Para que servem os professores de português?
Examinando um site de concursos públicos, constatei que a demanda por professores de ramos técnicos e científicos é muito superior às vagas de língua portuguesa, justo essas que eu procuro. Após desistir do jornalismo, devido ao encolhimento da mídia impressa e ao meu desinteresse por comunicação empresarial, encarei uma segunda faculdade (Letras) e, às vésperas de me formar, levo esse baque de novo. Ora, eu tinha raciocinado quatro anos atrás, enquanto o ensino básico fosse obrigatório e o português integrasse o currículo, professores seriam sempre necessários!
Parece que não.
O principal motivo, pelo menos aqui no Paraná, é a bancarrota do Estado. Embora o déficit no quadro de docentes já tenha sido denunciado, inclusive um dos motivos para a greve histórica deste ano, não há previsão de novos concursos. Sabe-se lá Deus como os colégios estaduais estão lidando com essa situação. Alunos me relataram caso de professor de geografia dando aula de filosofia, então, já dá para ter uma ideia da “solução” adotada. No ramo privado, o problema é outro: exigem indicação e/ou comprovação de experiência, um repelente aos novatos sem amigos ilustres feito eu.
Outra possível causa para a escassez de vagas na rede estadual foi a redução da carga horária de português após a entrada de novas disciplinas humanísticas no currículo: filosofia, artes e sociologia. No Ensino Médio, são apenas duas aulas de português por semana. Bom, se a grade ficou assim, certamente há quem veja vantagem nesse arranjo, e até imagino os argumentos: português não ensina nenhum conteúdo, apenas uma forma; todo mundo sabe português; qualquer um pode melhorar o português sozinho, basta ler mais; leitura é uma prática individual; todos os livros clássicos de literatura já estão explicados pela crítica, basta repetir o que ela diz.
Disso tudo, eu concordo apenas com uma coisa: todo mundo sabe português. Oras, somos falantes nativos! Muitas vezes, a escola, em vez de melhorar a proficiência nas várias modalidades da língua, convence o aluno de que aquilo que ele fala não é o “verdadeiro português”. Isso remete a uma ideia muito tradicional de professor de língua: aquele sujeito que sabe o significado de todas as palavras, que não erra uma concordância e que recita de memória os grandes clássicos da literatura nacional. Eu achava que isso já estivesse superado, dado que o Plano Curricular Nacional não incentiva mais o ensino de gramática normativa, e sim o estudo de variadas expressões da língua devidamente contextualizadas.
Parece que não.
Descobri que a gramática normativa ainda está com a bola toda quando comecei a dar aulas de reforço. Não tenho nenhuma reclamação contra o lugar onde trabalho (pelo contrário, adoro o ambiente!), até porque eles não trabalham com currículo próprio: as aulas são preparadas de acordo com a demanda da escola de origem do aluno. Assim, minha crítica se direciona aos colégios em si. Ao entrar em contato com o material didático das escolas mais conceituadas (e caras) de Curitiba, descobri que é tudo a mesma coisa: no sexto ano, os alunos têm que saber os tipos de pronomes; no sétimo, classificação de conjunções; no oitavo, a diferença entre sujeito e agente da passiva; no nono, os tipos de orações subordinadas etc. etc.
Há vantagem em pagar colégio particular se o currículo de português é tão retrógrado? Talvez as outras disciplinas compensem, com boas estruturas laboratoriais e esportivas, não sei. O fato é que, ricos ou pobres, a grande maioria dos alunos está recebendo uma formação precária de português. Sorte a deles serem falantes nativos, assim podem se virar na comunicação diária. Agora, eles vão ler bem? Vão escrever textos em que consigam dar forma para a riqueza de seus pensamentos e emoções? Vão se fazer entendidos na expressão oral? Não sei. Será que dá para contar com a sorte sempre?
Parece que não.
Afinal, qual é a função do professor de português? Se for só para ensinar um monte de nomenclatura gramatical, o que contribui muito pouco para a melhoria da leitura, da fala e da escrita, então concordo que somos desnecessários – duas aulas são até demais! Do jeito que se ensina o português, estamos aqui só para aborrecer e silenciar os alunos. Tudo isso já foi melhor discutido por Bagno e Perini (informem-se). No meio acadêmico é até uma questão superada, a escola é que a mantém viva. Só consigo pensar em um motivo para essa resistência: em turmas que variam de 30 a 200 alunos, é mais fácil ensinar e avaliar regras gramaticais do que leitura e escrita.
Já na escola pública, não há a exigência curricular de se ensinar gramática, mas muitos professores (os ruins) entendem isso como “vamos sentar aqui e conversar sobre qualquer coisa, afinal, na prova é só interpretar os textos, e não tenho como ensinar isso”. Os alunos leem pouco, escrevem menos ainda – basta ver a letra da maioria: grande, desajeitada, indicando a falta de intimidade com a caneta – e, quando escrevem, os professores só dão um visto ou atribuem uma nota, sem qualquer comentário que ajude no aperfeiçoamento.
