Mundo Chernobil
Agora em abril a Companhia das Letras lança “Vozes de Chernobil”, a tão esperada estreia de Svetlana Aleksiêvitch, a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, no Brasil. Tomei conhecimento pela revista piauí, que divulgou um trecho da obra na edição de março. Achei excelente essa prévia, tão excelente que, se eu ler o livro na íntegra, talvez nunca mais funcione. Explico melhor. A jornalista bielorrussa não apenas expõe o horror daqueles que testemunharam o desastre em 1986 como reflete sobre o abismo para o qual estamos todos caminhando. Nas palavras da autora: “Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro”.
Que abismo é esse? Um mundo construído por nós mesmos e que nos expulsa. Evoluídos, sofisticados, nós conhecemos os termos científicos que explicam todo o processo da enrascada, sem entendermos o que é essa nova realidade. Apenas seguimos e reagimos, fazendo o que temos que fazer. Construir uma redoma para isolar a fonte radioativa. Construir hospitais para isolar os homens que isolaram a fonte radioativa. Construir memoriais para isolar as saudades. Construir cidades modernas para isolar as pessoas. Construir arquivos para isolar o conhecimento.
O cenário de Chernobil é silencioso, bucólico, como o orco – vejam lá no ensaio da National Geographic. Já a cidade em que me encontro, com radiação dentro dos níveis de normalidade, é rumorosa. Corrigindo, porque rumor soa muito sutil, como o renc renc do fantasma no assoalho: Curitiba tornou-se estrondosa. O adjetivo é propositalmente ambíguo. Há quem festeje o acontecimento – até que enfim saímos do provincianismo! Eu, velha de espírito, sinto saudades do silêncio entre as 20 e as 8 horas e aos domingos o dia todo, mais ou menos como a Internet discada da minha adolescência. Esta cidade nunca cala a boca. E não estou falando de um carro solitário na madrugada, mas de uma legião que vai o tempo todo sei lá para onde. Para onde vão esses carros todos?, eu me pergunto todos os dias.
Após o desastre, a população de Chernobil foi evacuada por questão de segurança pública. Embora a minha cidade não seja radioativa, considero o êxodo como solução, pois aqui também fico doente de um modo que não sei explicar claramente – e sem palavras científicas nem parece algo real. Veja se você entende: sinto que ninguém está vivendo o tempo que lhe foi dado, todos parecem estar só correndo para um lugar que ninguém sabe bem qual é, e a vida se esvai sem que tenhamos sequer conhecido nós mesmos, quanto mais os outros. Este diálogo é um dos que mais ouço e pratico na rua: “como vai a vida?”, “só na correria, e você?”, “também”, “preciso ir, tchau”, "tchau, nos falamos depois, com mais tempo". Mas nunca há tempo, nunca falamos as coisas importantes – as conversas em que a gente se conecta com o outro são raras.
O que me prende a Curitiba? Sequer tenho um carro para estar, junto com todo mundo, sempre indo a algum lugar que sei lá qual é. Há anos penso em partir, nunca mais voltar. Penso em vidas possíveis noutras cidades, comunidades menores e mais tradicionais. Cheguei a visitar alguns desses lugares para tomar uma decisão mais embasada. Descobri que lá também tem carros e gente indo sei lá para onde. Às vezes até encontrava pessoas que não estavam sempre correndo, que gostavam de conversar, que olhavam nos olhos, que viam graça no cotidiano, e eu me enchia de esperanças. Mas como começar uma vida nova sem dinheiro?
Aí está o combustível da nossa sociedade doente, o dinheiro. Nenhuma novidade, os românticos já identificaram isso lá no fim do século XVIII. Vamos lá, lição de marxismo em um parágrafo e meio. A gente precisa comer e morar, por isso, arruma um trabalho para custear a sobrevivência. Mesmo que a profissão seja de nosso gosto e para a qual nos preparamos com dedicação (isso se tivemos sorte de vir de uma classe abastada, senão é a primeira que surge), a rotina vai minando o prazer (se é que um dia ele existiu). A gente compensa a insatisfação do trabalho no tempo livre: compra muitas coisas bonitas, tem muitas experiências deslumbrantes, beija muita gente atraente e compartilha tudo pelo iPhone para acreditarmos nisso e fazermos inveja nos outros. Para sustentar esses pequenos luxos, é preciso trabalhar mais ainda, de modo que a gente exulta quando surge hora-extra, arruma bicos nos finais de semana e nas férias. A gente trabalha pensando na próxima coisa que vai comprar e assim se mantém motivada. Pior ainda: crê-se bem-sucedida quando recebe um aumento que possibilitará comprar ainda mais coisas.
