma namorada de boa família. Mas isso já estava encaminhado: há tempos observava Lílian, tão rosada que parecia feita de uma substância impermeável à sujeira. Ela gostou do jeitinho vagabundo dele por baixo da crosta de bom moço, entenderam-se. Ao cabo daquela primeira semana de romance, ele confessaria aos colegas de bar que estava perdido, condenado a agir certo. Resistiu aos maus instintos o quanto pode, mas, um mês depois, quando a moça lhe disse “eu te amo”, ele surtou. Sumiu por seis dias, voltou todo estropiado, nunca mais procurou Lily, que agora estava mais pra amarela do que pra rosa. E haja tática de guerrilha para evitá-la, pois essa daí agora passava quatro horas todo dia, divididas rigorosamente em dois turnos, sentada na porta do prédio dele. Eles até se toparam algum...

Abortos: Amor livre

Um mês saindo juntos, a coisa se encaminhava para um namoro. Bebeto pensou em aproveitar a data para fazer o pedido formal a Antônio. Na manhã do grande dia, ele não se aguentou e contou suas intenções para metade dos colegas de escritório, virou um happening na hora do cafezinho, quem não gosta de um segredo coletivo? O incentivo foi unânime, jovens e bonitos daquele jeito tinham mais é que oficializar a relação, um desperdício que não pudessem também gerar filhos! No dia seguinte, o pessoal clamava pelo relato completo. Bebeto, então, revelou todos os detalhes da noite passada: como quem não quer nada, ele começou perguntando se os dois estavam saindo só um com o outro. Para a surpresa dele e de todo o escritório, a resposta foi “não”, completada por um “estamos de boa” – seja lá o que isso signifique. O jovem apaixonado se achou ridiculamente ingênuo por ter cogitado um namoro, nem chegou a fazer o pedido e, para não ficar para trás, começou a sair com outras pessoas. Isso magoou An...

Abortos: Bad reputation

Quando uma fêmea passava por Alex, os olhos se arregalavam, as narinas farejavam, as unhas se atiçavam. Típico lobo mau. Antes de terminar o chocomilk matinal, ele já havia escaneado todo o pátio do colégio e selecionado as potenciais vítimas do dia. Desta vez, arriscaria um golpe mais ousado: infiltrar-se na roda das Lovely Lambs, as cinco bad girls do último ano. Elas ostentavam make-up completo às 7h15, fumavam e só saíam com homens mais velhos. No recreio, a abordagem do calouro foi fina, bem bolada: “Alguém afim de fumar um depois da aula?”. Ele entrou para o grupo imediatamente. Naquela semana, dormiu cada noite na casa de uma delas, moças insaciáveis. Na sexta-feira, elas morreram de rir ao constatar que ele ainda vestia a roupa de segunda. Passados sábado e domingo, Alex naturalmente quis recomeçar o rodízio. Elas, por sua vez, gozaram da ingenuidade dele: figurinha repetida não enche o álbum, filho. Ele saiu com o rabo entre as pernas. O que lhe sobrava em desejo, faltava em e...

Abortos: Maiores de idade

Qual é o oposto de pedófilo? Janaína era essa palavra que falta ao nosso vocabulário. Ela dizia coisas como “adoro uma barba grisalha”, “olha que charme esse suéter bege”, “ai, que sexy a tossinha seca dele, tão subversiva”. Bom, fetiche é fetiche. Aos 25, casou-se com Mário, que estava no auge de seus 68. Bem que a mãe alertou, mas a moça foi teimosa, e ninguém se espantou quando ela comunicou estar arrependida da união apressada, exceto pelo motivo: Jana viu no baile do Carinhoso uns oitentões bem pimpões – por que diabos quis sossegar tão cedo? O marido, ciente do preço de sua sorte, comparecia todos os dias com flores e carícias, amante à moda antiga. Quanto mais ele agradava, mais ela se irritava. Se quisesse um homem tão ativo, tinha escolhido um rapaz da idade dela. Mário respondia que, se quisesse uma esposa tão ranzinza, tinha continuado com a ex-mulher. Ele logo encontrou consolo nos braços de Mara, 77, assídua frequentadora do Carinhoso que esperava por essa chance há pelo m...

Abortos: A terceira

Georgette dizia que nunca teria filhos. Arruinava o corpo, favorecia que o marido olhasse para as sirigaitas. Ela chegou aos 35 anos em boa forma, o que não impediu Robson de traí-la às vésperas dos dez anos de casamento. Pior foi o amadorismo dele, com camisinhas esquecidas no carro, SMS comprometedores de um tal de Nicolas, que na verdade era Nicole, e tudo o mais. A separação foi imediata, só não foi mais rápida que a saudade que se seguiu. Georgette logo cedeu aos convites do ex-marido para aquele restaurante romântico, um motelzinho quatro estrelas e, quando percebeu, estavam namorando. Se aquela situação já não parecia bastante juvenil, piorou quando constataram a gravidez acidental. Robson se sentiu aliviado com a notícia: ser namorado, amante e Dom Juan aos 49 anos dá um trabalhão, ele enfim poderia voltar a ser apenas o marido. A futura mamãe, por sua vez, entrou num estado de choque que só foi piorando. Sempre haveria alguém entre o casal. Se não fosse a amante era a criança....

