Postagens

Uma opinião sobre o aborto em mais de 140 caracteres

Enquanto todo mundo discute a questão do aborto nas redes sociais, eu fujo de me posicionar ali, pois, inevitavelmente, a gente acaba sendo tachada disso ou daquilo antes mesmo de apresentar qualquer argumento para defender um ponto de vista. Prefiro escrever neste espaço que acessa só quem quer, sem forçar amigos, colegas e familiares a curtirem minha opinião para que eu descubra se ela (e, consequentemente, toda a minha pessoa) é válida ou não. Nada disso. Estou segura desde já de que construí uma posição sólida, porque pensei com seriedade sobre o assunto, permitindo-me mudar de ideia quando apareciam dados convincentes e, claro, continuo aberta a ouvir outras perspectivas que apresentem informações de fonte segura para respaldá-las. Por muito tempo repeti: sou pessoalmente contra o aborto, não o praticaria em nenhuma circunstância nem incentivaria uma mulher próxima a cometê-lo, mas quem sou eu para determinar o que as outras devem fazer? Portanto, se uma mulher decidir isso para...

CEPíada (epopeia de uma jovem professora)

Imagem
Homenagem aos 170 anos do Colégio Estadual do Paraná ― Filha, não vá nesta jornada! A luta é árdua –                           chorou-me a mãe. Súplica vã:                           jovens são surdos. ― Mestre sou, eu sei, mudo tudo. Pura arrogância, mudei nada. Emudeci.                           Faltou-me esteio, fugi rasteira.                           Estudo indigno foi que aprendi a amar nos livros? Após quimeras e ciclopes, mais favoráveis                           ventos sopraram. Olhos pousaram                           numa torre alva. Depus as armas, vi-me salva. Este...

Discurso de formatura

Homenagem a Deus (discurso apresentado na colação de Letras da UFPR, turma 2/2015) Como estudiosa da língua, estou ciente de que os discursos não são neutros, e sim marcados ideologicamente. Por mais que desejemos representar o todo, somos limitados por nossa história. Essa limitação humana provoca divergências até nas questões mais fundamentais. Por exemplo, a experiência do divino. Ao tentar expressá-la, acabamos nos desentendendo. O que é o divino? Onde ele se manifesta? Como devemos nos relacionar com ele? São muitas as respostas. Poderíamos passar eras discutindo, como muitos já fizeram e ainda fazem, sem descobrir qual é a certa. Deus se comunica conosco em diversas línguas, e mesmo que alguns de nós sejam poliglotas, muitas vezes somos incapazes de ouvir ou não sabemos o que fazer com aquilo que nos foi dito. Eu venho aqui numa postura humilde, assumindo a possibilidade de estar errada, e desde já peço desculpas se minhas palavras não derem conta (e certamente não darão) d...

Mundo Chernobil

Agora em abril a Companhia das Letras lança “Vozes de Chernobil”, a tão esperada estreia de Svetlana Aleksiêvitch, a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, no Brasil. Tomei conhecimento pela revista piauí, que divulgou um trecho da obra na edição de março. Achei excelente essa prévia, tão excelente que, se eu ler o livro na íntegra, talvez nunca mais funcione. Explico melhor. A jornalista bielorrussa não apenas expõe o horror daqueles que testemunharam o desastre em 1986 como reflete sobre o abismo para o qual estamos todos caminhando. Nas palavras da autora: “Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro”. Que abismo é esse? Um mundo construído por nós mesmos e que nos expulsa. Evoluídos, sofisticados, nós conhecemos os termos científicos que explicam todo o processo da enrascada, sem entendermos o que é essa nova realidade. Apenas seguimos e reagimos, fazendo o que temos que fazer. Construir uma redoma para isolar a fonte radioativa. Construir hospitais para isolar ...

Por uma alimentação melhor

Na infância, minha dieta se constituía de leite com Quick Morango e mais uma colherada de açúcar, gelatina do Bocão coberta de leite condensado, Tang, sopa instantânea Knorr, Choco Krisps. E essa era a parte nutritiva, conforme anunciavam os rótulos de que nunca duvidávamos: “fonte de vitaminas e sais minerais”. Depois ainda vinham os salgadinhos e as sobremesas, ingeridas pelo simples prazer gustativo: Cheetos, sorvete Kibon, bolacha Bono, bombons Nestlé. Os refrigerantes foram os únicos que não conseguiram enganar minha mãe e, felizmente, não entravam em casa. Mais tarde, já adulta e influenciada pelo crescimento do discurso pró-alimentação saudável, substituí essas coisas por Chocolate em pó Dois Frades, pudim de aveia Quaker, suco de soja Ades, chá gelado Lipton, barra de cereais Nutry, bolo integral Nutrella, granola Kellogs. Achava que assim havia revolucionado minha alimentação, que me tornaria mais saudável. Eu havia sido uma criança meio adoentada, sempre a primeira vítima d...