Alguém, como eu, pode decidir que não vai mais trabalhar oito horas por dia (fora as duas de ônibus, não remuneradas). Acha que recuperou a dignidade até chegar o fim do mês, quando não sabe como pagar as contas. Não tem nem para a comida e a moradia, passa o dia todo pensando em dinheiro e descobre que precisa voltar a trabalhar, pega o primeiro serviço que surge. E a roda volta a girar, não tem como sair dela senão pela revolução social. Alguém conseguiu isso na prática? Não que eu saiba, porque o dinheiro corrompe aqueles que teriam condições de liderar a revolução. Não há salvação para um indivíduo se todos não se salvarem juntos, disseram os revolucionários românticos. Talvez não haja salvação para ninguém, nunca, disse Schopenhauer.
Oscilo entre uns e outro, tendendo mais para esse último. No fundo, o sistema proposto por ele me parece o mais possível, talvez até o mais otimista: não buscar uma salvação terrena, levar uma vida ascética, combater os desejos, diminuir o sofrimento. Depende só de a gente se disciplinar. A revolução, por sua vez, acaba sempre boicotada pela ganância de um ou outro. Enquanto o humano for volúvel aos seus desejos, haverá muitos que trocarão, sem hesitar, o bem-estar coletivo pelo individual.
Chernobil, nosso ponto de partida, é o maior exemplo da falta de escrúpulos do ser humano. Já fizemos uma vez isso de trocar o bem geral por um punhado de dólares e ainda faremos outras tantas, está aí o desastre da Samarco bem recente na memória nacional. A gente não presta, e não há educação humanista, religião, poesia ou filosofia que nos salve. Aleksiêvitch escreve que, poucos dias após o incidente de Chernobil, resquícios radioativos circulavam pela atmosfera, atingindo outros continentes. Em outras palavras, não há tecnologia que isole o mal, ele chega conforme mudam os ventos, e a gente o inala e vai reagindo. Você pode pegar o carro, buzinar até estourar os tímpanos e correr (se o trânsito permitir) para um lugar que não sei qual é. O mal é muito mais antigo e duradouro. Nas metrópoles ele está explícito na feiúra do cimento, no cheiro fétido, no gosto podre da água e dos alimentos, na dor de cabeça constante. Mas ele também está na cidadezinha, mais escondido, na ignorância, na raiva, no descaso. Não há para onde fugir: os ventos circulam, o mundo é o mesmo.
Depois dessas reflexões me digam: alguém tem estômago para ler “Vozes de Chernobil”?
Que abismo é esse? Um mundo construído por nós mesmos e que nos expulsa. Evoluídos, sofisticados, nós conhecemos os termos científicos que explicam todo o processo da enrascada, sem entendermos o que é essa nova realidade. Apenas seguimos e reagimos, fazendo o que temos que fazer. Construir uma redoma para isolar a fonte radioativa. Construir hospitais para isolar os homens que isolaram a fonte radioativa. Construir memoriais para isolar as saudades. Construir cidades modernas para isolar as pessoas. Construir arquivos para isolar o conhecimento.
O cenário de Chernobil é silencioso, bucólico, como o orco – vejam lá no ensaio da National Geographic. Já a cidade em que me encontro, com radiação dentro dos níveis de normalidade, é rumorosa. Corrigindo, porque rumor soa muito sutil, como o renc renc do fantasma no assoalho: Curitiba tornou-se estrondosa. O adjetivo é propositalmente ambíguo. Há quem festeje o acontecimento – até que enfim saímos do provincianismo! Eu, velha de espírito, sinto saudades do silêncio entre as 20 e as 8 horas e aos domingos o dia todo, mais ou menos como a Internet discada da minha adolescência. Esta cidade nunca cala a boca. E não estou falando de um carro solitário na madrugada, mas de uma legião que vai o tempo todo sei lá para onde. Para onde vão esses carros todos?, eu me pergunto todos os dias.
Após o desastre, a população de Chernobil foi evacuada por questão de segurança pública. Embora a minha cidade não seja radioativa, considero o êxodo como solução, pois aqui também fico doente de um modo que não sei explicar claramente – e sem palavras científicas nem parece algo real. Veja se você entende: sinto que ninguém está vivendo o tempo que lhe foi dado, todos parecem estar só correndo para um lugar que ninguém sabe bem qual é, e a vida se esvai sem que tenhamos sequer conhecido nós mesmos, quanto mais os outros. Este diálogo é um dos que mais ouço e pratico na rua: “como vai a vida?”, “só na correria, e você?”, “também”, “preciso ir, tchau”, "tchau, nos falamos depois, com mais tempo". Mas nunca há tempo, nunca falamos as coisas importantes – as conversas em que a gente se conecta com o outro são raras.