Abortos: Dai as mãos

Tônia se sentia abençoada. Vivia um daqueles raríssimos primeiros encontros sem medo ou mentira – imaculado. Noite quente, conversa farta, as sardinhas dele no nariz, uma vontade de amor incondicional despertada pelo filme do Wes Anderson. Agora caminhavam pelo calçadão vazio, o barulho da bicicleta levada de lado lembrava o do projetor. A menina desempenhava seu papel confiante, relaxou até demais, cedeu ao diabo, agarrou a mão do amigo. Corta! Oh, horror, o que eu fiz, meu Deus? Ela soltou no susto, quis morrer para não ter que explicar. Desculpa, desculpa, sei que é muito cedo, não somos namorados. Tiago ainda riu, disse que dar as mãos não era pecado, mas a infratora assumiu a culpa irredutível, exilou-se em si mesma. O jeitinho bobinho dela o fez sorrir. Se ela não tivesse arrancado os próprios olhos, talvez tivesse notado. Ele quis ampará-la, mais de uma vez procurou a mão dela, que sempre fugia, não precisava da piedade de ninguém. No fim, nem a lua onipresente no céu pôde trans...

Como se dar bem

Faz o seguinte. Pega uma mina insegura e dá bola pra ela, assim de leve. Quase toda gostosa se odeia, se acha feia-chata, tá louca por um pouco de tapa na cara dum cachorrão que nem você. É fato. Aproveita, cara. É o que todas elas querem. Até as que não parecem são umas vadias loucas. Daí você faz aquela função, passa o fim de semana junto, fala dos assuntos dela, olha no olho, dá um pouco do mel pra ela provar. Tá me acompanhando, né, nem preciso dizer mais nada. É isso aí. Faz ela acreditar que você tá abrindo mão do seu precioso tempo livre por ela. Não tem erro. Só não esquece de deixar bem claro que você gosta dela apesar de ela ser a merda que é. Vai semeando, dizendo que o mundo inteiro lá fora não presta, que só você se salva, que ela tem sorte de tá perto, que nem você entende o que tá acontecendo, mas que você é verdadeiro demais pra ir contra, vai indo de boa, só você sabe o que é a vida, o que fazer com ela. Ensina ela quem manda, quem é a pessoa interessante da relação e ...

O homem perfeito

Imagem
Para compensar o longo período de ausência, vou conceder aos meus três leitores uma dose de humor autodepreciativo e exposição excessiva. Vocês já estiveram naquela fase “vi tudo, fiz tudo, as pessoas me entediam”? Tenho vivido esse limbo nos últimos meses. Daí fiquei pensando no porquê de as pessoas em geral, e os possíveis pretendentes em especial, me entediarem tanto. Para ganhar minha admiração, alguém precisa colecionar uma série de qualidades, mas nenhuma delas deve ser extremada. Eu especifico melhor nas linhas a seguir Ser inteligente, mas não CDF. Consumir alta cultura, mas não ter nojinho de entrar em boteco. Ser asseado, mas não maníaco por limpeza. Ignorar a moda, mas não se vestir de forma vergonhosa. Ter uma personalidade interessante, mas não jogar joguinhos. Ter um lado espiritual desenvolvido, mas não ser carola. Ser zen, mas não bicho grilo. Ser paciente, mas não passivo. Ser bonito, mas não do tipo que para o trânsito. Ser cavalheiro, mas não a...

Sobre a solidão

Imagem
(Antes de tudo: eu já escrevi sobre esse tema aqui? Aposto que sim. Só espero não repetir argumentos. Se contrariar afirmações passadas, tanto melhor; significa que estou viva. Acho que quando a gente não se dá mais o direito de mudar de opinião, daí, meu caro, é velhice na certa, e do pior tipo: aquele que atinge todas as faixas etárias. Há quem seja acometido por esse mal aos vinte anos e atormenta as pessoas ao redor durante décadas infindas.) Fato um. Há algumas semanas, um menino me disse que a solidão era uma condição permanente e que não poderia ser remediada nem com a presença de outras pessoas. Tão pouca idade e já pessimista assim! Se bem que eu também pensava coisas desse tipo na adolescência, época tão radical. Se a vida adulta tem uma vantagem é a capacidade de olhar para as coisas com mais suavidade, sem fazer tempestade em copo d’água. Mas suprimi tal comentário para não aumentar o abismo entre nós. À toa: o abismo já estava estabelecido. Fato dois. Primavera nes...