Por uma alimentação melhor

Na infância, minha dieta se constituía de leite com Quick Morango e mais uma colherada de açúcar, gelatina do Bocão coberta de leite condensado, Tang, sopa instantânea Knorr, Choco Krisps. E essa era a parte nutritiva, conforme anunciavam os rótulos de que nunca duvidávamos: “fonte de vitaminas e sais minerais”. Depois ainda vinham os salgadinhos e as sobremesas, ingeridas pelo simples prazer gustativo: Cheetos, sorvete Kibon, bolacha Bono, bombons Nestlé. Os refrigerantes foram os únicos que não conseguiram enganar minha mãe e, felizmente, não entravam em casa.

Mais tarde, já adulta e influenciada pelo crescimento do discurso pró-alimentação saudável, substituí essas coisas por Chocolate em pó Dois Frades, pudim de aveia Quaker, suco de soja Ades, chá gelado Lipton, barra de cereais Nutry, bolo integral Nutrella, granola Kellogs. Achava que assim havia revolucionado minha alimentação, que me tornaria mais saudável. Eu havia sido uma criança meio adoentada, sempre a primeira vítima de epidemias, fora os sucessivos desmaios que os médicos nunca explicaram direito. Mas os novos exames de sangue me desiludiram: colesterol quase estourando, déficit de vitaminas, triglicérides alta. “Como pode isso, se só como coisas saudáveis?”, eu perguntei à médica. Ela culpou a genética da minha família, repleta de diabéticos e cardíacos.

Neste ano, a leitura de alguns livros me deu a resposta tão óbvia que os médicos por algum motivo continuam silenciando: o problema são os alimentos processados. Não importa se os rótulos vendem um estilo de vida saudável, a lista de ingredientes no verso não mente: açúcar, gordura, sal e uma série de aditivos sintéticos que a gente nem sabe direito o que é. Se passou por um processo industrial é impossível que seja realmente natural. Mesmo essa nova onda de sucos 100% fruta deve ser vista com desconfiança. As vitaminas das frutas se deterioram em poucos minutos quando perdem a proteção da casca, e as fibras se arruínam na liquidificação. Suco bom é aquele feito e bebido na hora. Melhor ainda é consumir a fruta direto.

Sinto muito, adeptos da praticidade, mas não há e talvez nunca haja alimentação saudável mediada pela indústria. O jeito é ir à feira e aos mercados hortifrútis (sorte a nossa que eles ainda existam!), escolher ingredientes de qualidade, chegar em casa, armazenar com cuidado e, cada vez que tiver fome, pôr a mão na massa, picar, cozinhar, assar, usar temperos frescos. Isso não significa um retorno à escravidão do fogão, afinal, somos uma sociedade diferente (ao menos, pensamos que sim). As mulheres não têm mais a obrigação de alimentar sozinhas toda uma extensa família, trabalhem elas fora ou não. Hoje é inaceitável que os homens se esquivem das atividades domésticas. Outra vantagem atual é haver menos filhos ou até nenhum. Mais ajuda, menos trabalho.

Cozinhar não precisa ser um martírio, pode até virar um hobby como vários programas televisivos vêm mostrando, um momento de conexão com os familiares. Se a gente só come coisas prontas, perde essa oportunidade de diálogo e depois investe o tempo poupado como? Em ver TV, jogar videogame, navegar na web ou qualquer outra atividade que nos isole. Ganhamos tempo e depois temos que encontrar atividades para nos distrair, caso contrário morreríamos de tédio. Um dos tantos paradoxos da modernidade.

Os livros que me ajudaram a repensar a alimentação foram:
- “O livro negro do açúcar” (2006), de Fernando Carvalho
- “Sugar blues” (1978), de William Dufty
- “Sal, gordura, açúcar” (2015), de Michael Moss

Eles oferecem reflexões e dicas mais preciosas do que eu, uma novata do slow food, poderia dar aqui. Só me arrisco a registrar um testemunho pessoal. Faz dois meses que cortei o açúcar (branco, demerara e mascavo), farinhas e grãos refinados; mantive apenas o mel e o melado em ocasiões raras, porque têm nutrientes e aumentam minhas possibilidades culinárias. A consequência mais imediata foi a perda de peso, mesmo sem ter eliminado a gordura (descendente de italiana, uso o azeite sem dó) ou diminuído as porções das refeições. Não foi nenhum milagre, isso aconteceu graças a um mecanismo natural muito importante no controle do peso, a saciedade. Devemos comer prestando atenção ao nosso corpo; quando ele nos diz “estou satisfeito”, é hora de parar. O açúcar, porém, é uma das tantas estratégias da indústria para enganar nosso organismo: em vez de satisfazer, ele aumenta o apetite. Sabe quando você se sente estufado, mas repete o prato só porque está bom? Pois é, isso dificilmente ocorre com frutas, saladas e grãos integrais, por mais que eles estejam saborosos, mas acontece com massas e doces. Não é gratuito, esses produtos foram pensados para ser assim: insaciáveis ainda que altamente calóricos.

Outras consequências do corte de açúcar foram a cura da minha rinite alérgica (em plena primavera! Agora posso parar de odiar essa estação do ano...), o alívio dos incômodos físicos antes e durante a menstruação, o aumento de energia à noite e, consequentemente, da produtividade em atividades físicas e intelectuais. A longo prazo, espero fugir do destino da família e não ser diabética nem cardíaca.

Outro dia, em uma entrevista, Bela Gil explicava por que não queria se enquadrar em um movimento específico (vegano, macrobiótico etc.). Ela come com moderação tudo aquilo que faz bem ao seu corpo e se, de vez em quando ingere algum quitute (um doce ou uma bebida alcóolica), é capaz de perceber o efeito disso. Nesse Natal, constatei que ela está certa. Quando a gente para de comer alimentos processados, as nossas papilas gustativas ficam mais sensíveis, não sentem falta de sal e açúcar e descobrem outros sabores. Aí, quando você come um doce numa ocasião especial, uma colherada que seja, é como uma explosão no seu organismo: primeiro um gosto muito forte, depois um aumento súbito de energia, seguido por uma sonolência. Em resumo, você fica tão desintoxicado que consegue se drogar até com um bombom! Nossa sociedade, pelo contrário, está tão embotada de estímulos, que os 32 quilos anuais de açúcar que cada pessoa consome não fazem nem cócegas.

E se me vierem com o argumento “não tenho tempo nem dinheiro para preparar comida saudável”, vou lhes apresentar à boa e velha fruta. Compre as da estação, que são as mais baratas, sendo que muitas não dão o trabalho nem de abrir a embalagem, é só morder.

Ficam pendentes ainda questões sobre o consumo de carne repleta de hormônios e vegetais cheios de agrotóxicos. É possível ter uma alimentação apenas orgânica? Quero dizer, é economicamente viável em larga escala ou apenas um luxo para minorias? Apesar de a oferta de produtos sem aditivos químicos ter aumentado, o preço ainda não cabe no meu bolso, mas acredito que, quando essa se tornar uma prioridade na alimentação do brasileiro, talvez se encontre a tal viabilidade econômica – sim, dinheiro manda na nossa vida mesmo quando a gente não dá muita bola para ele. No meio tempo, faço o que posso e vou percebendo a diferença de tratar o meu corpo com o respeito que ele merece.

Comentários