O caminho ideal, aquele que, a meu ver, resgataria a serventia do professor de português, seria a prática intensa de leitura, debates e escrita. O professor, com a ajuda de monitores (condição essencial, já que o volume de trabalho é muito grande), conheceria intimamente as características de cada aluno e lhes daria feedbacks personalizados. Nas aulas, se fortaleceria a noção de que a língua é uma construção coletiva e de que os textos discutidos em comunidade, em especial os literários, adquirem mais valor – não são apenas um prazer solitário, dizem respeito a todos nós. Ao fim da vida escolar, o jovem teria intimidade com textos de diversas modalidades e teria condições de responder (a atitude responsiva dos gêneros, tão enfatizada por Bakhtin) usando a expressão mais adequada para a situação. Ele sairia proficiente em uma grande quantidade de “portugueses” e munido de estratégias de leitura que o habilitassem a continuar aprendendo sozinho na vida adulta.
Bom, mas cá estou eu repetindo coisas que já estão no PCN. Vivemos num país em que se tenta promover justiça e igualdade por meio de despachos oficiais. “A partir de hoje, todos serão ótimos leitores, oradores e escritores”, decidiu algum doutor a respeito da massa de iletrados – problema resolvido! Pronto, agora todos já dominam as diversas modalidades da nossa língua! É por isso que não há vagas para professores de português, está explicado! Talvez seja o caso de arriscar minha terceira graduação. Desta vez, preciso ser esperta, nada dessas futilidades de Humanas, talvez alguma Engenharia. O país precisa é de tecnologia, produtos inovadores, facilidades, modernidades, toda essa geringonça que nos mantenha ocupados, para não pensarmos quem somos, quem é o outro, o que queremos, do que precisamos, para onde vamos etc. etc. Deixemos que o Google decida por nós: você quis dizer Candy Crush?
Autoconhecimento? Oxe, tem tudo sobre mim lá na minha página do Facebook, vê lá, curte lá.
PS: Nem tudo vai mal. Eu agradeço à gramática por dar um nó na cabeça da molecada, assim eles solicitam as aulas que põem o pão na minha mesa. Quando algum aluno ou pai mais sensato percebe o problema é a redação, eu tenho que lhe explicar que uma aula não vai transformá-lo em Rui Barbosa (quem, a praça?), mas que será preciso anos de prática. Aí ele pode pensar que eu estou sendo gananciosa, que quero forçá-lo a marcar mais aulas. Problemão, né? Gramática não tem erro, tem gabarito, dá para ensinar em uma hora.
PPS: Desabafo escrito no clima de “Como ficar sozinho”, ótima coletânea de ensaios sobre os tempos atuais escritos por Jonathan Franzen.
Parece que não.
O principal motivo, pelo menos aqui no Paraná, é a bancarrota do Estado. Embora o déficit no quadro de docentes já tenha sido denunciado, inclusive um dos motivos para a greve histórica deste ano, não há previsão de novos concursos. Sabe-se lá Deus como os colégios estaduais estão lidando com essa situação. Alunos me relataram caso de professor de geografia dando aula de filosofia, então, já dá para ter uma ideia da “solução” adotada. No ramo privado, o problema é outro: exigem indicação e/ou comprovação de experiência, um repelente aos novatos sem amigos ilustres feito eu.
Outra possível causa para a escassez de vagas na rede estadual foi a redução da carga horária de português após a entrada de novas disciplinas humanísticas no currículo: filosofia, artes e sociologia. No Ensino Médio, são apenas duas aulas de português por semana. Bom, se a grade ficou assim, certamente há quem veja vantagem nesse arranjo, e até imagino os argumentos: português não ensina nenhum conteúdo, apenas uma forma; todo mundo sabe português; qualquer um pode melhorar o português sozinho, basta ler mais; leitura é uma prática individual; todos os livros clássicos de literatura já estão explicados pela crítica, basta repetir o que ela diz.
Disso tudo, eu concordo apenas com uma coisa: todo mundo sabe português. Oras, somos falantes nativos! Muitas vezes, a escola, em vez de melhorar a proficiência nas várias modalidades da língua, convence o aluno de que aquilo que ele fala não é o “verdadeiro português”. Isso remete a uma ideia muito tradicional de professor de língua: aquele sujeito que sabe o significado de todas as palavras, que não erra uma concordância e que recita de memória os grandes clássicos da literatura nacional. Eu achava que isso já estivesse superado, dado que o Plano Curricular Nacional não incentiva mais o ensino de gramática normativa, e sim o estudo de variadas expressões da língua devidamente contextualizadas.
Parece que não.
