Corpo corpo corpo corpo corpo corpo corpo porco porco porco
Testando, testando. asdfg asdfg asdfg. Tem alguém na linha?
Oi! Hoje vou fazer um post mais pessoal (o que não é muito a regra deste blog,
e nem pretendo que seja, mas o assunto exige uma honestidade completa), então
puxa uma cadeira, chega aqui pertinho e finge que minha vida te interessa. Vai
que, no fim das contas, algo da minha experiência tem a ver com a coisa que tá
te grilando no momento.
Por exemplo, você já digitou no Google “dieta sem
sofrimento”, “exercícios para afinar cintura”, “dicas para emagrecer rápido” ou
similares? Meu histórico virtual denuncia tudo isso. Os amigos se irritam
quando conto para eles, mandam eu largar de ser besta e olhar no espelho,
porque eu sou magra. Sim, sou magra, mas a custo de autocontrole alimentar e
exercícios, não aquele tipo naturalmente magra que come de tudo (odeio as
modelos que dizem isso em entrevistas, não pode ser verdade!). E, como mulher
comum, vivo o drama diário de, se der uma descuidada, a calça já aperta. Daí corro
para o Google com suas receitas mágicas. (A propósito, nenhuma fórmula rápida funcionou
para mim até hoje, e olhe que passei mais tempo da minha vida adulta em dieta
do que comendo tudo o que realmente gostaria.)
Escrevo este post para refletir sobre o sofrimento de a
gente querer ter um corpo diferente, mesmo sabendo que nunca vai atingir esse
objetivo. Pessoalmente, acho que já estou lidando melhor com a questão – daqui
a pouco conto como me resolvi –, mas ainda acho pertinente tratar francamente
da questão, porque tantas outras mulheres (sim, somos as mais pressionadas
pelos padrões de beleza) se martirizam por isso.
A esta altura do campeonato, acho que a maioria de nós já
sacou que o desejo de magreza é despertado desde cedo devido ao bombardeio
midiático de figuras esquálidas. São as magrelas que dominam TV, cinema, revistas,
vitrines, outdoors (e não só aqueles anunciando produtos de beleza, mas até os de
empréstimo pessoal, farmácia, Prever etc.), dando a entender que gordos são uma
anomalia. Racionalmente a gente sabe que ser magra não é necessariamente melhor
– oras, existem magras bonitas e feias –, mas quando sai às compras, se o
corpinho não estiver enxuto, você logo percebe que as lojas mais elegantes só
vestem silhuetas mínimas. É aí que você pensa como seria bom trocar o seu
perfil exclusivíssimo por um esqueletinho-padrão. Se você passa do 44
(dependendo da loja, o limite é 42), você vai perceber que as últimas
tendências da moda não são para o seu bico, e alguma vendedora cretina vai te
sugerir aquela loja de tamanhos grandes, cuja vitrine você nunca se deu ao
trabalho de examinar, porque os modelos são horríveis.
Esse é apenas um engodo de sair do padrão corporal, nem é o
maior. Com o aumento do movimento plus-size, acho que ele tende até a
desaparecer, até porque a indústria não vai recusar grana de um mercado
potencial. Nós sabemos que a discriminação é bem mais ampla, mas não é bem
disso que eu gostaria de tratar aqui. Eu nem seria a pessoa mais indicada para
testemunhar sobre marginalização social dos gordos, dado que nunca recebi um
xingamento relacionado ao meu corpo que não viesse de mim própria.
Maldita autocrítica. Sobre isso, a filosofia zen alerta: a
gente tende a achar que a nossa condição atual nunca está tão boa, cremos que a
felicidade só virá se obtivermos algo a mais. Somos tão insatisfeitos que
chegamos ao extremo de às vezes obter exatamente o que queríamos e nos
frustrarmos por não ser “tudo aquilo”. O modo como vemos nosso próprio corpo,
com julgamentos e até rejeição, é um exemplo do que já fazemos com a maioria
dos aspectos da nossa vida: desejamos o que não somos/temos. Solteiros querem
casar, casados querem putiar, desempregados querem trabalhar, trabalhadores
querem relaxar, gordos querem emagrecer, magros querem emagrecer mais ainda
etc. etc. A consequência dessa lógica é que você se mata em nome de um ideal
autoimposto, seja para realiza-lo (tantas horas maçantes na academia, tantas
situações em que você passou vontade de uma comida), seja para se punir por ter
falhado (analisar todas as roupas bonitas que não servem mais, se vestir como
um saco de batata para esconder as gordurinhas, passar fome e logo depois se
entupir de comida).
