Uma opinião sobre o aborto em mais de 140 caracteres
Enquanto todo mundo discute a questão do aborto nas redes sociais, eu fujo de me posicionar ali, pois, inevitavelmente, a gente acaba sendo tachada disso ou daquilo antes mesmo de apresentar qualquer argumento para defender um ponto de vista. Prefiro escrever neste espaço que acessa só quem quer, sem forçar amigos, colegas e familiares a curtirem minha opinião para que eu descubra se ela (e, consequentemente, toda a minha pessoa) é válida ou não. Nada disso. Estou segura desde já de que construí uma posição sólida, porque pensei com seriedade sobre o assunto, permitindo-me mudar de ideia quando apareciam dados convincentes e, claro, continuo aberta a ouvir outras perspectivas que apresentem informações de fonte segura para respaldá-las.
Por muito tempo repeti: sou pessoalmente contra o aborto, não o praticaria em nenhuma circunstância nem incentivaria uma mulher próxima a cometê-lo, mas quem sou eu para determinar o que as outras devem fazer? Portanto, se uma mulher decidir isso para si, nem a lei nem a minha opinião devem se sobrepor à sua decisão pessoal. Desse modo, sentia-me bem comigo e com o gênero feminino, afinal, esse discurso parecia bem coerente, não feria meus valores e, de quebra, ainda deixava clara minha discordância com essa interferência excessiva do Estado na nossa vida privada.
É muito difícil, estando ciente das condições de vida feminina na nossa sociedade, ser contra a legalização do aborto, pois seria no mínimo hipócrita da minha parte dizer a uma mulher: vamos proteger a vida! Sendo que, na prática, isso significa: você é obrigada a ter essa criança indesejada e, mesmo se não tiver condições psicológicas e financeiras de criá-la, vire-se para ser uma boa mãe, senão você será punida como uma criminosa. É fácil proteger a vida teoricamente. Agora, você vai lá limpar, alimentar, amar e educar essa criança que você “salvou”? Não vai, você está se lixando para ela, apenas joga toda a responsabilidade no colo da mãe.
Só recentemente me dei conta de que esse discurso é perigoso e, infelizmente, está desviando minhas companheiras feministas da essência do problema. Gente, porque vivemos numa sociedade desigual, que empurra toda a responsabilidade da criação dos filhos para a mãe, vamos começar a matar crianças para aliviar a pena das mulheres? O problema não é a existência dessa criança, o problema é o entendimento de que a mulher deva ser a única ou principal responsável por criá-la. O direito que deveríamos estar exigindo não é a legalização do aborto, mas que toda a sociedade se responsabilize pelos cuidados dispensados às crianças e aos jovens.
Isso, na prática, seria possível não só com a mudança do pensamento (divisão de tarefas igualitárias entre os membros das famílias), mas com a criação e a universalização de estruturas comunitárias, como unidades médicas especializadas na saúde da criança e da mulher, creches, escolas, centros culturais e esportivos, em resumo, uma gama de serviços de qualidade que possibilitariam à mulher, durante e após a gestação, seguir a vida que ela escolher para si sabendo que o filho estará bem amparado. Utópico? Então para que escreveram lá no ECA: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”? Só para enfeitar?
No papel, essas crianças já deveriam estar sendo cuidadas por toda a sociedade, mas por que continuamos delegando todo o ônus às mulheres a ponto de achar que tirar a vida do feto é igual a deliberar sobre o próprio corpo? A mãe e a criança são a mesma pessoa? No entendimento da nossa sociedade, parece que sim, de modo que até muitas feministas reproduzem o bordão “meu corpo, minhas regras”, mas não deveria ser. São dois indivíduos, por isso deve haver dois tratamentos diversos. Meu corpo, minhas regras. Corpo do bebê, regras dele.
O aborto legal não salva mulheres, já que, conforme apontam dados do Ministério da Saúde (vejam o vídeo que eu sugiro mais abaixo), a maioria esmagadora dos óbitos maternos não são decorrentes de abortos, mas de atendimento médico inadequado às parturientes. Tentei encontrar por mim mesma outros dados, mas infelizmente o site do Ministério da Saúde é desatualizado e um tanto confuso; de específico, achei só este documento, só que os dados são de dez anos atrás.
Mais uma vez, cito o ECA: “É assegurado a todas as mulheres o acesso aos programas e às políticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo e, às gestantes, nutrição adequada, atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal integral no âmbito do Sistema Único de Saúde”. O descumprimento dessa lei é que mata pessoas, tanto mulheres como crianças – e cuidado, gente, pois acabamos de aprovar uma lei que corta os gastos em serviços públicos (a famigerada PEC 241/55) e temos um ministro da Saúde (vamos dar nomes aos bois, sr. Ricardo Barros) que não se conforma que o SUS não gere lucros. Em vez de lutar pela vida de todos, vamos sacrificar crianças para "aliviar a consciência", achando que ao menos as mulheres estarão sendo salvas? Com a legalização do aborto, mulheres que efetivamente querem ter seus bebês continuarão morrendo, porque o sistema público de saúde é péssimo e o particular é caríssimo. Esse é o ponto que deveria estar sendo discutido.
