Os Arnolfini


Mulher vestida de azul e lenço branco, 
Não fossem manto de veludo verde, 
Metais no punho e no pescoço, rendas, 
Na Renascença, a virgem Mãe seria –
Adolescente com tão dura sina.
Toma-lhe a mão o homem que compra tudo.

Noiva amorosa a se entregar inteira
A tal sujeito, Carniceiro-Mor. 
E o troco dele? Nem sorriso volta. 
Rico não sofre culpa: pilha ouros, 
Assina acordos, tranca em cofre todos. 
Cada estação, o homem só veste luto.

N’águas vermelhas, ela nasce Vênus.
Promessas velhas renovadas sempre –
Todo o poder e a glória, a prole e o nome.
Nem assim fica satisfeito, o rico
Não ri. Até afeto poupa o rídico.
Salve esta bela união: bens conjuntos.

Graça da casa, o cachorrinho dela, 
Atrevidinho vem, amor da moça. 
Mete-se à frente de qualquer humano, 
Hierarquia interespécie ignora.
“Nojo me dá tanto xodó, senhora”.
Nada suporta um homem tão casmurro. 

A dama brilha no pincel do intruso, 
O que vê tudo, e tudo dá a ver. 
O artista cria perfeição, decoro 
De academia foi o senhor que quis, 
mas grita o gênio atrás: “estive aqui!”
Um homem posa; o outro ri ao fundo. 

“Ali no canto, é seu tamanco, musa?” 
Pobre pintor! Onde está pé desnudo, 
Bem precioso que o veludo encobre?
O admirador, por fim, diz: “Venha, amiga!
Ao carrancudo cansam obras-primas. 
Se ele não olha, você ganha o mundo”.

PS: Já tive a oportunidade de visitar alguns museus fabulosos, mas a National Gallery provavelmente é meu favorito. Ali naquele acervo no centrão de Londres, a gente encontra essa pequena (em sentido literal) joia de Jan van Eyck, The Arnolfini Portrait. Nunca soube explicar por que o quadro me fascina tanto, até que eu decidi tentar. Foi daí que veio este poema, infelizmente muito inferior à tela.

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