Voltando ao meu relato pessoal (vocês ainda têm saco?), vou
contar como estou lidando com a minha noia corporal. Na infância, eu vivia à
base de guloseimas (e minha mãe cozinhar maravilhosamente também não ajudava),
então lembro de ter uma pancinha que, quando eu sentava, se dobrava em três
camadas. Claro que, exposta desde o nascimento ao elogio geral da magreza, eu
já me sentia feia e desejava ter cinturinha de pilão. Minha maldição foi que eu
cheguei a tê-la sem nenhum esforço, graças aos genes “altões” do meu pai. Dos
10 aos 13 anos cresci 35 cm, aí a massa corporal se distribuiu tanto que eu
virei um palito. Me sentia ótima por ter o mesmo IMC da Gisele Bündchen, e isso
comendo só bobagens – literalmente, a “piece of cake”.
Ao longo da adolescência, consegui manter bem o peso sem
qualquer disciplina, praticava esportes por pura diversão, fora o metabolismo
rápido dessa fase. Fiquei confiante demais, achando que era uma dessas magras
que podiam comer qualquer coisa. Uma vez, a professora de Educação Física mediu
nossas gorduras corporais, e meu índice foi um dos mais altos da turma, mesmo
eu pesando apenas 50 kg. Nem liguei, eu parecia magra, e era isso que me importava.
Ah, a arrogância de estar por cima da carne seca (ou, no caso, ser a carne
seca), é o que me faria desabar de um ponto mais alto quando perdesse o
controle do meu peso e surgissem pequenos problemas de saúde (gastrite,
colesterol alto, falta de ar). O problema começou quando entrei na faculdade.
Parei com todos os esportes (por que não tem Educação Física no Ensino
Superior?), virei uma nerd sedentária e, desde então, ganhei quase dez quilos.
Como eu era absurdamente magra antes, os primeiros quilos
foram bem-vindos, mas nos últimos tempos me dei conta de que eu continuava a
engordar numa progressão constante, um quilo por ano, e sem justificativa
nenhuma – hoje em dia já não extrapolo na comida, ando muito a pé e de bike,
faço yoga. Pensei: meu Deus, neste ritmo, daqui a dez anos quanto vou pesar? E
daqui a cinquenta? O que vai estourar primeiro quando eu envelhecer, os joelhos
ou o coração (dois problemas típicos da família)?
Como podem ver, minha situação é bem diferente de ser gorda.
O pânico foi descobrir que minha genética altona também possuía os genes
bundudos, coxudos e braçudos (a tal gordura localizada, que perturba a maioria
das mulheres), e eles estão se manifestando bem italianamente, crescendo feito
massa de pão em dia quente. Várias vezes me desesperei quando as roupas não
serviam, tentei dietas loucas que só me estressavam e me desesperavam. Passava
uma semana inteira sem ingerir açúcar, descontando a abstinência em todo mundo,
e nada de aquela saia lápis de lãzinha, que nem era tão justa assim, entrar.
Meu vestido tubinho não passa pelo meu quadril desde 2013. O jeans skinny, se
fechar com sorte, não me permite mais dobrar a perna para caminhar. Foi então
que eu percebi que meu incômodo maior não era apenas o corpo atual, com suas
inéditas celulites e dobrinhas, mas ter que me disciplinar sem, no entanto,
recuperar o corpo que eu tinha antes sem me esforçar. No fundo, eu preferia ser
magra do que saudável. Eu não tinha mais nem uma coisa nem outra, mas só estava
obcecada em recuperar a primeira.
Se era a estética que me motivava, então seria ela que me
salvaria. Peguei as roupas que não me serviam mais e enfiei tudo num saco fora
da vista. Ninguém merece abrir um guarda-roupa cheio de roupas lindas, sabendo
que pelo menos 20% daquilo não serve – minha sorte é que sempre preferi cortes
mais soltos, senão essa percentagem seria bem maior. Ficaram as peças mais
básicas. Eu tinha que me resignar a ser modesta porque tinha engordado? Revoltada,
fui ao shopping e comprei umas roupas bem deslumbrantes: saias e shorts com
tecidos mais estruturados e cortes triangulares, para não marcarem o bumbum-é-o-tchan
(105 de bundinha é fichinha, Sheila!).
Com a recauchutada no guarda-roupa, me senti mais aliviada,
pois conseguia me pôr de novo elegante. Larguei a bobeira de achar que, porque
estava acima do peso desejado, não podia me vestir bem, chamar a atenção para o
meu corpo. Os outros podem me achar ridícula, apontarem pro culote, pra
celulite, pro mexe-mexe, pois que fiquem com essa secura, com essa fome! Eu
estou saudável, elegante e plenamente saciada – não só de comida, mas de bons
pensamentos. E foi assim que caiu a ficha da autoaceitação: oras, se eu acho
tanta gente gorda bonita, por que não aplico o mesmo conceito positivo a mim?
Já avisei meu namorado que vou ser uma mamma bem italiana – “são meus genes,
não vou entrar na faca e nem me internar em academia pra fingir que sou
diferente, você vai ter que me amar assim!” –, não quero saber de frases como
“você relaxou na dieta, não era assim quando nos conhecemos”, outra cretinice
sem-fim: exigir que a gente tenha corpo de 18 anos para sempre. Graças a Deus
que não tem mais! Todas aquelas espinhas, o mau gosto para roupas, a
inabilidade para ajeitar o cabelo, a deselegância dos gestos...