Amigas feministas, eu sou não o inimigo e espero que não me tratem como tal. Sou uma de vocês, uma mulher revoltada com o modo discriminatório como somos tratadas e tentando pensar em formas de a vida ser melhor para todas nós. Minha proposta é que nos direcionemos para o ponto central desta questão de maternidade (desejada ou não): em vez de legalizar o aborto, nossa vida seria muito melhor se houvesse serviços bons e disponíveis para as mães e as crianças.
E o caso das mulheres que engravidaram, por falta de informação ou descuido, e não querem o filho? Sem problema, basta que elas conduzam a gestação até o fim e depois passem o cuidado do bebê a quem o queira e seja capaz disso. Preocupada com como essa gestação afeta sua vida profissional? Pois é, mais uma vez, o problema não é o bebê, é o mercado de trabalho, que marginaliza as gestantes, tratando-as como mera despesa para a empresa. Preocupada com a discriminação por "abandonar" o filho que saiu do seu ventre (você não vai depositá-lo numa lata de lixo, certo? Então não seria abandono)? De novo, não é culpa do bebê, é da sociedade que acha que existe o tal do “instinto materno”. O amor se constrói com base na reciprocidade, as relações sociais são mais complexas do que o ideal da mãe que se sacrifica pelo filho. Não somos obrigadas a sermos amáveis nem a exercermos o papel de cuidadoras, esse fantasma "Marcela Temer" não deveria nos assombrar, precisamos exorcizá-lo de nós – inclusive da própria primeira-dama, coitada.
Meu ponto é: vamos nos concentrar nos problemas reais, por favor, em vez de achar que matar crianças resolve tudo. O buraco é bem mais embaixo. Cansei de postagens ofensivas sobre legalização do aborto, gente chamando o outro de burro e toda essa guerrinha desinformada que o Facebook é experto em proporcionar.
Segue um vídeo com dados que me convenceram de que o aborto não vai melhorar a vida de ninguém (https://www.youtube.com/watch?v=7QI5ZN9jQKI). Vinte minutos é longo demais? Claro, porque é mais fácil repetir slogans e palavras de ordem em vez de gastar um pouco mais de tempo para se informar sobre questões sociais importantes... Seu tempo, suas regras.
Ah, e o ECA na íntegra: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm. É chocante ver a disparidade entre o texto da lei e a realidade.
Por muito tempo repeti: sou pessoalmente contra o aborto, não o praticaria em nenhuma circunstância nem incentivaria uma mulher próxima a cometê-lo, mas quem sou eu para determinar o que as outras devem fazer? Portanto, se uma mulher decidir isso para si, nem a lei nem a minha opinião devem se sobrepor à sua decisão pessoal. Desse modo, sentia-me bem comigo e com o gênero feminino, afinal, esse discurso parecia bem coerente, não feria meus valores e, de quebra, ainda deixava clara minha discordância com essa interferência excessiva do Estado na nossa vida privada.
É muito difícil, estando ciente das condições de vida feminina na nossa sociedade, ser contra a legalização do aborto, pois seria no mínimo hipócrita da minha parte dizer a uma mulher: vamos proteger a vida! Sendo que, na prática, isso significa: você é obrigada a ter essa criança indesejada e, mesmo se não tiver condições psicológicas e financeiras de criá-la, vire-se para ser uma boa mãe, senão você será punida como uma criminosa. É fácil proteger a vida teoricamente. Agora, você vai lá limpar, alimentar, amar e educar essa criança que você “salvou”? Não vai, você está se lixando para ela, apenas joga toda a responsabilidade no colo da mãe.
Só recentemente me dei conta de que esse discurso é perigoso e, infelizmente, está desviando minhas companheiras feministas da essência do problema. Gente, porque vivemos numa sociedade desigual, que empurra toda a responsabilidade da criação dos filhos para a mãe, vamos começar a matar crianças para aliviar a pena das mulheres? O problema não é a existência dessa criança, o problema é o entendimento de que a mulher deva ser a única ou principal responsável por criá-la. O direito que deveríamos estar exigindo não é a legalização do aborto, mas que toda a sociedade se responsabilize pelos cuidados dispensados às crianças e aos jovens.