Descobri que a gramática normativa ainda está com a bola toda quando comecei a dar aulas de reforço. Não tenho nenhuma reclamação contra o lugar onde trabalho (pelo contrário, adoro o ambiente!), até porque eles não trabalham com currículo próprio: as aulas são preparadas de acordo com a demanda da escola de origem do aluno. Assim, minha crítica se direciona aos colégios em si. Ao entrar em contato com o material didático das escolas mais conceituadas (e caras) de Curitiba, descobri que é tudo a mesma coisa: no sexto ano, os alunos têm que saber os tipos de pronomes; no sétimo, classificação de conjunções; no oitavo, a diferença entre sujeito e agente da passiva; no nono, os tipos de orações subordinadas etc. etc.
Há vantagem em pagar colégio particular se o currículo de português é tão retrógrado? Talvez as outras disciplinas compensem, com boas estruturas laboratoriais e esportivas, não sei. O fato é que, ricos ou pobres, a grande maioria dos alunos está recebendo uma formação precária de português. Sorte a deles serem falantes nativos, assim podem se virar na comunicação diária. Agora, eles vão ler bem? Vão escrever textos em que consigam dar forma para a riqueza de seus pensamentos e emoções? Vão se fazer entendidos na expressão oral? Não sei. Será que dá para contar com a sorte sempre?
Parece que não.
Afinal, qual é a função do professor de português? Se for só para ensinar um monte de nomenclatura gramatical, o que contribui muito pouco para a melhoria da leitura, da fala e da escrita, então concordo que somos desnecessários – duas aulas são até demais! Do jeito que se ensina o português, estamos aqui só para aborrecer e silenciar os alunos. Tudo isso já foi melhor discutido por Bagno e Perini (informem-se). No meio acadêmico é até uma questão superada, a escola é que a mantém viva. Só consigo pensar em um motivo para essa resistência: em turmas que variam de 30 a 200 alunos, é mais fácil ensinar e avaliar regras gramaticais do que leitura e escrita.
Já na escola pública, não há a exigência curricular de se ensinar gramática, mas muitos professores (os ruins) entendem isso como “vamos sentar aqui e conversar sobre qualquer coisa, afinal, na prova é só interpretar os textos, e não tenho como ensinar isso”. Os alunos leem pouco, escrevem menos ainda – basta ver a letra da maioria: grande, desajeitada, indicando a falta de intimidade com a caneta – e, quando escrevem, os professores só dão um visto ou atribuem uma nota, sem qualquer comentário que ajude no aperfeiçoamento.
O caminho ideal, aquele que, a meu ver, resgataria a serventia do professor de português, seria a prática intensa de leitura, debates e escrita. O professor, com a ajuda de monitores (condição essencial, já que o volume de trabalho é muito grande), conheceria intimamente as características de cada aluno e lhes daria feedbacks personalizados. Nas aulas, se fortaleceria a noção de que a língua é uma construção coletiva e de que os textos discutidos em comunidade, em especial os literários, adquirem mais valor – não são apenas um prazer solitário, dizem respeito a todos nós. Ao fim da vida escolar, o jovem teria intimidade com textos de diversas modalidades e teria condições de responder (a atitude responsiva dos gêneros, tão enfatizada por Bakhtin) usando a expressão mais adequada para a situação. Ele sairia proficiente em uma grande quantidade de “portugueses” e munido de estratégias de leitura que o habilitassem a continuar aprendendo sozinho na vida adulta.
Bom, mas cá estou eu repetindo coisas que já estão no PCN. Vivemos num país em que se tenta promover justiça e igualdade por meio de despachos oficiais. “A partir de hoje, todos serão ótimos leitores, oradores e escritores”, decidiu algum doutor a respeito da massa de iletrados – problema resolvido! Pronto, agora todos já dominam as diversas modalidades da nossa língua! É por isso que não há vagas para professores de português, está explicado! Talvez seja o caso de arriscar minha terceira graduação. Desta vez, preciso ser esperta, nada dessas futilidades de Humanas, talvez alguma Engenharia. O país precisa é de tecnologia, produtos inovadores, facilidades, modernidades, toda essa geringonça que nos mantenha ocupados, para não pensarmos quem somos, quem é o outro, o que queremos, do que precisamos, para onde vamos etc. etc. Deixemos que o Google decida por nós: você quis dizer Candy Crush?
Autoconhecimento? Oxe, tem tudo sobre mim lá na minha página do Facebook, vê lá, curte lá.
PS: Nem tudo vai mal. Eu agradeço à gramática por dar um nó na cabeça da molecada, assim eles solicitam as aulas que põem o pão na minha mesa. Quando algum aluno ou pai mais sensato percebe o problema é a redação, eu tenho que lhe explicar que uma aula não vai transformá-lo em Rui Barbosa (quem, a praça?), mas que será preciso anos de prática. Aí ele pode pensar que eu estou sendo gananciosa, que quero forçá-lo a marcar mais aulas. Problemão, né? Gramática não tem erro, tem gabarito, dá para ensinar em uma hora.
PPS: Desabafo escrito no clima de “Como ficar sozinho”, ótima coletânea de ensaios sobre os tempos atuais escritos por Jonathan Franzen.
Comentários
Postar um comentário