(Um parêntese importante. Do começo ao fim do meu texto,
tenho reforçado a questão da beleza. Esses dias eu li uma colunista feminista
do NY Times que denunciava como a tendência “beleza plus-size” também é
problemática, já que continua reforçando a exigência de as mulheres serem
lindas. Fiquei intrigada. Por um lado, fazia sentido o que ela dizia, pois é
mesmo um tipo de pressão social, por outro, me parece que a busca da beleza não
é algo tão fútil assim. A busca por ornamentação é um elemento fundamental nas
mais diversas culturas, de modo que combinações criativas de formas, texturas e
cores se aplicam nos mais diversos lugares: construções, vestimentas e até ao
rosto humano. Também é algo que identificamos quase instintivamente na natureza
sem que alguém tenha racionalmente arranjado aquilo (a beleza de um animal, uma
flor, um rio, uma montanha, o pôr-do-sol etc.). Agora, se alguém determinar que
há mais beleza em Monet do que numa pintura ioruba, daí talvez esse conceito
esteja sendo empregado de modo problemático. Fora isso, a necessidade de se
cercar de beleza me parece perfeitamente aceitável.)
Um epílogo deste relato pessoal cheio de frases afirmativas,
mas sem uma única resposta prática. Nas últimas semanas, venci a preguiça e voltei
a praticar yoga com determinação. Como eu estava mais pesada e flácida, tive
dificuldade em alguns asanas que antes me eram fáceis, mas persisti para recuperar
minhas habilidades anteriores e até superei algumas. Recentemente, percebi que
a barriga, os braços e as pernas ficaram mais rijos e que minha coluna doía
menos, eu respirava melhor, sentia-me mais ativa, disposta e ereta (ah, que
diferença isso faz na elegância), tinha menos vontade de ingerir açúcar branco,
fritura e carnes gordas. Era disto que eu precisava para ficar bem com meu
corpo: me sentir forte, estar em plena posse de mim. Uma coisa que eu gosto do
yoga é que a gente não vê de cara um resultado superficial – meu peso é o
mesmo, as medidas não diminuíram –, mas a gente tem um resultado direto na
qualidade de vida.
E o que isso tem a ver com a gordura? Finalmente me convenci
de que não faz mal ganhar tamanho e peso (é só um número, a noia tá toda na
nossa cabeça), desde que isso não esteja minando minhas capacidades física e
mental. Quando me vem aquela vontade de me entupir de chocolate e eu cedo a ela,
isso não é sinônimo de liberdade, mas um sinal de que minha ansiedade tá descontrolada.
Depois o estômago dói (gastrite), e me sinto numa prisão tão terrível quanto
fazer uma dieta de 800 kcal por dia. O yoga me ensinou a alimentar meu corpo
com coisas boas, sem precisar contar calorias. É evidente a diferença entre comer
pão branco com queijo cheddar e uma banana com aveia e canela. Caloricamente,
dá na mesma, mas, no primeiro caso, a gente se sente mais pesada e indisposta. Nem
comer demais, nem viver de dieta: acho que está aí a medida para uma relação
saudável com o nosso corpo.
O que é o corpo, afinal? É a forma de nosso eu existir no
mundo, a única que conhecemos com certeza. E isso não é pouca merda, embora
haja gente aí fazendo parecer que é, dizendo que existiriam corpos mais ou
menos dignos devido a padrões que sabe-se-lá-quem determinou. Tipo medir
tamanho de crânio para dizer que uma raça é inferior a outra, sabe como? Esse
tipo de absurdo que a gente corrobora! A gente reafirma isso cada vez que odeia
o próprio corpo, que o deixa passando fome ou que o entope de alimentos ruins,
que o entalha na mesa cirúrgica ou que o deixa definhar num sofá.
Se você é gorda, e o único mal-estar que isso te causa é se
ver na expressão “gorda”, para que sofrer com uma imagem tão superficial de si?
Se você é magra e se acha melhor do que as outras por isso (já estive lá),
prenuncio que a velhice não vai ser fácil para você. Todo corpo tem suas
limitações, ou melhor, suas peculiaridades – uns mais alongados, uns mais robustos,
uns mais flexíveis –, e o negócio, a meu ver, não é exigir a igualdade entre
todos, mas buscar o melhor de cada um sendo fiel a si próprio.
PS: a expressão do título foi chupada de Hilda Hilst,
escritora deslumbrante que não se prendeu às identidades fixas. Ela foi uma
loiraça nas rodas chiques de São Paulo, mas também vestiu bata, deixou o cabelo
branquear e viveu sozinha num sítio com mais de 90 cachorros. Entre essas
metamorfoses, ela se fez uma grande artista.
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