Uma ideia para a educação

Outro dia me ocorreu que é preciso ter coragem para fazer mudanças radicais no sistema de ensino, coragem que ninguém teve até agora. Por enquanto, ficamos em timidezes como aumentar o repasse nacional de verbas (e, logo depois, cortar), implantar um currículo parcialmente unificado (ainda em discussão), incentivar professores a se afastarem para especializações, sendo que, quando voltam para a sala de aula, reencontram as mesmas condições de trabalho e precisam se readaptar a elas. Não é isso que vai criar uma pátria educadora.

Na verdade, essas pequenas mudanças são apenas um alívio de consciência para os gestores de educação – para não os acusarmos de não terem tentado. Sequer chegam a tocar no problema maior: nosso sistema de ensino básico, e até o técnico e o superior em muitos casos, é uma linha de produção. Às 7h15, uma dose de binômio de Newton; às 8h05, um toque de fenóis; às 8h55, uma amostra dos milhares de tipos de concordância verbal de sujeitos compostos; às 9h45, atualizar Whatsapp e Facebook; às 10h, pela milésima (mas não última) vez, uma pitada de Simple Past x Present Perfect; às 10h50, uma porção light de Durkheim; às 11h40, um bocadinho de campos elétricos. Pronto, às 12h30 sai o aluno acabado (em todos os sentidos), mais próximo da máquina brilhante que ele se tornará no fim do Ensino Médio.

Poucos realmente se moldam conforme os planos da escola. Esses são os alunos que entrarão nos cursos mais concorridos das boas universidades públicas, e é dessa minoria que eu sinto mais pena: mentes brilhantes (e tão persistentes, para terem aguentado aquilo tudo) moldadas para pensar sempre dentro da caixinha. A maioria dos estudantes, instintivamente, percebe que tem algo muito errado ali e vai se desencantando da escola ao longo da adolescência. Alguns, com sorte, criticarão o sistema por dentro, tentando implodi-lo. São os alunos que questionam os professores, expressam opiniões diferentes da maioria, se recusam a acreditar na receita de bolo da escola e determinam sua própria formação pessoal (por leituras, filmes, músicas, conversas, viagens etc.). Uma grande parcela, contudo, mesmo achando a escola “nada a ver”, atribui a falta de sucesso escolar a si própria e se conforma em trabalhar em profissões desprestigiadas e mal remuneradas. Por fim, um pequeno grupo, passa toda vida escolar away, não consegue se encaixar nas opções profissionais que a sociedade oferece a alguém com “instrução rasa” e, em vez de lutar pelo seu espaço, aceita viver na marginalidade.

Queremos mudar mesmo a educação do nosso país, ou só fingir que uma autoridade mais preparada está resolvendo a questão? Eu posso ser uma ninguém, mas tenho um cérebro, então gostaria de dar uma ideia para os senhores do MEC: chega desse sistema de ensino dividido em disciplinas! O conhecimento é múltiplo e se origina da curiosidade humana de querer saber mais sobre si e o mundo. A escola apresenta os resultados das investigações dos pensadores do passado, mas mata a possibilidade de os alunos seguirem seus próprios interesses, darem continuidade à história do conhecimento. Na minha opinião, o ideal seria usar o período escolar para que os jovens, em grupos pequenos orientados por um professor, desenvolvessem projetos de pesquisas interdisciplinares que durariam períodos médios de tempo.

Um exemplo de aula para o Ensino Médio: quatro meses para estudar fontes de energia. Nesse tempo, o professor (com formação em engenharia e especialização em educação) sugeriria leituras sobre a história dos meios de produção energética, analisaria o impacto econômico de cada uma, reforçaria conceitos de matemática e física que fossem necessários para entender o funcionamento desses mecanismos, levaria os alunos para conhecerem a Itaipu e outros sistemas de geração de energia, auxiliaria os estudantes na escrita de projetos e na concretização de protótipos.

Ideia maluca? Cara? Impraticável? Talvez. Mas, se a gente sabe que do jeito atual não está funcionando, ou admitimos que não queremos nada melhor ou mudamos – e não superficialmente, mas a partir da fundação do sistema. Tenhamos coragem, levantemos ideias ousadas, por mais que, na nossa época de estudante (e foram 12 anos sentados em bancos escolares!), nos tenham desestimulado a pensar diferente daquilo que estava escrito nos livros. Oras, escrevamos nossos próprios livros, então!

Alô, alô, elite do nosso país: não estou falando só de escola pública, onde estão os filhos dos seus empregados, estou falando também dos colégios privados, até daqueles caríssimos, que também adotam o sistema “linha de produção”. Eles colocam aulas de teatro, dança e atletismo no contra-turno para vocês acharem que seus filhos estão tendo um ensino muito inovador; você paga uma nota preta no fim do mês e dorme feito um anjo à noite, acreditando que é isso mesmo, que está garantindo o melhor para o seu filho. Eu vim para dar a má notícia: acorda, acorda, acorda!

Comentários

  1. Oii Suelen! realmente é muito triste, sinto essa falta de conhecimento na pele todos os dias, a escola e o estado não incentiva os alunos a ter um pensamento crítico decente sem contar a falta de conteùdos, em alguns casos a familia não incentiva o individuo a se integrar no conhecimento... Eu mesmo tive que falar com muitos professores para ter uma "decision" para o meu futuro... Daí o que acontece é o seguinte pelo que eu vejo as pessoas que tem um "pensamento avançado" acabam indo parar em cursos como medicina e engenharias em geral, acho que isso é uma concequencia da falta da valorização do conhecimento, é algo muito mais profundo que acaba acarretando para os orgãos publicos... esse pensamento que ganhamos e essa "education" ruim vem de muito tempo, é sempre que vão ter casos raros de pessoas que estudam em colégios publicos e se dão bem no futuro, mas como já dizia Carl Sagan em um livrinho dele: "são poucos os nerds que se dão bem na vida fazendo cursos bases"... no caso das escolas particulares eu não sei como funciona lá, você deve saber muito mais, porém "eu acho" que eles tem muito mais oportunidades de buscar um conhecimento devido, as suas conditions financeiras, os pais que na maioria das vezes são graduados (mesmo que a faculdade não signifique nada) e engajam os seus filhos colocando eles em cursinhos, intensivos, aulas particulares e kumons, sendo que eles não precisam trabalhar e tem muito tempo para encontrar um pensamento crítico adequado mesmo que autodidata... espero que leia meu comentário, obg...

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