Isso, na prática, seria possível não só com a mudança do pensamento (divisão de tarefas igualitárias entre os membros das famílias), mas com a criação e a universalização de estruturas comunitárias, como unidades médicas especializadas na saúde da criança e da mulher, creches, escolas, centros culturais e esportivos, em resumo, uma gama de serviços de qualidade que possibilitariam à mulher, durante e após a gestação, seguir a vida que ela escolher para si sabendo que o filho estará bem amparado. Utópico? Então para que escreveram lá no ECA: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”? Só para enfeitar?
No papel, essas crianças já deveriam estar sendo cuidadas por toda a sociedade, mas por que continuamos delegando todo o ônus às mulheres a ponto de achar que tirar a vida do feto é igual a deliberar sobre o próprio corpo? A mãe e a criança são a mesma pessoa? No entendimento da nossa sociedade, parece que sim, de modo que até muitas feministas reproduzem o bordão “meu corpo, minhas regras”, mas não deveria ser. São dois indivíduos, por isso deve haver dois tratamentos diversos. Meu corpo, minhas regras. Corpo do bebê, regras dele.
O aborto legal não salva mulheres, já que, conforme apontam dados do Ministério da Saúde (vejam o vídeo que eu sugiro mais abaixo), a maioria esmagadora dos óbitos maternos não são decorrentes de abortos, mas de atendimento médico inadequado às parturientes. Tentei encontrar por mim mesma outros dados, mas infelizmente o site do Ministério da Saúde é desatualizado e um tanto confuso; de específico, achei só este documento, só que os dados são de dez anos atrás.
Mais uma vez, cito o ECA: “É assegurado a todas as mulheres o acesso aos programas e às políticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo e, às gestantes, nutrição adequada, atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal integral no âmbito do Sistema Único de Saúde”. O descumprimento dessa lei é que mata pessoas, tanto mulheres como crianças – e cuidado, gente, pois acabamos de aprovar uma lei que corta os gastos em serviços públicos (a famigerada PEC 241/55) e temos um ministro da Saúde (vamos dar nomes aos bois, sr. Ricardo Barros) que não se conforma que o SUS não gere lucros. Em vez de lutar pela vida de todos, vamos sacrificar crianças para "aliviar a consciência", achando que ao menos as mulheres estarão sendo salvas? Com a legalização do aborto, mulheres que efetivamente querem ter seus bebês continuarão morrendo, porque o sistema público de saúde é péssimo e o particular é caríssimo. Esse é o ponto que deveria estar sendo discutido.
Amigas feministas, eu sou não o inimigo e espero que não me tratem como tal. Sou uma de vocês, uma mulher revoltada com o modo discriminatório como somos tratadas e tentando pensar em formas de a vida ser melhor para todas nós. Minha proposta é que nos direcionemos para o ponto central desta questão de maternidade (desejada ou não): em vez de legalizar o aborto, nossa vida seria muito melhor se houvesse serviços bons e disponíveis para as mães e as crianças.
E o caso das mulheres que engravidaram, por falta de informação ou descuido, e não querem o filho? Sem problema, basta que elas conduzam a gestação até o fim e depois passem o cuidado do bebê a quem o queira e seja capaz disso. Preocupada com como essa gestação afeta sua vida profissional? Pois é, mais uma vez, o problema não é o bebê, é o mercado de trabalho, que marginaliza as gestantes, tratando-as como mera despesa para a empresa. Preocupada com a discriminação por "abandonar" o filho que saiu do seu ventre (você não vai depositá-lo numa lata de lixo, certo? Então não seria abandono)? De novo, não é culpa do bebê, é da sociedade que acha que existe o tal do “instinto materno”. O amor se constrói com base na reciprocidade, as relações sociais são mais complexas do que o ideal da mãe que se sacrifica pelo filho. Não somos obrigadas a sermos amáveis nem a exercermos o papel de cuidadoras, esse fantasma "Marcela Temer" não deveria nos assombrar, precisamos exorcizá-lo de nós – inclusive da própria primeira-dama, coitada.
Meu ponto é: vamos nos concentrar nos problemas reais, por favor, em vez de achar que matar crianças resolve tudo. O buraco é bem mais embaixo. Cansei de postagens ofensivas sobre legalização do aborto, gente chamando o outro de burro e toda essa guerrinha desinformada que o Facebook é experto em proporcionar.
Segue um vídeo com dados que me convenceram de que o aborto não vai melhorar a vida de ninguém (https://www.youtube.com/watch?v=7QI5ZN9jQKI). Vinte minutos é longo demais? Claro, porque é mais fácil repetir slogans e palavras de ordem em vez de gastar um pouco mais de tempo para se informar sobre questões sociais importantes... Seu tempo, suas regras.
Ah, e o ECA na íntegra: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm. É chocante ver a disparidade entre o texto da lei e a realidade.
vc falou do da disparidade do ECA e da realidade e só consegui pensar na lei de execução penal... dá uma olhada, haha
ResponderExcluirhttp://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7210compilado.htm
Ana