O que me prende a Curitiba? Sequer tenho um carro para estar, junto com todo mundo, sempre indo a algum lugar que sei lá qual é. Há anos penso em partir, nunca mais voltar. Penso em vidas possíveis noutras cidades, comunidades menores e mais tradicionais. Cheguei a visitar alguns desses lugares para tomar uma decisão mais embasada. Descobri que lá também tem carros e gente indo sei lá para onde. Às vezes até encontrava pessoas que não estavam sempre correndo, que gostavam de conversar, que olhavam nos olhos, que viam graça no cotidiano, e eu me enchia de esperanças. Mas como começar uma vida nova sem dinheiro?
Aí está o combustível da nossa sociedade doente, o dinheiro. Nenhuma novidade, os românticos já identificaram isso lá no fim do século XVIII. Vamos lá, lição de marxismo em um parágrafo e meio. A gente precisa comer e morar, por isso, arruma um trabalho para custear a sobrevivência. Mesmo que a profissão seja de nosso gosto e para a qual nos preparamos com dedicação (isso se tivemos sorte de vir de uma classe abastada, senão é a primeira que surge), a rotina vai minando o prazer (se é que um dia ele existiu). A gente compensa a insatisfação do trabalho no tempo livre: compra muitas coisas bonitas, tem muitas experiências deslumbrantes, beija muita gente atraente e compartilha tudo pelo iPhone para acreditarmos nisso e fazermos inveja nos outros. Para sustentar esses pequenos luxos, é preciso trabalhar mais ainda, de modo que a gente exulta quando surge hora-extra, arruma bicos nos finais de semana e nas férias. A gente trabalha pensando na próxima coisa que vai comprar e assim se mantém motivada. Pior ainda: crê-se bem-sucedida quando recebe um aumento que possibilitará comprar ainda mais coisas.
Alguém, como eu, pode decidir que não vai mais trabalhar oito horas por dia (fora as duas de ônibus, não remuneradas). Acha que recuperou a dignidade até chegar o fim do mês, quando não sabe como pagar as contas. Não tem nem para a comida e a moradia, passa o dia todo pensando em dinheiro e descobre que precisa voltar a trabalhar, pega o primeiro serviço que surge. E a roda volta a girar, não tem como sair dela senão pela revolução social. Alguém conseguiu isso na prática? Não que eu saiba, porque o dinheiro corrompe aqueles que teriam condições de liderar a revolução. Não há salvação para um indivíduo se todos não se salvarem juntos, disseram os revolucionários românticos. Talvez não haja salvação para ninguém, nunca, disse Schopenhauer.
Oscilo entre uns e outro, tendendo mais para esse último. No fundo, o sistema proposto por ele me parece o mais possível, talvez até o mais otimista: não buscar uma salvação terrena, levar uma vida ascética, combater os desejos, diminuir o sofrimento. Depende só de a gente se disciplinar. A revolução, por sua vez, acaba sempre boicotada pela ganância de um ou outro. Enquanto o humano for volúvel aos seus desejos, haverá muitos que trocarão, sem hesitar, o bem-estar coletivo pelo individual.
Chernobil, nosso ponto de partida, é o maior exemplo da falta de escrúpulos do ser humano. Já fizemos uma vez isso de trocar o bem geral por um punhado de dólares e ainda faremos outras tantas, está aí o desastre da Samarco bem recente na memória nacional. A gente não presta, e não há educação humanista, religião, poesia ou filosofia que nos salve. Aleksiêvitch escreve que, poucos dias após o incidente de Chernobil, resquícios radioativos circulavam pela atmosfera, atingindo outros continentes. Em outras palavras, não há tecnologia que isole o mal, ele chega conforme mudam os ventos, e a gente o inala e vai reagindo. Você pode pegar o carro, buzinar até estourar os tímpanos e correr (se o trânsito permitir) para um lugar que não sei qual é. O mal é muito mais antigo e duradouro. Nas metrópoles ele está explícito na feiúra do cimento, no cheiro fétido, no gosto podre da água e dos alimentos, na dor de cabeça constante. Mas ele também está na cidadezinha, mais escondido, na ignorância, na raiva, no descaso. Não há para onde fugir: os ventos circulam, o mundo é o mesmo.
Depois dessas reflexões me digam: alguém tem estômago para ler “Vozes de Chernobil”?
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