Uma ideia para a educação

Outro dia me ocorreu que é preciso ter coragem para fazer mudanças radicais no sistema de ensino, coragem que ninguém teve até agora. Por enquanto, ficamos em timidezes como aumentar o repasse nacional de verbas (e, logo depois, cortar), implantar um currículo parcialmente unificado (ainda em discussão), incentivar professores a se afastarem para especializações, sendo que, quando voltam para a sala de aula, reencontram as mesmas condições de trabalho e precisam se readaptar a elas. Não é isso que vai criar uma pátria educadora. Na verdade, essas pequenas mudanças são apenas um alívio de consciência para os gestores de educação – para não os acusarmos de não terem tentado. Sequer chegam a tocar no problema maior: nosso sistema de ensino básico, e até o técnico e o superior em muitos casos, é uma linha de produção. Às 7h15, uma dose de binômio de Newton; às 8h05, um toque de fenóis; às 8h55, uma amostra dos milhares de tipos de concordância verbal de sujeitos compostos; às 9h45, atual...

Para que servem os professores de português?

Examinando um site de concursos públicos, constatei que a demanda por professores de ramos técnicos e científicos é muito superior às vagas de língua portuguesa, justo essas que eu procuro. Após desistir do jornalismo, devido ao encolhimento da mídia impressa e ao meu desinteresse por comunicação empresarial, encarei uma segunda faculdade (Letras) e, às vésperas de me formar, levo esse baque de novo. Ora, eu tinha raciocinado quatro anos atrás, enquanto o ensino básico fosse obrigatório e o português integrasse o currículo, professores seriam sempre necessários! Parece que não. O principal motivo, pelo menos aqui no Paraná, é a bancarrota do Estado. Embora o déficit no quadro de docentes já tenha sido denunciado, inclusive um dos motivos para a greve histórica deste ano, não há previsão de novos concursos. Sabe-se lá Deus como os colégios estaduais estão lidando com essa situação. Alunos me relataram caso de professor de geografia dando aula de filosofia, então, já dá para ter uma ...

Os Arnolfini

Imagem
Mulher vestida de azul e lenço branco,  Não fossem manto de veludo verde,  Metais no punho e no pescoço, rendas,  Na Renascença, a virgem Mãe seria – Adolescente com tão dura sina. Toma-lhe a mão o homem que compra tudo. Noiva amorosa a se entregar inteira A tal sujeito, Carniceiro-Mor.  E o troco dele? Nem sorriso volta.  Rico não sofre culpa: pilha ouros,  Assina acordos, tranca em cofre todos.  Cada estação, o homem só veste luto. N’águas vermelhas, ela nasce Vênus. Promessas velhas renovadas sempre – Todo o poder e a glória, a prole e o nome. Nem assim fica satisfeito, o rico Não ri. Até afeto poupa o rídico. Salve esta bela união: bens conjuntos. Graça da casa, o cachorrinho dela,  Atrevidinho vem, amor da moça.  Mete-se à frente de qualquer humano,  Hierarquia interespécie ignora. “Nojo me dá tanto xodó, senhora”. Nada suporta um homem tão casmurro.  A dama brilha no pincel do intruso,...

O estranho

Dentro de uma galeria comercial, dessas que cortam prédios ligando duas avenidas, descobri uma pequena lanchonete. Deve ser suja – não era. Então deve ser cara – também não era. Fiquei. Pedi pão-de-queijo e laranjada e me acomodei numa mesa de canto, de frente para a porta. O movimento das pessoas atravessando a galeria era incontabilizável. Eu fisgava nesse rio humano flashes de rostos sérios, carrinhos de bebês puídos, sacolas plásticas usadas para fins não-comerciais. A gente é tanta e tão diversa. Não pode haver universalidade nas pessoas; talvez só haja nessa ternura que sinto indistintamente por todas. Embora estivesse deserta quando entrei, a lanchonete foi se enchendo enquanto eu esperava meu lanche. Vi, de rabo de olho, um moço de barba completamente fechada, mas de olhos ainda infantis, sem um pingo de cinismo. Noutra mesa, um senhor de cabeça perfeitamente redonda, tão grande e desajeitado com seu terno maior ainda. Todos, conforme tinham seus pedidos atendidos, sentavam...

Corpo corpo corpo corpo corpo corpo corpo porco porco porco

Imagem
Testando, testando. asdfg asdfg asdfg. Tem alguém na linha? Oi! Hoje vou fazer um post mais pessoal (o que não é muito a regra deste blog, e nem pretendo que seja, mas o assunto exige uma honestidade completa), então puxa uma cadeira, chega aqui pertinho e finge que minha vida te interessa. Vai que, no fim das contas, algo da minha experiência tem a ver com a coisa que tá te grilando no momento. Por exemplo, você já digitou no Google “dieta sem sofrimento”, “exercícios para afinar cintura”, “dicas para emagrecer rápido” ou similares? Meu histórico virtual denuncia tudo isso. Os amigos se irritam quando conto para eles, mandam eu largar de ser besta e olhar no espelho, porque eu sou magra. Sim, sou magra, mas a custo de autocontrole alimentar e exercícios, não aquele tipo naturalmente magra que come de tudo (odeio as modelos que dizem isso em entrevistas, não pode ser verdade!). E, como mulher comum, vivo o drama diário de, se der uma descuidada, a calça já aperta. Daí corro para o...